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30/05/2007 - 22h19

"Meu caso com Roberto Carlos é de um amor não-correspondido", diz autor da biografia do Rei

Da redação
Em sua participação no Bate-papo com Convidados desta quarta (30), o escritor Paulo Cesar de Araújo contou aos internautas que durante 15 anos tentou um encontro com Roberto Carlos para falar sobre sua intenção em publicar a história e nunca obteve sucesso.

Durante todo esse tempo, Araújo tentou entrevistá-lo e não conseguiu. O encontro ocorreu somente numa audiência em que o cantor pedia a suspensão da venda de sua biografia. Um encontro "dramático" nas palavras do historiador. "Os momentos entre os advogados e o juiz eram descontraídos, mas quando entrava eu e ele eram tensos".

Mesmo com toda confusão que corre há seis meses, desde que o livro foi lançado, o escritor disse que seu sentimento de admiração em relação ao cantor continua o mesmo. "Estou leve e solto. Só lamento por mim, pela sociedade que fica sem o livro, e pelo Roberto pelo seu maior erro", desafaba.



Leia a seguir a íntegra do bate-papo que contou com a participação de 550 internautas.

(09:10:25) Paulo Cesar Araújo: É um prazer estar aqui...

(09:11:41) Marcelo Tas: Paulo, sua vinda aqui ao Bate-papo UOL despertou muito interesse já que esta é a primeira entrevista que você concede com liberdade e tempo para falar sobre tudo o que aconteceu. Eu quero tentar falar mais do livro do que da proibição do livro, mas é inevitável começar com a pergunta que Paulo Oliveira de Natal, acaba de deixar no meu blog, sabendo que você estaria aqui: Caro Marcelo, peço que o amigo pergunte ao Paulo César, sobre a entrevista de domingo no Fantástico, com o Roberto. Sua opinião sobre o que "rei" falou. Obrigado e, abraços.
(09:13:42) Paulo Cesar Araújo: Eu acho que a primeira resposta dele foi um misto de desinformação e contradição. Desinformação quando perguntaram a ele porque estava incomodado com o livro, se ele podia autorizá-lo. Eu passei 15 anos tentando um encontro com o Roberto Carlos, de março de 1990 a dezembro de 2005, e tenho tudo documentado. E quando uma repórter perguntou se eu tivesse pedido ele me daria e ele disse que não.

(09:15:28) Paulo Cesar Araújo: Sobre se eu retiraria algo do livro, tudo o que eu coloquei no livro foi absolutamente necessário. Estive por 15 anos fazendo o livro e tudo o que coloquei achei necessário para explicar a trajetória dele na música brasileira, inclusive falei isso para ele. Roberto Carlos não quer que exista outra versão da história dele e está convencido de que isso seria o melhor. O conteúdo é esse mesmo. É o que julguei importante.

(09:16:34) Paulo Cesar Araújo: Sobre a audiência, foi dramática pela situação. Eu passei 15 anos tentando conversar com o meu ídolo e isso só foi acontecer diante de um juiz e dos promotores. Também foi muito tenso. Entre os advogados e o juiz era descontraído, mas com ele foi tenso. E no meu caso dramático.

(09:18:58) Paulo Cesar Araújo: Sobre o acordo, foi entre os advogados dele e os da editora. Quando entramos na audiência o livro já estava proibido desde dia 28. Mas o Roberto Carlos queria uma alta indenização. Estavam certos de que viria uma indenização e só na hora é que ocorreu o acordo de entregar os livros, retirar o processo e não haver uma alta indenização.

(09:19:27) Marcelo Tas: Manias: falam de ele não gostar de marrom, mas o mais estranho, na minha opinião, é ele deixar de cantar canções importantes como "Quero Que Vá tudo para o Inferno". Qual a história dessa música?
(09:24:34) Paulo Cesar Araújo: Eu digo no livro que esta talvez seja a que mais gastei páginas falando. É um clássico da música brasileira. Antes desta música ele era um cantor qualquer, depois dela ele se tornou um mito. É uma canção de amor. E ele tinha uma namorada, Magda Fonseca, que teve que ir embora para os EUA para se separarem. Ela trabalhava em uma rádio no Rio de Janeiro e o pai trabalhava em várias rádios. Quando o Roberto chegou com um disquinho os dois se conheceram e começaram a namorar. Isso foi de 1962 a 1965. Ele era um artista comum. E estava em Osasco fazendo um show no inverno de 65 e nos bastidores do cinema começou a cantarolar um refrão que é: "Quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá para o inferno". Fez a música com o Erasmo e mostrou para ela que ouviu em primeira mão. Isto foi um clássico instantâneo, onde todos não tiveram dúvida de que seria um estouro. Ele estava a três meses no programa da Jovem Guarda e o sucesso desta música foi que chamou a atenção para este programa.

(09:26:50) Paulo Cesar Araújo: Nestes 15 anos de pesquisa entrevistei 200 pessoas, todos da música brasileira falando da respectiva carreira e sobre o Roberto. Em um segundo momento entrevistei as pessoas próximas do Roberto, que trabalhavam com ele. Depois os músicos, empresários, secretários etc. E vasculhei todas as entrevistas que ele deu em arquivos de rádio e televisão. Entrevistei a Edir Silva que foi sua secretária, o Geraldo Alves que falou que ele fez a música na saída do cinema. O Erasmo também. E algumas entrevistas dele de 1975 em que ele falava da música e indiretamente da Magda.
(09:28:07) Paulo Cesar Araújo: Sobre "De que Vale Tudo isso", não achei referências. Mas tem uma música para a volta dela. Ela falou que foi seduzida a ficar em Nova York no auge da Beatles mania e Rollings Stones.

(09:30:00) Geovanna/UOL:

Paulo Cesar de Araújo comenta a proibição de "Roberto Carlos em Detalhes" (Adriana de Barros/UOL)

(09:30:15) Paulo Cesar Araújo: De todos os mitos da música brasileira foi ele quem teve a carreira mais difícil, ninguém teve tantas dificuldades como ele. Orlando Silva tentou uma vez em uma rádio e não conseguiu, na segunda já o levaram para falar com o Francisco Alves. Todos de alguma forma foram convidados. E com o Roberto ninguém o convidou para nada. Ele foi recusado no rádio que queria ser contratado. Com a bossa nova quis se enturmar e não conseguiu. Na tentativa de gravar o disco, percorreu todas as gravadoras.

(09:30:36) Marcelo Tas: Carlos Imperial foi bater na porta de todas as gravadoras. Todas recusaram Roberto, até que... Corte Real recebeu Imperial. Como foi essa história?
(09:32:54) Paulo Cesar Araújo: Depois de ter sido recusado em todas as gravadoras, faltava a última que era a Columbia. E olharam o jornal que dizia que o diretor artístico era o Roberto Corte Real. E o Carlos Imperial ligou querendo falar com ele e dizendo para a secretária que era o Carlos da Corte Imperial, então aceitaram. Ele foi com o Roberto Carlos. Mas ficaram três horas falando sobre jazz e o Roberto ficou esperando em outra sala. E depois marcaram para o outro dia para ouvir o teste.

(09:34:29) Paulo Cesar Araújo: O Roberto Imperial tentou vender uma turma de roqueiros que não deu certo no início. Mas o primeiro disco da Elis foi produzido por ele. A Clara Nunes também fez sucesso com um samba produzido por ele.

(09:35:02) Marcelo Tas: Ao contrário do que a gente imagina, Roberto teve muitos fracassos antes de virar o rei. Começou tentando ser cantor de boleros e bossa nova?
(09:36:18) Paulo Cesar Araújo: O programa do Imperial não conseguiu mais patrocínio e foi ele para os EUA. E quando voltou não entendeu como o Roberto estava cantando bossa nova. Mas disse que gostou. Aí falou para o Roberto que ele tem que gravar um disco. A partir daí saíram batendo em porta em porta.

(09:37:05) Marcelo Tas: Como surgiu a dupla e a primeira música: Parei na Contramão?
(09:38:00) Paulo Cesar Araújo: Roberto e Erasmo se conheceram em 58. E o Erasmo era fã de rock, um ouvinte. A parceria só foi começar em 63 quando compuseram a música "Parei na Contramão" juntos. Este foi o primeiro sucesso nacional do Roberto que fez sucesso em SP, Rio, Nordeste e Sul.

(09:38:42) Paulo Cesar Araújo: A música "Splish Splash", na cabeça do Erasmo, era como um beijo no cinema.

(09:39:43) Paulo Cesar Araújo: "Sentando a Beira do Caminho" partiu do Roberto e se tornou o maior sucesso da carreira do Erasmo.

(09:40:55) Geovanna/UOL:

Paulo Cesar de Araújo fala do livro "Roberto Carlos em Detalhes" (Adriana de Barros/UOL)

(09:41:50) Paulo Cesar Araújo: Quando falo que meu caso com o Roberto é um caso de amor não correspondido, é porque quando criança eu sempre ouvia a voz dele nas músicas. Mais velho tentei ir a um show dele e não consegui entrar. Agora passei 15 anos tentando entrevistá-lo e não consegui. Depois que escrevi o livro veio este processo cível criminal. A entrevista que eu queria nunca rolou.

(09:28:56) spanish eyes H: vc possui mais algum livro publicado?
(09:43:46) Paulo Cesar Araújo: spanish eyes H, o meu primeiro livro foi o "Eu não sou cachorro não", sobre as músicas cafonas no período militar que foram censuradas também. Onde eu redimensionei a importância dos chamados brega na MPB.

(09:29:03) |Loren: Qual seu sentimento pelo Roberto Carlos na atualidade? Você tem raiva dele?
(09:45:00) Paulo Cesar Araújo: Loren, não tenho nenhuma raiva. É um amor não correspondido. Isso acontece e o Roberto cantou isso várias vezes na vida. Eu só lamento isto que está acontecendo. E tenho esperança que mais cedo ou mais tarde ele se convença de que é um dos maiores erros que cometeu em sua carreira. No livro eu digo que entre as razões para o seu sucesso foi tomar decisões certas.

(09:47:28) Paulo Cesar Araújo: Sobre o que teria motivado a proibição do livro, estou convencido de que ele ficou contra o livro de uma maneira geral. Quando ele entrou com o processo ele não tinha lido, então agora ele dizer que leu todo o livro não tem importância. Ele não tem intimidade com o livro, por isso que compreendo de certa forma. Ele faz parte de um segmento da população que não tem o hábito de ler. E não consegue diferenciar o que pode ser o livro dele. O meu livro é de história, de análise, onde contextualizo com o momento histórico e político do Brasil. Na audiência teve um momento que ele falou que ninguém poderia contar a história melhor do que ele. Mas eu disse que o seu engano é achar que possa existir só uma história.

(09:48:07) Marcelo Tas: Outra revelação musical do seu livro é sobre os arranjos e a influência da evolução da tecnologia nas gravações. Tem um capítulo que conta como o órgão entra no rock brasileiro junto com os The Doors. É o órgão de um músico conhecido como Lafayete?

(09:51:02) Paulo Cesar Araújo: O órgão entrou na música pioneiramente. Os jornalistas associavam o órgão a produção brega dos anos 70. Roberto Carlos foi o responsável pela introdução do órgão na música brasileira com as músicas "História de um Homem Mau" e "Um Beijo que eu te Dei". "Você não serve para Min" tem, mas já é quase psicodélico. Órgão era uma coisa do rock moderno e todas as bandas internacionais naquele período estavam usando. Erasmo teve a sacada quando ouviu o Lafayete tocando órgão e mandou tocar em sua música.

(09:39:16) Marcos J.: O Roberto é uma das figuras mais importantes da música brasileira, é fato... mas é um puta chato. Talvez uma biografia do Erasmo seria tão interessante quanto esse livro, e causaria menos problemas. Além disso, o Erasmo merece mto mais que ele por ter ficado na sombra do Roberto por mto tempo. Sem o Erasmo, Roberto Carlos não seria nada.
(09:53:26) Paulo Cesar Araújo: Marcos J., não concordo que não seria nada. Ele foi fundamental para o Roberto, mas o Roberto foi muito mais fundamental para ele. Quando se conheceram o Roberto já era um artista.

(09:41:50) ERNANI: PAULO, NESSE IMBRÓGLIO AÍ A OPINIÃO PÚBLICA FICOU DO SEU LADO E CONTRA A CENSURA DO REI . COMO VC SENTIU ISSO ?
(09:54:12) Paulo Cesar Araújo: Ernani, falando em mídia e justiça. A mídia expressa idéias mais progressistas e mais modernas e posso dizer que ganhei na mídia. A justiça tem idéias mais retrógradas e o Roberto ganhou lá.

(09:42:06) Jornalista_Trab: Você não acha que essa atitude da justiça de retirar a biografia não afeta a liberdade de expressão? A sensação é que o Roberto quer o monopólio da palavra sobre a sua vida, possivelmente para escrever uma biografia própria de sua autoria e faturar com isso...
(09:56:30) Paulo Cesar Araújo: Jornalista_Trab, claro que afeta a liberdade de expressão. E afeta algo maior ainda que é o historiador. Se o Maluf e o Bispo Macedo quiserem, poderão dizer a mesma coisa. Isto não pode prevalecer. Temos que estar sintonizados com o Primeiro Mundo. Se gostamos de copiar as coisas, que copiemos isto deles.

(09:52:49) Oaxiac Odéz: Vc pretende escrever alguma outra biografia? ja escolheu algum biografado?
(09:58:18) Paulo Cesar Araújo: Oaxiac Odéz, eu pretendo escrever. Mas não consegui parar para pensar o que vou fazer para o meu próximo livro. Eu tenho material para mais dois ou três livros. Ainda não defini exatamente de quem farei uma biografia. E ainda estou envolvido com o livro. Viajando e fazendo palestras. Vou para Portugal, Argentina... E aos EUA que querem entender como este livro pôde ser proibido.

(09:55:03) Fred: Paulo César, você acredita que as várias separações que o Roberto passou ao longo da vida, sua falta de estabilidade do amor, que de certa forma ficou explícita na biografia, fizeram com que ele ficasse mais incomodado com a exposição de sua vida?
(10:00:40) Paulo Cesar Araújo: Fred, não sei. Pelo menos no processo cível e criminal ele não reclamou nada. Acho que isto não teve muita importância. O que ele cita no processo criminal é o que ele chama de invasão de privacidade. Mas não tem invasão nenhuma. Daquilo que ele reclamou, a respeito de sua vida pessoal, nada é novidade. O acidente foi um acidente público, em praça pública e com várias testemunhas. Estive no local e o Roberto fez uma entrevista em 75 para o Ronaldo Bôscoli. Em suas músicas também tem isso. Eu dei um tratamento sério e aprofundado, chequei bem cada informação.
(10:02:54) Paulo Cesar Araújo: Sobre as capas das revistas, até a tal entrevista do Roberto, o destaque do livro era de história. Na Bravo o destaque era dado a importância do Roberto para a música brasileira. Inclusive na Folha. Este destaque, o que chamou a atenção, começou quando o Roberto disse que o livro atingia a sua vida.

(09:58:14) Marcio Ribeiro: com essa história toda como ficou sua admiracao por Roberto Carlos, depois do episódio? Se sentiu meio traído por ter dedicado tanto tempo de pesquisa e ver eu trabalho jogado fora. Qual a sensação?
(10:03:48) Paulo Cesar Araújo: Marcio Ribeiro, não há traição nenhuma. Eu fiz isso de livre e espontânea vontade. Estou leve e solto. Lamento por mim, pela sociedade que fica sem o livro e pelo Roberto pelo seu maior erro.

(10:01:19) cearensearretada: eu comprei o livro depois do dia 4 de maio
(10:05:22) Paulo Cesar Araújo: cearensearretada, o Roberto recebeu todos os livros do estoque da editora. Mas a editora tem 60 dias para recolher livros que estão espalhados pelo Brasil que é muito grande. Então é possível que várias livrarias ainda tenham o livro.
(10:06:25) Paulo Cesar Araújo: Sobre o livro na internet, eu vi como uma reação contra a barbárie. Hoje coloca-se na internet e as pessoas copiam. Na internet eu sinto que o livro está vivo. Só lamento que não possa ser vendido nas livrarias.

(10:02:21) rogério: Você não acha que houve uma falha em sua defesa na Justiça. Em caso similar, Ruy Castro ganhou na justiça o direito de publicar A Estrela Solitária, sobre o Garrincha. Você não acha que foi abandonado pela sua editora?
(10:07:12) Paulo Cesar Araújo: rogério, claro, eu falei disso para a editora e no dia seguinte para a imprensa. Me sinto abandonado. Manifestei para a editora, o editor e os advogados.
(10:08:59) Paulo Cesar Araújo: Sobre um final feliz, estou tentando ver isso. Estou consultando advogados e juristas. Lendo e procurando me informar. Vou brigar por este livro sempre. Passei 15 anos estudando e escrevendo e estou disposto a passar mais 15 brigando por ele. E os advogados queriam que o juiz colocasse uma cláusula para eu não falar sobre o livro, mas não colocou, pois isto seria uma censura. A própria história do Roberto me estimula a lutar por este livro.
(10:10:53) Paulo Cesar Araújo: A importância do Roberto na história do rock no Brasil... ele brigou para usar o baixo elétrico.
(10:11:49) Paulo Cesar Araújo: Obrigado a todos...
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