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10/08/2007 - 21h32

"Minha vida inteira é uma mentira", afirmou Gerald Thomas no Bate-papo UOL

Da Redação
Gerald Thomas conversou com o jornalista Marcelo Tas no Bate-papo UOL dessa sexta-feira (10). A conversa aconteceu num clima de "velhos amigos" e arrancou confissões do diretor teatral.

"A minha vida inteira é uma mentira na medida em que eu não sei qual a minha verdadeira nacionalidade e não sei até hoje o trajeto completo que percorri quando criança. E ninguém mais pode me responder pois estão todos mortos", afirmou. "Aos 28 anos, estava passando um mês no Brasil e minha mãe chegou para mim e disse: 'seu pai não é o seu pai'", depois disso e da morte de sua mãe, o dramaturgo encontrou um passaporte de sua avó que se tornou um "problema".

O resultado de tantas descobertas rendeu a peça "Rainha Mentira/Queen Liar", na qual Thomas tenta pulverizar assuntos pessoais. "Esse texto é baseado em minha vó e minha mãe. Toda peça minha é autobiográfica. Mas esta é um pouco mais", sentenciou.

Quando questionado sobre os momentos tristes de sua vida, destacou a morte de seus amigos e pais, em especial a de sua mãe. "Eu não consigo lidar com a morte. E é a única coisa de que temos certeza".

O diretor falou também sobre sua carreira, novos talentos do teatro nacional e sobre o espetáculo "Terra em Trânsito", que ao lado de "Rainha Mentira/Queen Liar", faz parte do projeto "Terra em Trânsito e Rainha Mentira, duas peças de Gerald Thomas" em cartaz no Sesc Anchieta.


Leia a seguir a íntegra do bate-papo que contou com a participação de 248 internautas.


(08:11:20) Gerald Thomas: Estão em cartaz "Rainha Mentira / Queen Liar" e "Terra em Trânsito". "Queen Liar" é uma analogia de "King Lear" de Shakespeare e é baseada em minha vó e em minha mãe, esta dupla tem um passado.

(08:10:56) Marcelo Tas: Hoje no Bate-Papo UOL, um mestre do teatro, querido amigo que por conta do nosso envolvimento afetivo de mais de duas décadas, já fomos até anunciados como namorados, o sempre surpreendente e polêmico, ah, essa palavra polêmico, seja bem-vindo ao BP UOL, Gerald Thomas.
(09:03:52) Gerald Thomas: Eu tinha esquecido... é coisa de blog. Tem uma coisa real entre você eu que é uma amizade muito longa que começou em Nova York na fila do correio e depois você me mostrou todos os vídeos de Ernesto Varela. Eu tive uma clise de riso enorme...

(08:14:16) Marcelo Tas: É inspirada na sua mãe. A carta que foi lida no velório dela é lida em cena. Por que você não foi no enterro da sua mãe?
(08:15:40) Gerald Thomas: Aos 28 anos eu estava passando um mês no Brasil e minha mãe chegou para mim e disse que meu pai não é o meu pai. Ela falou a seco. Nesta hora se considera cada abraço, cada beijo que foi dado porque tudo foi farsa. Ao mesmo tempo se percebe que foi muito bem criado. O afeto fica sendo dobrado por aquela pessoa, multiplicado por dez e ao mesmo tempo você reconsidera tudo. A carta não foi lida por mim porque eu não fui ao velório, não tive coragem de ir. Tem uma lei no Brasil que diz que o corpo deve ser enterrado no dia seguinte e eu não conseguiria chegar a tempo ao enterro as 10h30 da manhã. Na verdade eu não consegui lidar com os últimos três anos da minha mãe em um asilo judaico na Tijuca.
(08:27:49) Geovanna/UOL:

Marcelo Tas recebe o diretor teatral Gerald Thomas no Bate-papo UOL (crédito: Eduardo Piagentini/UOL)

(08:15:49) Marcelo Tas: Qual a maior mentira que você já contou?
(08:19:17) Gerald Thomas: A minha vida inteira é uma mentira na medida em que eu não sei qual a minha verdadeira nacionalidade e não sei até hoje o trajeto todo que percorri quando criança. Esta pergunta agora ninguém mais pode responder porque estão todos mortos. Não sei, por exemplo, se nasci em um quarto de hotel em Nova York... eu tenho certidões em todo o mundo. Eu sou 100% brasileiro, 100% alemão, 100% americano e no entanto fui criado na Inglaterra, cheguei lá aos 16 anos, casei e tive um filho lá que está com 33 anos. Completei 53 anos em Miami. O teatro é mentira, eu minto no palco... já a minha vida é escancarada...
(08:24:13) Gerald Thomas: Sobre o Paulo Francis: Eu peguei aquela cadeira do Manhattan Connection ainda quente duas semanas depois da morte dele e fiquei lá um tempo. Era eu e o Nelsinho Motta, no meio o Lucas e o judeu insuportável que era o Caio Blinder... Eu não via o programa antes. O Jabor foi ver o espetáculo na quarta-feira e nós brincamos muito sobre o programa que para mim foi divertido fazer até certo ponto. Depois eu comecei a ver o programa com o Jabor e comecei a admirá-lo, leio as suas crônicas, ele serve de inspiração para mim como cronista, figura combativa e intelectual, coisas que o Francis não era. O Francis posava como leitor de orelha de livro, uma coisa que de fato não era. O Brasil tem grandes intelectuais brasileiros como o Tarso de Castro, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Ivan Lessa... A pessoas que desautorizam os maiores autores do século passado são de uma bestialidade absurda. De repente vem um e diz que Beckett não é nada, isto é um deserviço enorme. Tem pessoas que estão se formando agora que os levam a sério. "Esperando Godot" é a peça que dividiu o século, tem que ler, tem que fazer, tem que montar... O Nelson Rodrigues está entre os cinco maiores autores do mundo.
(08:28:31) Gerald Thomas: Sobre o workshop: Eu falei muito da importância da solidão na vida das pessoas. Hoje em dia a garotada marcam para tomar chops e gastam energia e tempo falando sobre porra nenhuma, se embebedando nos bailes da vida. Mergulhar na solidão é entender a sua própria dor, é partir da própria dor. Para entender a própria dor e ficar sozinho, sem me drogar, sem anestisai deforma alguma, legal ou ilegal... Vendo através da humanidade o holocausto, inquisiçoes, Kosovo, guerra do Vietnã, tsunami, Stalin, Khomeini... até que hoje estamos muito bem na foto...
(08:34:08) Geovanna/UOL:

Gerald Thomas fala sobre "Rainha Mentira" e "Terra em Trânsito" (crédito: Eduardo Piagentini/UOL)

(08:06:14) thomps: olá, gerald, tudo bem? como terminou sua suposta polêmica com Felipe Hirsch?
(08:30:01) Gerald Thomas: thomps, isso me tornou chato. Esse cara é porre, na boa. Este chato está lucrando em cima do meu negócio e nem o pronuncio mais...

(08:07:33) JOAQUIM: como espectador eu vejo que vc tem um estilo muito claro em suas peças que ja ate viraram marcas (fumaca, off, dublagem, explosoes) - ate que ponto isso eh uma prisao que impede voce de explorar outros estilos e formas e ate que ponto isso eh uma maneira de exercer a liberdade criativa?
(08:33:33) Gerald Thomas: Joaquim, estou tentando desesperadamente me livrar desta estética. Anteontem foi a primeira reunião depois do espetáculo e eu estava tentando explicar para a Companhia que não aguento mais esta prisão, quero me livrar disto. Hoje repeti com as pessoas do workshop que estou louco para voltar a experiência que tive na Croácia com "Nowhere Man". Era uma sala normal, dois panos pretos e um bando de caixas, mais nada. O Damasceno de shortinho e tênis furado e todo mundo fazendo de conta. E porque não posso fazer isso?
(08:34:50) Gerald Thomas: Sobre o Nanini: O Nanini é um grande companheiro de palco, trabalhar com ele é como trabalhar com um co-autor. Eu vejo aquela concha de retalhos depois no texto e falo ele enlouqueceu. Ele é um musicólogo e compositor. É o maior presente trabalhar com ele.

(08:07:50) Revoltado!!!: Olá Geraldo e Tas! Como vcs estão? Como tem sido a resposta do público as peças?
(08:35:14) Gerald Thomas: Revoltado!!!, pode ser melhor se vocês vieram aos flocos.
(08:39:58) Geovanna/UOL:

Gerald Thomas conversa com Marcelo Tas no Bate-papo UOL (crédito: Eduardo Piagentini/UOL)

(08:07:54) thomps: gerald, por que vc anuncia tantas vezes que vai parar de escrever e dirigir? o que te motiva a voltar?
(08:36:53) Gerald Thomas: thomps, eu sou um workaholic. Diferentemente de outros autores de teatro, eu não consigo só escrever peças, escrevo textos, tenho blog...

(08:37:19) Marcelo Tas: Qual o pior momento da sua vida?
(08:39:42) Gerald Thomas: Tem muitos momentos tristes. Fora a morte da minha mãe, tem a morte do meu pai. Eu não consigo lidar com a morte. A única coisa que sabemos com certeza é a morte. E quando vem a gente não se conforma. O resto é esta pirataria que é a vida. A morte que mais me abalaria seria a de uma pessoa que eu mais amo. Mas tem mortes que eu desejaria que aconteça, políticos de carreira, imbecis do poder que decretam que tantos civis podem morrer por dia que o petróleo é mais importante...

(08:13:15) cida: Li que o texto de "rainha da mentira" tem diversas coisas bastante pessoais. Confissões até... como foi lidar com isso? confrontar fantasmas da infância e do passado de maneira geral?
(08:42:56) Gerald Thomas: cida, o passaporte da minha vó é o problema. Eu não faço outra coisa, toda peça minha é autobiográfica. Esta peça é um pouco mais. A minha vó era uma judia que achava que o filho se enforcou por causa da minha mãe que o encontrou, isto tem na peça. Aos nove anos de idade a minha mãe entrou no banheiro e encontrou o irmão de 17 anos, que era gay, enforcado. A minha vó queria que ele tivesse uma relação amorosa com um oficial da Gestapo para escapar do nazismo. Ela era viciada em heroína e achava que o nazismo não ia chegar na alta sociedade. A minha mãe estudava em Genebra.
(08:46:31) Geovanna/UOL:

O diretor teatral Gerald Thomas ao vivo no UOL (crédito: Eduardo Piagentini/UOL)

(08:25:13) Zé Celso.: Muitas pessoas consideram o seu trabalho "Único no Mundo", mas certamente vc teve bases para ser o que é hoje. Quem são suas referências no Teatro?
(08:48:06) Gerald Thomas: Zé Celso, Samuel Backett, meu mestre no teatro, eu o via sempre em Paris. Tadeusz Kantor foi uma grande referência em meu trabalho. Na Alemanha, Nuremberg, eu o vi expulsando um punk alemão da platéia. Peter Brook, eu invadia os seus ensaios em Midsummer Night's... Victor Garcia, um metro e meio de talento puro.

(08:31:41) Pedro: E terra em transito... é inspirada a priori em que??
(08:49:49) Gerald Thomas: Pedro, "Terra em Trânsito" já rodou o mundo, está sendo agora preparada em alemão. Ela é também inspirada no Glauber.

(08:35:31) katia: vc conhece algum dramaturgo, diretor de teatro da nova geração que valha a pena destacar?
(08:51:31) Gerald Thomas: katia, o K. Dias, Michel M. que está indo dia 12 para o Rio.

(08:35:54) Revoltado!!!: Gerald, vc já foi ilustrador e há um tempo é dramaturgo e diretor, vc já pensou fazer outras coisas como pintura e escultura?
(08:52:56) Gerald Thomas: Revoltado!!!, eu sou pintor. Escultor... o que mais querem que eu seja? O martelo é muito pesado e pó de mármore faz mal para o nariz, tô fora.
(08:55:46) Geovanna/UOL:

O dramaturgo Gerald Thomas ao vivo no Bate-papo UOL (crédito: Eduardo Piagentini/UOL)

(08:37:37) thomps: gerald, vc acha que as drogas ou medicamentos podem influenciar na produção de um artista e em sua visão de mundo?
(08:57:13) Gerald Thomas: thomps, não é atoa que se chama droga, mas tem muita gente que consegue. Williamsburg não consegue criar sem, eu já não consigo criar com... Eu usava cocaína para sexo, é o maior afrodisíaco que existe para fazer sexo durante 20 horas seguidas. Eu fumei durante 30 anos da minha vida e agora tenho repugnância, parei a seco. Eu detesto droga, maconha não dá certo comigo, fico rodando e dá vontade de dormir. Com álcool eu tropeço em mim mesmo. Eu tomei ácido e ficou tão chato ver a rua lilás e o céu amarelo. Para dormir eu uso rivotril de 2mm senão fico fritando que nem um camarão, é muita coisa na minha cabeça. Eu fico pensando em muita coisa e nada me segura. Alguma coisa tem que me frear.

(08:49:12) Cássia: olá Gerald! Como começou a sua relação com o teatro?
(09:01:17) Gerald Thomas: Cássia, no balcão de Jean Genet com o Victor Garcia. Eu penetrei naquele espaço, estava sendo formado em pintura no Rio pelo Ivan Serpa e Helio Oiticia. Estava em uma turma de adultos. Eu tinha medo de tossir, era uma criança e lá tinha um pessoal todo. O Ivan achava que eu não tinha que ter aulas práticas de arte moderna no MAM e me trouxe para uma sala em Copacabana. E lá eu ficava ouvindo coisas téoricas. Um dia eu encontrei com Sergio Mamberth e mandou eu vir para São Paulo, então fiquei na casa da Ruth Escobar e aí fui para os ensaios...

(08:51:49) gavo: Você trabalhou recentemente com personalidades midiáticas como Marília Gabriela, Reinaldo Gianechini e Sergio Groissman. Até que ponto a necessidade em converter seu trabalho em retorno econômico influenciou nessa escolha.
(09:03:14) Gerald Thomas: gavo, o Serginho antes de mais nada é um grande amigo, um maravilhoso ator em "Brasas no Congelador".

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