Para o delegado da Interpol Jorge Pontes, o roubo das obras "Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso, e "O Colhedor de Café", de Candido Portinari, foi feito por ladrões ligados de antemão a um colecionador "fetichista", que quer as obras para seu desfrute pessoal, uma vez que sua comercialização no mercado é praticamente impossível. Já o filho de Portinari, João Candido, acredita que os ladrões pedirão um resgate pelas obras, como aconteceu em 2006 com a "Madonna" e "O Grito" de Edvard Munch, roubados dois anos antes, em Oslo.
Em qualquer dos casos, uma preocupação se apresenta: em que condições as obras estão sendo mantidas fora do museu. O roubo dos quadros de Munch traz uma perspectiva sombria: ambos foram recuperados pela polícia, mas os dois apresentavam danos profundos, como cortes, arranhões, manchas de umidade e perfurações.
Segundo a restauradora Regina Moreira, que trabalha no Museu do Louvre, em Paris, os principais fatores que podem causar danos a uma obra de arte são as condições de temperatura e umidade do local de armazenamento e a forma de manuseio e transporte.
Moreira explica que obras de arte se "estabilizam" às condições de temperatura e umidade (constantes, no caso de um museu) da sala em que se encontram expostas. E essas condições, conhecidas como "microclima", não podem ser alteradas abruptamente sob o risco de danificar a obra. Manuseio e transporte também preocupam, pois podem provocar machucados no quadro.
Em geral, considera-se adequada uma temperatura entre 18°C e 23°C, e uma umidade relativa entre 40% e 55%. "Telas são materiais orgânicos", explica a restauradora, "e respondem organicamente a variações do ambiente". Essas respostas podem acontecer na forma de dilatação e contração, que são causas de rachaduras na tinta.
Moreira é uma das autoras do livro "Au Coeur de la Joconde" (Ed. Gallimard, "no coração da Gioconda", em português) e a única brasileira a integrar a restrita equipe de restauradores do Louvre com autorização para literalmente por a mão na célebre pintura de Leonardo da Vinci --que também já foi vítima de furto, em 1911. Na época, o ladrão foi pego ao tentar vender a obra para a Galeria Uffizi, em Florença.
"É realmente quase impossível vender obras catalogadas e reconhecidas no mundo todo sem ser pego", diz Moreira. Para ela, "roubos de obras de arte são geralmente ato de um fanático ou de alguém que não conhece o funcionamento do mercado de arte".
A Gioconda, ou Mona Lisa, não sofreu danos enquanto esteve em poder de ladrões, e as circunstâncias de seu furto nunca foram totalmente esclarecidas. O ladrão, o italiano Vincenzo Peruggia, era funcionário do Louvre e conseguiu sair do museu com ela debaixo do casaco. Peruggia foi preso ao tentar vender a pintura, depois de tê-la mantido escondida por dois anos.
Julgado em seu país, o italiano teve a pena abrandada a pouco mais de um ano com a alegação de que o roubo tivera motivos patrióticos --ele desejava que a obra fosse devolvida ao país de origem. Há suspeitas, no entanto, de que Peruggia tivesse agido por encomenda do escroque argentino Eduardo de Valfierno, que pretendia comissionar várias cópias da pintura. Valfierno teria planejado vender as cópias do quadro, que, com o original desaparecido, teriam seu valor aumentado.