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06/07/2007 - 18h52

Bate-papo Flip: Sônia Rodrigues acredita ser inevitável fazer ficção sem ser autobiográfico

Da redação
Encerrando a série de Bate-papos promovidos pela Bravo! Online em parceria com o UOL, a escritora Sônia Rodrigues teclou direto de Paraty, onde ministra uma oficina de contos durante a Flip.

Com compulsão para a escrita, a contista ressaltou que acredita ser inevitável fazer ficção sem ser autobiográfico, e aconselha que jovens escritores sigam este caminho. "Acho que para começar eu diria 'seja autobiográfico'".

Filha de Nelson Rodrigues, a escritora também comentou a obra do pai, destacando as adaptações favoritas e personagens mais marcantes. Para Sônia, uma falha na obra do escritor e dramaturgo são os homens que integram sua ficção: "ele não gostava de homem, tinha insuficiente empatia (...) então, acho que a maioria dos personagens masculinos são carregados na fraqueza".

Leia abaixo a íntegra do papo realizado nesta sexta (6), direto de Paraty, que contou com a participação de 100 internautas

(04:04:57) BRAVO!: Oi, Sonia, tudo bem? Em primeiro lugar eu queria te agradecer por participar deste chat, em nome da Bravo! e do UOL.
(04:05:42) Sônia Rodrigues: Oi, Gabriel, eu também agradeço o convite.

(04:05:25) vera: Tô achando que o moderador dormiu
(04:05:33) BRAVO!: Oi, Vera, já estou aqui... rsrsrsrs

(04:06:02) BRAVO!: Sonia, você está coordenando as oficinas de contos aqui na Flip. Queria que falasse um pouco a respeito delas.
(04:06:43) Sônia Rodrigues: Está sendo muito legal. É um grupo bem eclético, engenheiros, jornalistas, professores, é impressionante como a literatura unifica.

(04:06:50) vera: É sua primeira oficina de contos?
(04:07:20) Sônia Rodrigues: Não, Vera. Eu vivo disso, faço oficinas o tempo todo.

(04:07:26) Josicleybson: Como foi que você descobriu seu talento?
(04:08:22) Sônia Rodrigues: Posso te chamar de Josi? Escrever pra mim é quase uma compulsão.

(04:08:39) BRAVO!: Já existe um escritor publicado que tenha se formado em uma de suas oficinas???
(04:08:53) Sônia Rodrigues: Alguns.

(04:09:24) BRAVO!: Sonia, a Flip homenageia neste ano seu pai, Nelson Rodrigues. Queria que você falasse um pouco sobre ele e sobre a homenagem.
(04:10:28) Sônia Rodrigues: Eu acho super importante meu pai ter sido escolhido. Amplia a necessidade de se ler Nelson Rodrigues, um número maior de pessoas fica sabendo da atualidade de Nelson.

(04:10:30) tati_25: Gostaria de saber o que você, particularmente, acha dos textos que seu pai deixou ao povo brasileiro.
(04:11:10) Sônia Rodrigues: São tantos os textos, dos vários Nelson que acho que servem para meditar sobre quase tudo.

(04:11:17) Josicleybson: Voce já escreveu alguma peça?
(04:11:59) Sônia Rodrigues: Josi, escrevi "A Princesa do Meio" que foi premiada em na Eco-92.

(04:12:02) fernanda: Oi Sonia, tudo bem? Como é o reconhecimento de contistas hoje na literatura brasileira? Sabemos que mesmo aos escritores de romances o reconhecimento demora a acontecer.. é muito diferente com contistas?
(04:13:05) Sônia Rodrigues: O reconhecimento é sempre difícil. E no Brasil a tradição de contos é pequena ainda, acho.

(04:13:09) Freitas: Sonia, boa tarde. Uma vez você afirmou que há muito de autobiográfico em algumas de suas histórias. É uma tentação de quem faz suas oficinas ser execessivamente autobiográfico. Há uma medida certa?
(04:14:39) Sônia Rodrigues: Freitas, a Rachel de Queiroz disse uma vez que o escritor quando escreve ficção está fazendo autobiografia. Acho inevitável. O difícil (e o mais importante) é transformar o que é da vida índividual matéria para todo mundo.

(04:14:43) davi: O que você tem a dizer pra quem está começando agora?
(04:15:14) Sônia Rodrigues: Oi, Davi, acho que para começar eu diria "seja autobiográfico".

(04:15:14) vera: O que pode nos dizer sobre o conto ser considerado uma "literatura menor"?
(04:16:04) Sônia Rodrigues: Vera, quem considera? Eu adoro escrever contos. Não acho que a gente deva ligar para considerações limitadoras da escrita.

(04:15:40) julio 4.0: Tive a oportunidade de ministrar uma oficina de contos na periferia de Curitiba, percebi que as pessoas se maravilham de lê-los e de escrevê-los, o por que existe um preconceito em relação a eles ainda.
(04:17:38) Sônia Rodrigues: Oi, Julio, as pessoas têm preconceito contra o que não conhecem direito, não é mesmo?

(04:16:12) Victor: Você já fez alguma biografia?
(04:17:03) Sônia Rodrigues: Vitor, eu não. Biografia não é um gênero que aprecie particularmente.

(04:20:36) Geovanna/UOL:

A escritora Sônia Rodrigues tecla ao vivo, direto de Paraty

(04:17:40) Freitas: Oi, Sônia. Você lê blogs? O que acha deles no geral? É um exercício útil para literatura?
(04:18:35) Sônia Rodrigues: Freitas, eu leio, quando posso e tenho um blog. Acho que é bom para a gente "manter a mão", escrever sempre.

(04:18:49) maria: Sônia, como é a sua relação com Joffre e Nelsinho?
(04:19:18) Sônia Rodrigues: Maria, prefiro não responder perguntas que envolvam outras pessoas.

(04:19:23) Josicleybson: O que você acha do reconhecimento de uma escritora ou ator aqui no Brasil????
(04:20:11) Sônia Rodrigues: Josi, é difícil para um artista achar seu público, mas quando encontra é muito gratificante.

(04:20:14) vera: Sonia, uma coisa tem me deixado grilada. Essa história de que para se ser moderno tem que se escrever sem pé nem cabeça. E a história, o enredo, como fica?
(04:21:54) Sônia Rodrigues: Vera, eu não dou a mínima para ser moderna. Acho importante história, enredo, gosto do texto de prazer, onde a narrativa é o mais importante. Também não tenho nada contra à narrativa fragmentada. Eu, como leitora, gosto do que gosto.

(04:21:56) BRAVO!: Essa geração para a qual você ministra oficinas tende a qual estilo literário? Mais vanguardista ou mais clássico?
(04:23:38) Sônia Rodrigues: Gabriel, sabe que eu não?? Muita gente ainda não sabe quem é, a minha preocupação é facilitar que o escritor se encontre, depois ele resolve para onde vai seu estilo.

(04:23:43) davi: Qual o seu blog?
(04:24:07) Sônia Rodrigues: Davi, o endereço é www.amoremsegredo.com.br

(04:24:11) BRAVO!: O blog é um bom veículo para literatura? Ou nada substitui ter um conto, ou uma crônica, publicada em papel?
(04:24:50) Sônia Rodrigues: Gabriel, pra mim não substitui o papel, mas cada louco com sua mania, não é?

(04:24:29) Geovanna/UOL:

João Gabriel de Lima (redator-chefe da Bravo!) e Sônia Rodrigues em Paraty

(04:24:52) Ana Nery: Oi Sônia, tudo bem? Sei que já devem ter feito esta pergunta milhões de vezes, mas quero saber sua opinião sobre os textos dos seu pai relacionados a nós, mulheres...
(04:25:35) Sônia Rodrigues: Ana, eu gosto muito de muitos textos do meu pai sobre mulheres.

(04:25:51) BRAVO!: Qual sua personagem feminina favorita de Nelson?
(04:27:09) Sônia Rodrigues: Gabriel, minha personagem feminina preferida é a mulher casada do conto "A mulher das bofetadas".

(04:27:10) Freitas: Oi, Sônia. Aproveitando a pergunta anterior: esses jovens gostam mais de escritores mais tradicionais, tipo Machado de Assis, ou gostam de uma geração mais próxima, como Caio Fernando Abreu. Ou mais recentes.
(04:28:27) Sônia Rodrigues: Freitas, as pessoas gostam do que elas conhecem. A maioria não leu Machado ou Caio Fernando Abreu, pelo menos não do jeito que eu leio e trabalho o texto nas minhas oficinas. Não dá para saber o que elas gostariam se tivessem a oportunidade de conhecer.

(04:28:30) André Escritor: Sonia, boa tarde, porque é tão dificil o mercado literário aceitar novos autores?
(04:29:47) Sônia Rodrigues: André, porque existem livros demais e pouco trabalho de expansão da fronteira de leitores.

(04:29:49) Ana Nery: Seu pai era um homem solitário? Eu li uma vez um texto em que ele dizia que ficou doente e recebeu três visitas em 3 meses. ( Ops! Desculpe a grafia errada da palavra texto no e-mail anterior...)
(04:31:10) Sônia Rodrigues: Ana, isso pode ter acontecido em algum momento difícil da vida dele, mas acho que, de uma certa forma, existe uma solidão profissional num escritor que escreve o que ele escreveu.

(04:31:13) julio 4.0: Você vê alguma semelhança nos textos de seu pai com os de Dalton Trevisan?
(04:32:10) Sônia Rodrigues: Julio, acho que a semelhança existe em alguns contos. A questão é que existe um Dalton Trevisan e vários Nelson Rodrigues.

(04:32:10) Maria: Sonia meu nome é Maria José, escrevo poesias e sou uma iniciante neste mundo maravilhoso pois já tenho livro publicado, fiz poucos exemplares mas, graças a Deus, o pouco que fiz foi bem aceito. Gostaria de saber se nesta oficina de contos pode também ter poesias e se é apenas para escritores já renomados?
(04:33:55) Sônia Rodrigues: Maria, eu não sei escrever poesia, admiro quem consegue e só faço oficina do que sei, portanto, prosa, que bom que você tem esse talento e preserva nele.

(04:32:14) André Escritor: Sonia, qual o seu conselho para que eu possa ter meu trabalho lido por alguns autores que já estão no mercado?
(04:32:59) Sônia Rodrigues: André, pra que você quer ser lido por autores? Tenta se concentrar em ser lido por editores que são aqueles que podem publicar seu livro.

(04:33:03) davi: Como funciona a sua oficina?
(04:36:33) Sônia Rodrigues: Davi, tem uma oficina online funcionando no wwww.nelsonrodrigues.com.br, entra no site e dá uma olhada.

(04:33:59) Freitas: Sônia, você ainda usa aquela idéia de gincana cultural? O professor da rede pública é um agente importante na formação de escritores?
(04:35:48) Sônia Rodrigues: Freitas, eu gosto da idéia de gincana e no meu site www.autoria.com.br procuro fazer isso, quando posso. Para o professor da rede pública ser importante na formação de escritores precisa escrever primeiro. O que nem sempre acontece.

(04:35:50) BRAVO!: Sonia, eu não li "A Mulher das Bofetadas", desconfio que muitos internautas também não. Você poderia falar um pouco sobre este personagem e por que você o considera bem construído? Acho que seria de alguma valia para os vários escritores jovens aqui presentes.
(04:37:21) Sônia Rodrigues: Gabriel, existe uma vertente de mulheres de Nelson que são as mulheres que sabem agarrar, manter ou retomar seus homens. Essa é uma delas.

(04:37:28) Geovanna/UOL:

Sônia Rodrigues tecla direto de Paraty

(04:37:50) BRAVO!: E personagens masculinos? Qual o seu favorito? Barbara Heliodora, em chat ontem, mencionou o Arandir de "Beijo no Asfalto".
(04:39:50) Sônia Rodrigues: Uma falha, uma lacuna na obra de meu pai, na minha opinião, é que ele não gostava de homem, tinha insuficiente empatia, e olha que ele era um mestre de empatia, então, acho que a maioria dos personagens masculinos são carregados na fraqueza. Eu destaco o Arandir, Boca de Ouro e o Gilberto de "Perdoa-me por me traíres". Meu pai tendia a uma certa severidade com os homens.

(04:39:50) BRAVO!: Você ministra oficina de contos. Sente influência de Nelson nos escritores que participam de sua oficina?
(04:40:56) Sônia Rodrigues: Gabriel, não sinto não, porque as pessoas falam de Nelson, mas não conhecem de verdade. Conhecem de ouvir falar, da TV, das frases. Influência de orelha de livro, típica da nossa cultura.

(04:40:58) BRAVO!: Curioso nisso, porque na área do jornalismo você encontra várias pessoas que se dizem influenciadas pelo Nelson -- e em algumas você reconhece uma influência clara do estilo.
(04:43:06) Sônia Rodrigues: Acho que jornalistas são um público diferenciado, para muitos jornalistas, Nelson Rodrigues é um mestre. Na minha oficina, é preciso ler "Uma tragédia carioca", pelo menos, para se inscrever. Não tem porque não ler, custa menos de 20 reais o livro, mais ou menos seis cervejas.

(04:41:05) julio 4.0: ministro palestras em escolas onde ofereço dois contos de cortesia aos alunos, num papel jornal, simples. porem, percebo a emoção, com o olhar atento e não de soslaio para meus textos. Não estaria faltando esse trabalho, essa entrega por parte dos escritores?
(04:45:25) Sônia Rodrigues: Julio, acho que existem milhões de leitores potenciais no Brasil. Um dia desses, eu fiz um exercício com 30 alunos de ciências exatas e engenharias da UFF e cada um leu uma tragédia carioca. Todos entenderam, comentaram, relacionaram com os dias de hoje. Leitor existe, o que falta é o texto chegar até ele.

(04:45:25) Dico: a senhora gosta da geração beatnik
(04:46:19) Sônia Rodrigues: Dico, conheço muito pouco da geração beatnik, não dá para gostar ou não gostar.

(04:46:26) Freitas: Sônia, a procura pelas oficinas é grande? A princípio, pelo mercado que temos, seria surpreendente se a procura fosse grande.
(04:47:17) Sônia Rodrigues: Freitas, é surpreendente considerando a dificuldade de divulgar esse tipo de iniciativa.

(04:47:17) Fã do Nelson: Nelson de reacionário. Quem lê as obras de teatro dele perceberá que ninguém conseguirá superá-lo na sua coragem de desnudar o inconsciente do povo brasileiro. O pessoal de esquerda não tem nem umdécimo da coragem intelectual dele, que abordou temas ...
(04:49:10) Sônia Rodrigues: Não é só o pessoal de esquerda. Coragem, na minha opinião, não é um traço forte no ser humano que tende para o conforto, para a concordância com os outros, portanto. Meu pai tinha coragem talvez até em excesso, mas não é isso que o marca, você tem razão, é a pertinência da sua obra.

(04:49:10) vera: Nao concordo. O leitor tem que se mover em direção ao texto também. Veja, você disse que fez exercício com alunos de curso superior. É preciso enfiar leitura goela abaixo deles?
(04:50:23) Sônia Rodrigues: Vera, Goela abaixo? De jeito nenhum. Eu mostro o texto, lê quem quer, se a sedução for boa e o texto estiver ali, as pessoas vão para ele.

(04:50:23) BRAVO!: Nelson falou que toda unanimidade era burra. Você acha que ele hoje virou uma unanimidade?
(04:52:39) Sônia Rodrigues: Gabriel, de novo, a tendência é para a concordância. Hoje, falar mal de Nelson Rodrigues não é de bom tom, então não dá para medir unanimidade. Faz uma pesquisa e pergunta se as pessoas gostam de quem não critica mulheres fazerem qualquer coisa para manter um marido bom de cama e vagabundo ou mulheres aceitarem chifre e vê o que as pessoas vão responder se não souberem que Nelson Rodrigues escreveu isso.

(04:52:43) Ana Nery: Sônia, como era a sua relação com o seu pai? Você trabalha com a literatura por influência dele? Alguém mais na sua família também?
(04:54:40) Sônia Rodrigues: Ana, eu prefiro não comentar minha relação com meu pai. Sou escritora por influência da família de minha mãe, muitas mulheres contadores de histórias e de minha mãe uma musa maravilhosa. Todo meu ramo da família, irmãos, filhos, sobrinhos escrevem. Só eu, até agora, publiquei ficção.

(04:54:48) Nika: Boa tarde, Sônia, acabei de ler "O Anjo Pornográfico", você acha essa uma boa biografia, é confiável?
(04:56:30) Sônia Rodrigues: Não, Nika, não acho "O Anjo Pornográfico" uma boa biografia, acho uma boa reportagem ficcional com base na vida de Nelson Rodrigues.

(04:56:33) BRAVO!: Nelson foi muito adaptado pelo teatro e pelo cinema. Qual a sua adaptação favorita?
(04:57:56) Sônia Rodrigues: Gabriel, "Toda nudez será castigada", "Vestido de Noiva" do Tolentino, "Paraíso Zona Norte" do Antunes, "A Vida Como Ela é", do Luiz Arthur Nunes e talvez outras montagens teatrais que não me lembro.

(04:57:58) Nika: Nelson sempre foi alvo de críticas e de paixões, eu particularmente me apaixonei por sua obra e admiro-o como pessoa, tenho dúvidas se ele não era um grande ingênuo, um observador , mas se essa biografia não é boa, como podemos conhecê-lo melhor, apenas através de sua obra, ou há outras biografias dele?
(04:59:21) Sônia Rodrigues: Nika, acho uma bobagem conhecer escritores por biografias deles, mas essa é uma opinião muito pessoal. Conheço poucas biografias que acrescentam mais ao personagem autor do que a sua própria obra, considere, porém, que eu não goste de biografias.

(04:59:23) BRAVO!: "Toda Nudez..." também é o meu favorito!!!! Sonia, obrigado pela participação no chat. A conversa foi muito legal. Agradeço em nome dos internautas, de Bravo! e do UOL.
(05:00:10) Sônia Rodrigues: Eu também agradeço e espero que você e os leitores de Bravo se incorporem ao pequeno grupo de meus leitores.

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