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21/04/2007 - 22h28
SP Arte: debate tangencia mercado e critica utilização de recursos em mostras temporárias
Da Redação
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Ana Ottoni/ Folha Imagem
O galerista André Millan, um dos debatedores da SP Arte
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O segundo debate da SP Arte - Feira Internacional de Arte Moderna e Contemporânea propôs-se a discutir um tema que diz respeito de maneira dorsal à própria existência do evento: o mercado de arte no Brasil. Participaram da mesa, no fim da tarde de sexta, 20, a jornalista e crítica argentina Claudia Laudanno, da revista ArtNexus, o historiador da arte e diretor de galerias Ricardo Sardenberg e o galerista André Millan, da Galeria Millan (SP). A mediação coube a Cristiana Tejo, diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães - Mamam, de Recife (PE). Tejo, na abertura, declarou-se uma das principais interessadas na discussão de um sistema de mercado da arte no Brasil, já que segundo ela as instituições públicas no Brasil, a começar pela que dirige, não têm política nem verba definidas para aquisições. E foi para este lado que se encaminhou, de certa maneira, a maior parte da discussão.
Cristina Laudanno apontou a exuberância das artes visuais no Brasil e sua projeção no exterior: "Os brasileiros trabalham muitas questões da modernidade, têm uma quantidade grande de eventos, serão homenageados na feira espanhola Arco em 2008. Não é casual. O Brasil é uma potência das artes", acredita, apesar da escassez de publicações locais que reflitam sobre a arte que está sendo feita no Brasil. Para ela, o "risco perpétuo" assumido por artistas nacionais é o que os destaca dos de outros países da América Latina. "O Brasil tem vocação para a arte contemporânea". A jornalista ressaltou a importância de que os artistas "se mostrem no exterior" para adquirir projeção, mencionando instalações "site specific" de Ernesto Neto em instituições estrangeiras e a aquisição de obras de Hélio Oiticica pela Tate Modern, de Londres.
André Millan, falando em seguida, nomeou os artistas Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel e Iberê Camargo como os principais responsáveis, hoje, pelo reconhecimento da arte brasileira internacionalmente. Para Millan, o surgimento da editora Cosac & Naify e de seus volumes e coleções sobre arte brasileira foi uma grande contribuição para a consolidação de um panorama local. "Falta, ainda, é a elite cultural apoiar as instituições." Arrematou sua exposição dizendo-se "otimista". "Mas ainda temos muito o que melhorar."
O otimismo de Millan, todavia, encontrou certo contraponto em Sardenberg, que já dirigiu a galeria Camargo Vilaça (SP) e o Centro de Arte Contemporânea Inhotim (Caci-MG). "O sistema das artes no Brasil está em ruínas. Não há dúvida de que a Cosac & Naify seja importante, mas não há um espaço regular de discussão na imprensa, o que faz falta sobretudo ao artista", pensa ele. Primeiro palestrante a tocar mais diretamente no assunto da noite, Ricardo Sardenberg afirmou ser necessário que os galeristas "se relacionem" e lembrou que "cerca de 15 anos atrás houve uma mudança radical no mercado: os galeristas passaram também a ser agentes dos artistas, não estão simplesmente vendendo trabalhos, levam para as feiras, fazem conexões". Criticou as estruturas em que se "gasta muito dinheiro e se satisfaz a vontade imediata do artista, que é expor, e é importante, mas patrocínios deveriam ir para instituições que buscam criação de memória", e citou como exemplo "nefasto do ponto de vista de manutenção da memória" a mostra "Brasil 500 Anos" - "a validade daquela exposição já se apagou".
Durante a discussão com o público, diante da questão da formação tanto do comprador quanto do artista, André Millan comparou o sistema a uma corrente que vai da produção pelo artista até o comprador, passando por imprensa, crítica e instituições: "não existe liga entre esses pontos". Cristiana Tejo salientou a pluralidade de situações de formação artística no Brasil, do pólo universitário de Belo Horizonte (MG), relembrado por Sardenberg, ao "empirismo e experimentalismo" de Recife. Ambos retomaram a ausência de verba de aquisição das instituições públicas como fator impeditivo na consolidação do mercado. "É preciso entender que embora colecionar arte seja de elite, não é atividade de luxo; não é o mesmo que comprar um Mercedes. O artista cria valor, memória - cria algo a partir do nada", sintetizou Ricardo.
O crítico e professor Paulo Sérgio Duarte interveio, da platéia, para comentar como na Europa há artistas nascidos a partir de 1950 cujas obras já estão no acervo permanente de instituições. "Isso é de um incentivo, de um estímulo muito grande para o artista." Concordando com a situação de "ruína" descrita por Ricardo Sardenberg, fez uma ressalva: "não faltam recursos. O que precisamos nos perguntar é como estes estão sendo administrados pelos diretores de marketing das empresas públicas e privadas no Brasil. [A situação dos incentivos] aqui é absolutamente original". De acordo com o professor, os recursos previstos para arte e cultura neste ano no Brasil podem chegar a R$ 1 bilhão. "É preciso revisar essa lei, porque depois que se vicia nessa ordem, leva 100 anos para recuperar o viciado. E está todo mundo viciado em usar o dinheiro do povo para promover sua logomarca." Veio de Duarte, ainda, uma sugestão -uma das únicas- de como a circunstância "de ruínas" poderia ser amenizada: "se vai haver um investimento, um percentual elevado deve ser vinculado à aquisição de obras que fiquem permanentemente nas instituições do país. Os eventos temporários estão privilegiados, em volume de recursos, em detrimento das aquisições permanentes", ao que foi aplaudido pelo público presente. (Thompson Loiola)
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