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23/04/2007 - 03h16
SP Arte: bate-papo entre profissionais do mercado editorial encerra feira
Da Redação
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Reprodução Cosac & Naify
Detalhe da capa de Luz em Agosto, de William Faulkner, lançamento da Cosac & Naify
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O debate que encerrou, neste domingo, 22, a 3ª SP Arte - Feira Internacional de Arte Moderna e Contemporânea, no Pavilhão da Bienal, passou de duas horas de duração e foi o mais longo, -mas também o que mais se ateve ao tema proposto: documentação e pontos críticos das publicações de arte no Brasil. Sob a mediação do designer André Stolarski, as debatedoras Luisa Duarte -crítica e curadora independente-, Elaine Ramos -diretora de arte da editora Cosac & Naify- e Martha Ribas -diretora da editora carioca Casa da Palavra- chegaram a diagnóstico semelhante ao levantado por outros convidados, no decorrer do ciclo, de desolação e incerteza quanto à solidez do sistema das artes. Preferiram, contudo, terminar a sessão com perspectivas otimistas e acreditar em uma possível consolidação deste mesmo sistema.
Abertura
Stolarski, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e um dos diretores do escritório carioca de design Tecnopop, abriu a preleção recomendando quatro eixos principais a ser percorridos pela conversa. O primeiro seria o do mercado das publicações de arte no Brasil, seguido pelo da mecânica de produção. Em terceiro, viriam os meios, os veículos que suportam o conteúdo produzido; por fim, a divulgação e a recepção dos produtos.
Luísa Duarte, participante do projeto Rumos_Itaú Cultural 2006, procurou dividir-se entre os pontos de vista da leitora e da produtora de material, retomando o tema da falta de política de aquisições das instituições, abordado no segundo dia. Para ela, as publicações, tanto livros quanto catálogos, têm papel formador, e há livros básicos para estudiosos da arte que ainda não foram traduzidos para o nosso português. Ela notou que o mercado se organiza cada vez mais, "o que é muito bom", mas que a crítica também precisa se estruturar para encontrar um espaço e buscar o valor cultural da produção, e lamentou também a escassez de revistas especializadas fora do ambiente acadêmico, "que não fiquem só na arte teórica". Luísa questionou -"como o mercado pode dar as mãos a um projeto como esse sem comprometer a independência deste projeto?"- e criticou os livros feitos apenas como brindes para empresas, "que não chegam aos leitores interessados".
Cosac & Naify: voltar-se só para a arte é inviável
Um breve relato da trajetória de 10 anos da Cosac & Naify iniciou a participação de Elaine Ramos, que admitiu ser inviável manter-se apenas como editora de livros de arte. Dos mais de 650 livros em catálogo da casa, são cerca de 150 voltados à arte: "esse mercado não pode andar com as próprias pernas, é preciso patrocínio". Quando isso acontece, garante Ramos, o preço final é repassado ao comprador. A diversificação de gêneros provou-se também fundamental na saúde financeira da empresa, bem como as adoções escolares, as compras governamentais e a participação em feiras - a venda com desconto por uma semana em estande na USP chegou a representar metade das vendas anuais, em 2006, revelou.
Elaine discorreu ainda sobre as especificidades do que ela chama de "tradução" da obra do artista para o suporte livro. "Tem que ter uma narrativa, o formato precisa ter uma relação com as mãos do leitor e usar recursos do design" para tentar reproduzir o mais próximo possível o sentimento que o leitor teria diante da obra original. Um desses recursos seria o corte em detalhes de algumas obras, o que ora agrada, ora revolta os artistas.
Casa da Palavra: o mercado tem vícios Falando rapidamente e apresentando exemplos reais e idéias de projetos, Martha Ribas definiu o livro como um bem cultural, político e comercial, o que produziria seu grande dilema. "O editor tem uma função social, mas precisa também ter retorno!" A Casa da Palavra dirigida por ela funciona desde 1997 e tem hoje 120 livros em catálogo. Abertamente, criticou o que chama de alguns "vícios" do mercado que precisam de amadurecimento imediato. Em primeiro, a lista de doações, as personalidades que recebem gratuitamente a obra. "Fico me perguntando: afinal, quem vai comprar?" Outro vício é das livrarias. "Visitei recentemente o que chamo de 'trem-fantasma', o depósito de devoluções de uma grande rede de livrarias. Elas pegam o material em consignação e nos devolvem, no estado em que estiver, se não venderem. Só que eu já recebi caixas fechadas de volta!"
Outro problema, para Martha, é a resistência à arte, e maior ainda à contemporânea, o que gera fatos inusitados como a recusa de um patrocinador em estampar seu logo em determinado livro. Ele preferiu receber, em troca do apoio financeiro, um lote de livros prontos sobre o Corcovado-RJ, "para distribuir a seus clientes, que, segundo ele, nem entenderiam o que o logo fazia naquela outra publicação". Ela estima em R$ 250 mil o custo total de produção de um bom livro, sendo que, destes, até 60% podem ir para a livraria. "Divide aí por U$ 3 mil e está o preço inviável a cue chegamos por unidade. E eu estou tentando trazer papel da Argentina, que é mais barato, mas nem pelas regras do Mercosul estou conseguindo." O novo lançamento da Casa da Palavra é sua menina-dos-olhos, a coleção Arte Bra: "tem formato amigável, texto inédito, textos de catálogo, entrevista, cronologia pessoal e histórica do artista e o preço é o mais barato possível". "As empresa, porém, preferem o 'inimigo público': grande, colorido e com pouco texto."
Encerramento: otimismo Sobre a construção do espaço para a crítica, Luísa Duarte rechaçou a "adesão prévia" a certos trabalhos ou artistas. "No Brasil, se leva muito para o lado pessoal. Isso é política no pior sentido da palavra." Em seu encerramento, citou o filósofo Walter Benjamin, que defende uma espécie de "niilismo ativo". "Quando está tudo de pé, não há por onde passar. Pelo menos, agora, vemos os problemas." Elaine Ramos concordou com as dificuldades e ressaltou que a cadeia produtiva está amadurecendo com seu próprio trabalho, e Martha Ribas, com visão prática, elogiou o fato de poder "sentar, levantar os problemas e debatê-los; agora é ver como vamos levantar e trabalhar". Ao final, André Stolarski deixou a questão: como o mercado de arte, que já movimenta volume de recursos considerável, pode transformar seu caráter corporativo em uma politização pela aquisição de resultados interessantes a todos? Ficou a sugestão para um próximo debate, no ano que vem. (Thompson Loiola)
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