Um artista duplicado ou duas metades que se completam. Os grafiteiros e artistas plásticos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como osgemeos, transformaram a arte feita nas ruas de São Paulo em grandes obras que ganharam espaço em galerias de arte e museus do Brasil e do exterior.
Em viagem pela Europa, já são incontáveis as latinhas de spray usadas em grafites em muros, fábricas, castelos, museus e galerias. Desde julho na Espanha, depois de passar um mês na Escócia, os irmãos gêmeos embarcam para mais uma exposição, desta vez na Galeria Patricia Armocida em Milão, Itália. Mas como a dupla tornou-se tão popular? É o que os dois contam na entrevista a seguir:
 Castelo de Kelburn, Escócia, foi construído no século 13 e recebeu grafites de osgemeos, Nina e Nunca |
 Grafite "Fábrica dos Sonhos" de osgemeos e Nina, feito em fábrica de sprays na região de Barcelona, Espanha |
GRAFITES DE OSGEMEOS |
UOL - Há muitos anos vocês expõem em galerias estrangeiras. Como foi que isso começou? osgemeos - Nosso primeiro trabalho no exterior foi em 1999 em Munique, Alemanha, a convite de Loomit, um dos ícones do grafite mundial. Depois disso foram surgindo outros convites por toda a Europa... Em 2003 Darryl e Laure, donos da galeria Luggage Store, de San Francisco, nos convidaram para uma exposição solo de pinturas, esculturas e instalações, junto com algumas intervenções em espaços públicos. Essa foi a nossa primeira mostra nos EUA. Em 2005 passamos a trabalhar com a galeria Deitch Project de NY, onde nosso trabalho passou a ser mais direcionado ao universo da arte contemporânea.
A convite de Jeffrey Deitch, fizemos também uma exposição solo por lá, com instalações e pinturas. Com isso, outras portas se abriram e participamos de feiras de arte, representados por essas galerias, como a Miami Basel, Armory, Basel e Sparte, além de outros tantos projetos, como "Chromopolis", para os Jogos Olímpicos na Grécia, um mural em Coney Island, em Nova York, e festivais como o Cultura Nova, na Holanda. Nossa primeira exposição em uma galeria de arte contemporânea no Brasil, foi em 2006, na Fortes Vilaça (SP).
UOL - Vocês acreditam que a Europa e os EUA ainda estão à frente quando se fala em reconhecimento artístico?osgemeos - Existem dois segmentos diferentes aí. Por exemplo, nos EUA é muito comum ver artistas que sejam de uma linha figurativa, pop, um estilo que provoque. No Brasil, as galerias de arte contemporânea não estão muito acostumadas com artistas que tenham como ponto forte em seu trabalho a imagem, as figuras e um estilo de desenho próprio. Achamos que esse fator fez com que fizéssemos primeiro exposições fora e depois no Brasil.
A mostra "O Peixe que Comia Estrelas Cadentes", na Fortes Vilaça, foi um pouco diferente das outras exposições que acontecem lá. Isso foi bacana, quebrar os conceitos, as regras, modificar, inovar. Nunca tivemos medo de mostrar o que somos, independente do lugar ou do que as pessoas possam dizer. Acreditamos que os brasileiros se adaptaram bem a esse novo cenário.
UOL - Recentemente vocês estiveram em um projeto em Barcelona, grafitando uma fábrica de tintas, intitulado "Fábrica dos Sonhos". osgemeos - O projeto para a fábrica da MontanaColors foi especial, pois o consideramos da "família". Não só pela linda história que existe por trás desse nome, mas também por serem pessoas extremamente profissionais e de um coração imenso. Nos sentimos bem desde a primeira vez que trabalhamos juntos, em 2003. Agora, em 2007, repintamos a fábrica, já estava na hora de "reavivá-la". Demos este nome, de "Fábrica dos Sonhos", pois eles fabricam a tinta spray para que milhares de artistas possam transformar seus sonhos em realidade. Eles possuem uma preocupação em colocar no mercado produtos destinados especialmente para artistas de grafite, além dos projetos sociais e apoios culturais.
 Os brasileiros Nina, Gustavo e Otávio Pandolfo (osgemeos) e Nunca no Castelo de Kelburn, Escócia |
 Gustavo e Otávio Pandolfo grafitam o Castelo de Kelburn, Escócia |
GRAFITES DE OSGEMEOS |
UOL - Seus personagens ilustraram as paredes do castelo de Kelburn, na Escócia. Como foi participar de um projeto desse porte? osgemeos - O castelo de Kelburn, na Escócia, foi um dos mais importantes e divertidos que já fizemos. Não só pelo fator "histórico" de estarmos pintando e modificando um castelo do século 13, mas também pela responsabilidade de realizar um projeto que envolveu muita gente, como outros dois artistas brasileiros (Nina e Nunca), os organizadores e filhos do lord Boyle, David e Alice. Nós, os artistas, estávamos muito felizes por realizar esse projeto com tanta tranqüilidade e prazer, mas também um pouco preocupados em fazer tudo muito bem feito, fazer com que os estilos diferentes dos três entrassem em total harmonia, se tornando uma só história.
Muito de nossa inspiração veio de lá mesmo, das pessoas que conhecemos. É sem dúvida um lugar mágico. Ao chegar, você se envolve automaticamente com o ambiente, com a família Boyle e já se torna parte daquela realidade. Fomos recebidos ao som da gaita de fole com um jantar típico escocês. Mas o mais gratificante foi ver a bandeira brasileira hasteada no mastro do castelo. Convivemos um mês todos juntos no castelo, com todos os costumes escoceses, aprendemos muito com o projeto.
UOL - Vocês trouxeram artistas de fora para participar de projetos no Brasil, como aconteceu no "Whole Train Nordeste Tour", no início do ano. Em que ponto os traços feitos por grafiteiros de outros países se diferenciam dos realizados pelos brasileiros? osgemeos - Queríamos que o projeto tivesse esse "conteúdo", de artistas nacionais e internacionais, que acontecesse essa mistura de estilos e experiências. E também que esses artistas, de realidades tão diferentes, pudessem dividir o mesmo espaço, as mesmas idéias, entrando em total harmonia. O convite a artistas como Loomit, Peter M e Content Provider aconteceu por dois motivos. Primeiro pelo fato de realmente eles terem um estilo muito original e por serem extremamente dedicados. Segundo, e mais importante, por suas experiências como grafiteiros. São artistas que pintam há mais de 20 anos e continuam pintando muito.
Uma das coisas mais legais deste projeto foi a CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos) ter realmente acreditado no projeto. A alegria das crianças que moram ao longo da linha do trem era indescritível, elas ficavam esperando o trem ansiosas, e, quando ele passava, saíam correndo atrás dele, gritando. São crianças que vivem em áreas rurais, em casas de pau-a-pique, e muitas delas tiveram o primeiro contato com a arte com os trens pintados.
UOL - A migração do grafite das ruas para museus e galerias faz com que o trabalho perca a sua essência? osgemeos - Em nosso trabalho ele não perde a essência. Podemos estar em qualquer lugar ilustrando nossa "história", que será sempre a mesma "história". O que muda é que o grafite tem a característica única de ser a arte feita na rua e apenas lá. Artistas de grafite podem ir para as galerias, mas a essência dessa arte está na rua e nos trens, e não em galerias de arte e museus. Quando ele passa para esse mundo, na nossa opinião, deixa de ser grafite e passa a ser arte conceitual, arte contemporânea.
UOL - Qual a diferença entre a técnica usada nas ruas e a usada nas galerias? osgemeos- Não há diferença, é a mesma técnica e estilo. Só o que muda é a maneira de trabalhar. A rua te dá liberdade de improvisar e usar o espaço que já existe. Nas galerias e museus você cria esse ambiente, transforma-o.
UOL - Se hoje vocês pudessem escolher um lugar diferente para grafitar, qual seria?osgemeos - Seria a última parede que a prefeitura de São Paulo pintou de cinza.
UOL - E qual a proposta de vocês para essa questão? Vocês acreditam que a arte urbana pode ser regulamentada? Osgemeos: Não, não existe regulamentação para a arte. Nossa proposta é que não haja repressão contra a expressão artística urbana, como nunca houve. Que os jovens possam pegar suas tintas e, em vez de cometer crimes, tenham a oportunidade de criar, se expressar e usar a cidade de uma forma positiva. Isso é uma solução, é devolver a liberdade de expressão. Abrir portas e não fechá-las. Uma cidade como São Paulo, com seus milhões de problemas, e a prefeitura atual se preocupa em contratar uma empresa só pra limpar grafite, seja ele qual for, onde for, pra quem for. É muito fácil tapar o sol com a peneira.