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17/04/2007 - 22h08
Cronicamente Viável: Para Márion Strecker a Internet tem obrigação de dar a informação rapidamente; leia a íntegra
Da Redação

Adriana de Barros/UOL

Márion Strecker no debate Os Portais de Informação e os Jornais Online realizado no CCBB

Márion Strecker no debate Os Portais de Informação e os Jornais Online realizado no CCBB

Na terça-feira, 10 de abril, o Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, apresentou a segunda edição do programa "Cronicamente Viável", que este ano tem como tema "A Informação e a Imaginação na Internet".

O debate "Os Portais de Informação e os Jornais Online" contou com a presença dos jornalistas Márion Strecker, diretora de Conteúdo do UOL, e Daniel Piza, editor-executivo do jornal O Estado de S.Paulo.

O encontro aconteceu das 19h30 às 21h30 e foi mediado por Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Tas.

Leia abaixo a íntegra da participação diretora de Conteúdo do UOL, Márion Strecker

Surgimento da Web

Boa noite a todos, é um prazer estar aqui com vocês. Eu sou uma das chamadas "dinossauras" da Internet brasileira. Trabalho com Internet desde 1995, quando pela primeira vez, dentro da Folha de S.Paulo, naquela época eu dirigia a Agência Folha de Notícias, criamos um primeiro Web site com conteúdo jornalístico. Naquela época, a Web estava surgindo. A Internet existia desde os anos 60, mas a chamada Web, que deu a interface gráfica para a Internet, surgiu em meados dos anos 90. E nessa época nós criamos, mais por diversão do que como negócio, um pequeno Web site para nos comunicar com aquelas poucas pessoas que naquele momento tinham acesso à Internet no Brasil, como os professores da USP e alguns engenheiros eletrônicos, por assim dizer.

Nós já vínhamos explorando novas tecnologias para beneficiar a produção e a distribuição da informação jornalística. Há alguns anos eu vinha trabalhando com isso dentro da Folha de S.Paulo. Eu entrei na Folha de S.Paulo em 1984, como redatora da Folha Ilustrada, no momento em que os primeiros computadores estavam chegando à redação e os jornalistas começavam a trocar aquelas bobinas de papel por terminais ligados a um minicomputador, que de mini não tinha nada, já era um troço deste tamanho. E eram só terminais desse minicomputador que estavam sendo instalados.

Então eu peguei a história da informatização das redações desde o comecinho, nos anos 80. No começo dos anos 90, eu dirigia o Banco de Dados da Folha e com a minha equipe tratamos de informatizar os arquivos, primeiro os de texto, depois os de fotografia. E desenvolvemos alguns sistemas que permitiram que os correspondentes do jornal tivessem acesso por linha telefônica, uma espécie de BBS, a esses arquivos.

Na seqüência nós desenvolvemos alguns CD-ROMs contendo todo o texto integral do jornal daquele ano a preços para o grande público. O jornal de um ano inteiro custava o preço de um livro mais ou menos. Aquilo, naquela época, foi uma coisa bastante original porque os únicos jornais que faziam isso no mundo eram alguns jornais americanos e cada CD-ROM do jornal americano naquela época custava quase US$ 2.000, se não me falha a memória. Porque a tecnologia permitiu, porque queríamos experimentar e porque era o Brasil, nós conseguimos fazer isso dessa maneira naquele momento.

E esse processo todo, da redação informatizada e depois o Banco de Dados informatizado, foi o que permitiu que a Folha muito cedo pudesse avançar em um sistema de distribuição eletrônica de informação, não só para o público profissional, no caso os jornalistas ou outras empresas jornalísticas, com a Agência Folha, que na seqüência eu fui dirigir, mas também para o grande público. Então em 95, quando pela primeira vez, já com o Banco de Dados Online no ar para uso profissional, nós vimos a Internet ganhando uma interface gráfica, veio o estalo: isto aqui tem potencial para de fato se tornar um meio de comunicação de massa.

Quais eram as vantagens aos nossos olhos desse novo meio de comunicação que estava surgindo em relação aos meios tradicionais?

Em primeiro lugar, é uma quebra de paradigmas muito importante. Entre eles, a noção de tempo e de espaço. Então se em um meio como a televisão ou o rádio o tempo é um fator escasso e cada emissora só pode transmitir um programa de cada vez, e cada telespectador só é capaz de assistir um programa de cada vez, na Internet esta limitação simplesmente não existe, porque um veículo na Internet pode transmitir ou oferecer muitas coisas ao mesmo tempo para muitas pessoas que vão assistir, ler ou consumir de alguma maneira esta informação, cada uma ao seu tempo, e isso não importa, não é uma limitação mais.

O segundo grande paradigma que se quebra em comparação aos outros meios de comunicação, agora em particular os meios escritos, revistas, jornais, é a questão do espaço. Nos veículos tradicionais impressos a limitação de espaço é dramática, então cada jornal ou revista tem um número limitado de páginas. Pode até aumentar ou reduzir um pouco de uma edição para outra. Mas na Internet definitivamente se você quiser decuplicar um número de páginas de uma hora para outra de um determinado noticiário você faz, isso não é um problema. Ainda mais, com o passar dos anos, com a queda dos preços de armazenamento de informação, preços de hard disk e assim por diante.

Ainda nesses eixos de tempo e espaço, na questão de tempo, os ciclos de publicação dos veículos tradicionais... Todos os veículos tradicionais têm ciclos, então o telejornal acontece uma vez por dia, um jornal é concluído uma vez por dia, uma revista semanal circula uma vez por semana e assim por diante. Na Internet este ciclo de atualização não é pré-definido, ele não precisa ser pré-definido. Então a qualquer momento em que uma informação venha a público ou é apurada esta pode ser publicada. E a cada momento em que uma informação merece ser corrigida, ela pode ser corrigida.

Outra questão importante em relação ainda ao eixo do espaço é que a Internet é um veículo sem uma fronteira geográfica definida. Então sempre dá vontade de citar o Fernando Pessoa: Minha pátria é minha língua na Internet. Não importa onde o veículo está sendo produzido, a questão da distribuição geográfica da informação não é um fator relevante mais, porque não dependemos de um sinal de satélite que cubra uma região do globo ou de caminhões que carreguem produtos impressos pelas estradas de um país. Hoje, no portal da Internet, num portal como o UOL, nós temos leitores em muitas regiões geográficas diferentes, por exemplo, a comunidade brasileira no Japão ou nos Estados Unidos que são leitores habituais do UOL.

Outras questões que nos pareceram bastante relevantes e originais na Internet com relação aos outros meios de comunicação: a capacidade multimídia. A Internet acabou sendo chamada de a mãe tardia de todas as mídias pela sua peculiaridade de permitir a publicação de informações textuais, fotográficas, apenas de áudio, de vídeo ou tudo misturado, como a gente vê em tantos serviços na Internet, como por exemplo o próprio blog no Marcelo Tas, que é inclusive distribuído para download para ser visualizado em iPods, em vídeo ou só em áudio.

E um outro fator extremamente original que mais e mais está ganhando importância com o passar dos anos é a questão da interatividade, a facilidade que o público tem de se comunicar com os veículos, de interferir na cobertura que os veículos estão fazendo, a capacidade que o público tem de emitir opinião, de ter a sua opinião publicada.

Recentemente temos visto o desenvolvimento da portabilidade da informação. Então a informação que é publicada na Internet não mais está presa à visualização em computadores pessoais. Esta informação pode ser obtida em um grande número de outros aparelhos que de alguma maneira acessam a Internet e podem ler a informação que sai na Internet. Só para citar alguns: telefones celulares, iPods, no caso de download de áudio e vídeo, equipamentos sem fio em geral, palms, smart phones... Em sistemas computadorizados, também softwares diferentes que não mais os browsers, mas os sistemas agregagores de notícia, RSS, por exemplo, também acessam notícias. Redes sociais são outro fenômeno mais recente. As notícias ou o conteúdo jornalístico, o conteúdo de vídeo, por exemplo, em sistemas como o Videolog ou o YouTube, se transformam em conteúdos portáteis que podem ser levados a outros ambientes que não são ambientes jornalísticos, mas são ambientes por exemplo pessoais, um blog pessoal ou um site pessoal. Então estes conteúdos jornalísticos mais e mais podem ser transportados e visualizados e até modificados em outros contextos que não são contextos jornalísticos.

Em suma, o que quero dizer é que com o passar dos anos a história foi se complicando cada vez mais, se tornando cada vez mais complexa, mas ao mesmo tempo maleável.

Dificuldades de se fazer jornalismo no cenário da Web

Já passadas as dificuldades iniciais, dez ou doze anos atrás era difícil convencer um jornalista que trabalhava para um grande veículo de comunicação a se mudar para um veículo online. Ninguém queria, todo mundo achava que era loucura. Eu ouvi de queridos colegas meus que eu estava enterrando a minha carreira ao abrir mão de ter o meu nome publicado em um jornal como a Folha de S.Paulo para me aventurar, como eles diziam, em um cenário obscuro e cheio de fios como era a Internet. Eu ouvi isso, e não foi uma vez só, de pessoas cultas, inteligentes e queridas, mas que naquele momento não tinham os olhos abertos para o que poderia acontecer com o desenvolvimento dessa mídia.

O fato é que estas dificuldades iniciais obviamente foram rapidamente suplantadas, mas novas dificuldades surgiram. Hoje, na Internet, vivemos em um cenário de competição global. Então competimos com empresas que não são mais apenas empresas brasileiras, mas empresas globais, com um caixa fenomenal, com uma capacidade de investimento incomparável com as nossas empresas jornalísticas nacionais. Nós vivemos uma competição com empresas que não são jornalísticas apenas, mas empresas de software, de telecomunicação, de engenharia e assim por diante. Todas elas disputando os mesmos recursos, os mesmos anunciantes. E nós temos, a toda hora, o cenário em que atuamos um pouco embaçado por esta profusão de start ups, de novas empresas que são criadas para arrancar dinheiro de investidor aqui e ali. Mesmo ainda hoje, depois de vários anos passados do chamado estouro da Nasdaq, da bolsa eletrônica, todo o santo dia aparece alguém dizendo que está desenvolvendo um serviço para desbancar o Bill Gates, todo dia aparece um sucessor do Bill Gates por aí. E a novidade é freqüentemente muito mais interessante e cativante do que a qualidade. Então para nós, que trabalhamos com jornalismo e temos uma preocupação com a qualidade, é terrível essa pressão da novidade sobre a qualidade. E hoje o grande dilema do jornalista, a meu ver, não é mais "Será que os jornais vão sobreviver? Será que a Internet vai acabar com os jornais?" Dez, doze anos se passaram e os jornais não morreram e continuam a existir, mas os jornais online vão substituir os jornais em papel?

Jornais online vão substituir os jornais em papel?

Já substituíram. Claro, os jornais em papel ainda têm leitores, mas se um jornal de grande circulação no Brasil tira ou vende 400 mil exemplares, uma primeira página do UOL é lida por cinco milhões de pessoas todos os dias. Então a pessoas estão se informando por um portal na Internet ou não estão? A geração dos meus filhos, eu tenho um filho de 16 e uma filha de oito, começa a ter contato com o jornalismo pela Internet e não pelo papel. Eles lêem notícia muito mais pela Internet do que pelo papel. Isto não é o futuro, isto é o presente.

Então se o dilema de dez anos atrás era: "Será que os jornais vão acabar?" Eu diria que o dilema hoje, talvez tão falso quanto aquele primeiro, é: "Será que o jornalismo vai acabar?" E por que esta pergunta? Porque vivemos em um momento em que, se por um lado há um cenário de hiperglobalização, falamos de um mundo sem fronteiras, por outro lado falamos de uma informação que cada vez mais aparece como hiperlocal.

Então nos Estados Unidos o grande assunto neste ano nos meios jornalísticos é que a grande solução para o jornalismo é o jornalismo hiperlocal. Cada veículo vai fazer um jornalismo muito profundo a respeito de seu bairro, da sua cidadezinha. Porque esta é a maneira que eles têm de encontrar um futuro. Isto é o que algumas pessoas pensam. E radicalizando um pouco, dentro deste conceito do hiperlocal, com as novas ferramentas que foram surgindo, como por exemplo blogs, videologs e assim por diante, qualquer ser humano tem a capacidade de publicar qualquer informação a qualquer instante na Internet e deixar esta informação disponível para o mundo todo. E esta informação muitas vezes tem um caráter extremamente pessoal, é a pessoa falando dela mesma ou da sua visão do mundo. Com os blogs, por exemplo, que nada mais são do que um diário que uma pessoa escreve na Internet e que normalmente tem a capacidade de receber comentários do público, comentários estes que são ou não revisados, retrucados, apagados ou autorizados, qualquer pessoa pode também pontuar sobre qualquer coisa que um blogueiro escreva. Então a fronteira que havia entre o conteúdo profissional e o conteúdo amador também está se rompendo, está desaparecendo. E é exatamente neste momento que estamos hoje. Vários veículos estão convocando pessoas leigas para produzir notícias. E agora, mais recentemente, não apenas para produzir notícias, mas também para editar notícias, para selecionar as notícias que outras pessoas escreveram e definir se serão publicadas ou não, ou melhor, sendo um cenário em que todas as notícias serão publicadas, definindo se terão destaque em uma determinada primeira página ou não.

Para concluir, acho que não é o fato de todo mundo ter acesso a um lápis e a papel que vai transformar todo mundo em um Machado de Assis. Não é o fato de todo mundo ter acesso a ferramentas de publicação, num ambiente internacional como a Internet, que vai transformar todo ser humano em jornalista. Parece-me um pouco desagradável quando portais dão primeira página só para dizer que estão aceitando o conteúdo do público e que são democráticos. Enchem a bochecha para falar esta palavra: democraria. E publicam com quatro dias de atraso uma notícia velha e pior escrita, que já tinha sido publicada com muito mais precisão dias atrás por um veículo profissional. Isto me parece um uso tolo desta complexidade, desta situação extremamente interessante que nós vivemos hoje, de ter múltiplos atores e autores convivendo de uma maneira que pode ser riquíssima em um ambiente sem fronteiras como é a Internet.

O que é RSS?

É uma abreviatura, quer dizer literalmente uma maneira realmente simples de distribuir informação. Tem softwares que você pode instalar em seu computador e são chamados agregadores e você informa que tipo de assunto, com que freqüência e de que veículos você quer receber. Quando você já sabe que assuntos você quer acompanhar e já sabe de que veículos você quer acompanhar o noticiário daqueles assuntos, para este tipo de situação é um sistema bastante interessante.

Confiabilidade da informação na Internet

Acho que a questão da confiabilidade é central, é importantíssima. Mas acho que as marcas constroem a sua confiabilidade. Não é o papel, o pano, a película que é confiável em si. Acho que as empresas jornalísticas baseiam a sua atuação na credibilidade do seu produto jornalístico, quer dizer, a confiança se constrói em cima das marcas, então as pessoas não confiam na marca o Estado de S.Paulo porque o Estado de S.Paulo é impresso em papel.

Mas se essa marca aparece em outro contexto, por exemplo, informações no celular, se as pessoas confiam nessa marca, essa marca vai fazer sentido em outros contextos que não o papel. O jornal não é o papel. O jornal é o jornalismo que ele pratica. Não é o papel onde ele é impresso. Então a Internet para um jornal impresso é uma nova forma de distribuição da informação jornalística.

Até que ponto o jornalismo na Internet é concentrado? É razoável o UOL usar a Agência Estado que em tese é um concorrente?

A Folha é o principal acionista do UOL, o UOL nasceu dentro da Folha. O UOL hoje é uma empresa de capital aberto, a Folha de ações do UOL deve ter menos de 40%. Mas o gerenciamento da empresa é do Grupo Folha. Apesar de o UOL ser da Folha, ele nasceu em 1996 como uma empresa independente e com um nome dissociado do da Folha, com uma marca diferente. E como uma empresa que sempre se propôs, desde o primeiro dia, a ser um aglutinador de muitas fontes diferentes de informação.

Então dentro do UOL temos 150 títulos de revistas brasileiras, dezenas de jornais regionais brasileiros, notícias de muitas agências de notícias brasileiras e estrangeiras. Sempre quisemos ter, entre outros jornais, o Estadão dentro do UOL _o Estadão é que não quis_ assim como o UOL tinha a IstoÉ e a Veja. O conceito do UOL desde o primeiro dia era ser um portal, um aglutinador de fontes diferentes de informação. Então se a Agência Estado entrou apenas recentemente como mais uma fonte de informação do UOL foi porque a Agência Estado não quis entrar antes. Estávamos há muitos anos propondo que eles também entrassem, do lado da Agência Folha, como uma fonte de informação para o UOL.

Qual o fator negativo de ter um volume tão grande de informação?

Trabalhar com um volume muito grande de informação é infernal. É difícil organizar a informação de modo que ela fique facilmente achável. Dentro do UOL há mais de mil sites inteiros. A Folha é um deles, a Veja é outro. Organizar todos esses sites dentro do que a gente no jargão da Internet chama de árvore de navegação, organizar dentro de categorias, de temas, de home pages diferentes, é um trabalho muito grande. Toda hora temos que fazer correções nesta organização. A vantagem é que na Internet temos uma capacidade muito grande de mensurar as coisas que a gente faz e de corrigir os rumos daquilo que estamos fazendo.

Vou dar um pequeno exemplo do que significa essa organização de informação, de lidar com muitos conteúdos diferentes. Lá pelas tantas a gente criou uma estação chamada UOL Astral. Estação, no jargão interno do UOL, é um conjunto de canais diferentes. Escolhemos a palavra Astral porque pareceu um nome genérico o bastante para poder abrigar dentro dele uma série de canais que a gente tinha no UOL e iam desde horóscopo a uma versão eletrônica o I Ching, colunas do Paulo Coelho, Runas, Tarô... A gente achou que Astral era um nome genérico o bastante para poder abrigar todos esses conteúdos. E criou esta área. Colocou na letra A, no menu, que é em ordem alfabética... um dos primeirões. E achou que estava muito bem divulgada. E eu olhava a audiência dessa área do UOL e achava que estava um pouco baixa se comparada com a audiência desse tipo de conteúdo nos grandes portais americanos, por exemplo. Tem algo estranho aqui, eu pensei. Até que um dia eu resolvi fazer uma experiência. Eu tirei a palavra Astral do menu da home page e coloquei Horóscopo. Uma palavra muito "pior", muito menor. E não mexi em nada lá dentro. Do dia para a noite, a audiência duplicou. Porque as pessoas queriam principalmente horóscopo e para elas era difícil ou não era tão óbvio encontrar horóscopo dentro de uma palavra como Astral.

Solidão na Internet

Não é fato que em ambientes que não o domiciliar as pessoas navegam menos ou tem menos tempo. Nós acompanhamos isso cotidianamente, então tem muitas áreas do UOL que são muito mais acessadas em períodos diurnos do que em período noturno. E sabemos que a maioria do público que freqüenta essas áreas do UOL são pessoas que estão em ambiente de trabalho.

Os dados que eu tenho são os seguintes: o Ibope tem medido para o UOL aproximadamente nove milhões de pessoas acessando o UOL regularmente a partir de casa. Pelos dados internos de servidor, temos 48 milhões de browsers diferentes, navegadores diferentes, acessando o UOL todos os meses. Claro que uma mesma pessoa pode acessar o UOL de navegadores diferentes, um de seu escritório e outro de sua casa. Mas, da mesma forma, é possível que na casa dessa pessoa mais de uma pessoa acesse o UOL a partir do mesmo navegador. Mas uma coisa é certa: o número de pessoas que acessam o UOL a partir de outros ambientes que não o domiciliar é maior do que o dos que acessam o UOL de ambientes domiciliares, pelo menos é isso o que a gente depreende monitorando a audiência diurna versus a audiência noturna e audiência de dia de semana versus a de fim de semana.

Horário nobre da Internet

Para produtos jornalísticos como, por exemplo, acesso a jornal e sites de economia, o horário nobre é diurno e se dá em dia útil. Em serviços como Bate-papo UOL, o horário nobre é das 22h à meia-noite todo dia. O dia nobre é sábado da meia-noite às duas da manhã de domingo. Se você entra no Bate-papo UOL em um sábado à noite, pode encontrar 300 mil pessoas conversando. É uma cidade.

Filhos que usam Internet

Eu tenho dois filhos, um adolescente de 16 anos e uma menina de oito anos. Os dois usam a Internet, praticamente nasceram usando a Internet. O menino de 16 anos eu não monitoro, assim como eu não ouço as conversas telefônicas dele pela extensão e não vasculho a mochila dele. A menina de oito anos eu monitoro um pouco. Na semana passada, por coincidência, eu estava chegando em casa à noite e ela estava no computador. Entrei no escritório na hora em que ela estava no computador. Ela estava no MSN. Ela com uma imagenzinha de Hello Kitty e a pessoa com quem ela estava conversando com uma imagem de uma bola de futebol. E ela foi pedida em namoro na minha frente por um colega de classe!

Eu acho que criança nós precisamos monitorar. Acho fundamental monitorar. Agora, uma coisa é fato, as pessoas normalmente se relacionam pela Internet com outras pessoas que elas já conhecem, principalmente nesses sistemas tipo MSN e Orkut. Em salas de bate-papo não, lá normalmente elas se relacionam com pessoas que elas não conhecem. Então no UOL lá pelas tantas a gente se viu impelido a não ter mais salas de bate-papo para crianças. Porque achamos que ali era um ambiente em que, como havia muitas salas, funcionam muitas horas por dia, aliás, funciona direto e não tínhamos condições de colocar monitores dentro das salas, era melhor não ter.

Porque muita gente se aproveita do anonimato que a Internet permite para fazer coisas que não são nada legais. Então decidimos não ter sala de bate-papo para crianças. Mas claro que você pode dizer que uma criança pode entrar em uma sala de bate-papo para adultos. Ok, pode. Mas tem softwares hoje disponíveis. No próprio UOL tem um que permite que os pais decidam que tipo de site a criança pode freqüentar e qual não pode. Então os pais mais preocupados podem instalar e usar esse tipo de software. É uma coisa a fazer. Eu passo o dia todo fora de casa, não estou em casa para ver o que as crianças estão fazendo na Internet. Eu acho que não devo proibi-las de usar a Internet. Acho que seria ridículo, eu as deixaria de fora do contexto social, fora da época delas. Não faz sentido. Eu acho que é bom impor algum tipo de monitoramento para as crianças. Então a ordem lá em casa, para as pessoas que trabalham lá em casa, é entrar de vez em quando no escritório para ver o que está acontecendo no computador.

As crianças estão deixando de ver TV por causa da Internet?

Estão sim. Tem diversas pesquisas há vários anos feitas regularmente principalmente nos Estados Unidos que mostram que o meio de comunicação que mais perde o tempo do público para a Internet é a televisão. Não são jornais e nem revistas.

Papel x Web

Do meu ponto de vista, aparentemente as coisas vão conviver. Tem veículos impressos que criaram suas versões online e deixaram essas versões exclusivamente acessíveis para os seus assinantes pagantes. Há outros veículos que resolveram fazer sites totalmente abertos. E há veículos como a Folha que faz uma mistura dos dois. E há publicações que fazem versões eletrônicas que nada mais são do que fac-símiles das suas versões impressas originais com softwares que dificultam a distribuição maciça por e-mail e tudo mais e vendem estas versões online por preços semelhantes aos que vendem as edições em papel. Estas coisas todas estão convivendo.

Conteúdo aberto e fechado

Acho que o modelo que vai prevalecer é o modelo aberto: a informação totalmente gratuita para o público e baseado em receita publicitária. Eu acredito que este seja o que vai prevalecer. O problema é que a receita publicitária na Internet cresce muito lentamente, então ela não é suficiente para bancar a produção deste conteúdo na Internet ainda. Isto está se modificando, um portal como o UOL está tendo índices de crescimento em receita publicitária da ordem de 50% ao ano, o que é fantástico. Mas ainda é pouco se comparado à publicidade de outros veículos de comunicação.

Por que as empresas de comunicação no Brasil tomaram conta da Web e nos EUA não?

O que aconteceu é que nos Estados Unidos o computador pessoal, por ser um país rico, se disseminou com muito mais rapidez do que no Brasil. E antes da Web havia as BBS, então havia pelo menos duas empresas que se tornaram muito grandes, e uma delas ainda é enorme até hoje, que é a America Online, que nasceram antes da Web como BBS, serviços eletrônicos de informação. Depois, com o advento da Web, elas tiveram que mudar todos os seus sistemas e se adaptar a essa linguagem. A Folha entrou na Internet antes do New York Times. O Jornal do Brasil também. Assim como o Videolog entrou no ar nove meses antes de o YouTube ser criado. Então há coisas interessantes que acontecem no Brasil.

Quando surgiu a Web, o que aconteceu foi que a nossa fraqueza, que era o fato de ninguém ter acesso à Internet, acabou sendo a nossa fortaleza. A gente já nasceu em um ambiente aberto, em um ambiente HTML, em um ambiente de protocolo TCP/IP de transferência de dados. Então não tivemos que passar por toda aquela modificação que a CompuServe e a AOL tiveram que passar nos Estados Unidos. O que era uma precariedade acabou se mostrando interessant. Para a Folha, em particular, o fato de ninguém ter acesso à Internet no Brasil acabou se mostrando uma oportunidade de se criar um provedor de acesso. O UOL foi obrigado a se tornar um provedor de acesso se quisesse ser, como queria, um grande veículo de comunicação de massa. Se ninguém tinha acesso à Internet no Brasil, as pessoas precisariam passar a ter acesso à Internet, e se não tinham um provedor nacional, esse provedor nacional precisaria ser inventado como de fato foi, e outros surgiram. As nossas precariedades acabaram se transformando em oportunidades.

Entretenimento x informação

O número de quantas pessoas fizeram perfil no Orkut não significa que todas essas pessoas continuam necessariamente usando o serviço todo dia.

Deixa-me explicar um pouco o que é este conceito de comunidade do Orkut. Quando se tem lá comunidade 'Eu odeio acordar cedo', o que acontece é que se você odeia acordar cedo e vê que existe uma comunidade com esse nome, você clica para ter o selo dessa comunidade na sua página pessoal. Isto não significa necessariamente que você vai se relacionar com as demais pessoas que fazem parte dessa "comunidade". Na verdade, você está só compartilhando uma frase com a qual você se identifica de alguma maneira e coloca o selinho da frase. É um "statement", uma etiqueta, como um "button".
Isso não significa que você vai se relacionar com todas estas pessoas.

O Orkut nos Estados Unidos tem outros concorrentes de enorme peso e é por isso que o Orkut não é tão grande lá, pois a concorrência é muito maior, outros sites de relacionamento lá são imensos. Mas eu não acho correto comparar um site de relacionamento com um jornal online, assim como não faria sentido comparar uma conversa de boteco ou um encontro em uma praça pública ou em uma casa noturna com a leitura de um jornal. São coisas de naturezas diferentes. Não tem por que serem comparadas.

O que os jornais impressos têm que a Internet não consegue ter? O que você inveja nos jornais em papel?

Eu continuo lendo jornais. Quando estou tomando café da manhã eu normalmente estou com o jornal e não com o computador. Na minha cama eu estou com o computador e não com o jornal. Na praia estou com o jornal e não com o computador. Estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo. Mas daí a invejar...

Acabou de sair na semana passada uma pesquisa daquele Pointer Institute derrubando esse mito de que na Internet se lê pouco. Tem página que é para ficar pouco mesmo. Você está lá só para colocar o seu login e senha, vai ficar lá mais tempo para quê?

O jornal é fantástico, eu adoro jornal. Mas não é isso. Por que a Internet trabalha com texto curto? Não é porque as pessoas lêem pouco na Internet. É porque a Internet tem uma obrigação de ser em tempo real, de dar a informação rapidamente.

Os textos não são curtos para serem lidos rapidamente?

São textos curtos no momento em que a notícia irrompe. Então se fulano morreu, você escreve um parágrafo porque você quer dar a informação rapidamente. Porque as pessoas querem ter a informação rapidamente. A partir do momento em que você tem tempo de trabalhar melhor aquela informação, você vai trabalhar melhor e vai publicar outras versões do mesmo texto, versões muito mais longas, às vezes com uma profusão de links para outros sites que possam abordar aquele mesmo assunto. O texto na Internet não precisa ser necessariamente curto.


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