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29/03/2007 - 10h58
No fim do mundo, Ushuaia é sede da Bienal que discute e encena o fim dos tempos
MARA GAMA
Gerente Geral de Entretenimento
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Divulgação
Obra de Gonzálo Dias, destacado artista de arte contemporânea do Chile
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Com 90% das obras de arte feitas especialmente para a ocasião e o lugar, começa nesta sexta, 30, a Bienal do Fim do Mundo, na pequena cidade de Ushuaia, Argentina, a mais austral do planeta.
Características simbólicas e históricas do local devem contaminar os projetos artísticos. "Os artistas estão vivendo um entorno nunca antes experimentado. Aqui não há um circuito de arte. Muitos chegaram influenciados pelo chamado conhecimento poético, mesmo antes do conhecimento real. Quantos lugares nos conquistam mesmo antes de conhecermos?", pergunta a curadora da mostra, a brasileira Leonor Amarante, que considera esta uma bienal "de risco". Leonor Amarante já foi responsável por duas edições da Bienal do Mercosul, em parceria com Fabio Magalhães, curadora da seção brasileira de três edições da Bienal da Venezuela e colaboradora da Bienal de Havana. Com o tema "Pensar o fim do mundo e que outros mundos são possíveis", a Bienal do Fim do Mundo tem claro viés ecológico e político. "Estamos plantados no olho do furacão, e aqui se sente, mais do que outro lugar, os efeitos devastadores das mazelas de todos os países. Recentemente a Antártida registrou 15 graus positivos. Isso é uma aberração. Alguns artistas estão traduzindo sua indignação por meio de trabalhos que são quase manifestos", diz Amarante. A bienal terá forte participação brasileira - onze artistas, além da curadora geral, obras de 26 artistas argentinos e de artistas de Chile, Cuba, Paraguai, China, Uruguai, Colômbia, Bolivia, Canadá, Dinamarca, Equador, Espanha, França, Grécia, Finlândia, México, Noruega, Peru, Portugal e Venezuela, totalizando 65 projetos. A curadora aposta na capacidade de fomentar discussões éticas e políticas da mostra. "As obras aqui reunidas, com certeza, vão provocar a reflexão mais profunda sobre o papel da arte, da tecnologia e do meio ambiente, e o que eu espero é que este esforço provoque novas formas de ação", diz Amarante. Aberta até 30 abril, a bienal foi instalada em cinco sedes diferentes. Um ginásio de esportes, um edifício que já abrigou a Câmara Legislativa, a Casa da Cultura, a Casa Beban e alas do antigo presídio que hoje é um museu. Parte da mostra será exposta, em maio, no Memorial da América Latina, em São Paulo. O Memorial é co-produtor da bienal. Núcleos temáticos organizam a produção artística exposta na bienal. "Circularidade do tempo e do espaço" reúne trabalhos que analisam influências culturais dos fluxos migratórios na história local. "Passado - Futuro como medida do presente" tem instalações e pintura, escultura, vídeo, desenhos e objetos de pequeno porte que abordam experiências do tempo e do espaço e será abrigada no "Farol do Fim do Mundo", o antigo presídio construído com o modelo de vigilância proposto por Jeremy Bentham (que Foucault usaria como paradigma em seu livro "Vigiar e Punir"). Obras do brasileiro José Rugino e do argentino León Ferrari estarão no local. "União dos pólos pela arte" aborda as culturas polares, consideradas as mais antigas do planeta. Terá música e arte eletrônica e busca exibir pontos de semelhança entre a produção contemporânea e expressões originais, históricas dos pólos.Serão realizadas também várias experiências de apropriação de locais da cidade em eventos. Para Amarante, as obras do cubano Kcho (na Casa Beban) e da brasileira Shirley Paes Leme são destaques da mostra. Leia a seguir a entrevista com a curadora da Bienal do Fim do Mundo. UOL: Quais são os destaques da mostra? Leonor Amarante:Kcho, artista cubano, se apropriou da Casa Beban, residência emblemática de uma elite que apostou no Fim do Mundo e que enriqueceu, como o Sr. Beban, dono de navios e obviamente dos containers que traziam comida para a Ilha de Ushuaia. Kcho vai remobiliar a Casa Beban com móveis velhos, mas as pernas das mesas, cadeiras, camas, sofas, serão fixadas sobre remos de um metro e meio de altura. Portanto, quando se entra na casa, todos os móveis estão acima da cabeça das pessoas. Enfim, como o sr. Beban se adiantava em seu tempo, Kcho vai deixar sua casa pronta para o suposto derretimento das geleiras do pólo Sul, com seus móveis a um metro de meio do piso, com certeza estarão salvos da subida do mar. A mineira Shirley Paes Leme vai construir um muro de tronco de árvores, com um metro de altura por 200 de comprimento, com a mesma técnica dos castores, bloqueando praças e ruas. Ela vai colocar em xeque um problema local: com a alta população de castores nas florestas locais e a falta de predadores (porque eles foram trazidos indevidamente do Canadá), o governo argentino paga 16 pesos, um pouco mais de três dolares, para quem matar um castor. UOL: Qual a inspiração da Bienal do Fim do Mundo? Leonor Amarante: Os artistas, historicamente, sempre estiveram conectados com seu tempo, basta lembrar "Guernica", de Picasso, e outras obras contemporâneas contra as ditaduras, guerras. Hoje, a ameaça não está localizada em uma região específica, atinge a todos. O futuro do planeta está na ordem do dia, com o acelerado aquecimento global, a desertificação e, sobretudo, com o destino do homem. Alguns artistas formam uma espécie de movimento ecológico dentro do panorama internacional, abordando vários problemas criados pela sociedade. Eles levantam questões ao mesmo tempo em que dão uma resposta estética às perguntas e às estratégias de como manter a sustentabilidade do planeta. UOL: Qual sua perspectiva como curadora? Leonor Amarante: Desde o primeiro momento em que me vi frente a frente com o Fim do Mundo, como toda essa região foi chamada por Julio Verne, em seu livro "O Farol do Fim do Mundo", tive a certeza que faríamos uma Bienal muito diferente daquelas que já tive a oportunidade de trabalhar como curadora. Em Ushuaia, radicalizamos a descentralização do circuito de arte e montamos uma Bienal no limite geográfico do planeta, com trabalhos executados em lugares nunca antes imaginados, como sobre um iceberg na Groenlândia ou na plataforma argentina da Antártida. Há trabalhos sobre o Canal de Beagle, em suas margens, dentro de barcos, adesivados sobre ônibus, dentro de casa rondante de madeira, que se movimenta sobre troncos de árvores e rebocada por um caminhão, se deslocando pela cidade com seu autores, os artistas do coletivo Yatana. Mesmo antes de a Bienal estar aberta, já estou satisfeita com o resultado, considerando-se que todas as primeiras edições de uma bienal são caóticas. Aqui, apesar do grande porte da Bienal e dos vários locais em que acontece, tudo está dentro do cronograma. UOL: Como selecionou trabalhos e artistas? Leonor Amarante: Viajo constantemente, não somente para ver as bienais. Mantenho contanto permanente com curadores, artistas de vários países. Tenho como curadora-adjunta Ibis Hernandez, uma das curadoras da Bienal de Havana, e como curadora dos artistas argentinos e dos projetos especiais Corinne Sacca Abadi, que tem como curadora-adjunta Florencia Battiti.
Há muitos artistas jovens, mas há também muitos consagrados como Kcho, León Ferrari, Fred Forest, Mariana Vassileva, Gonzalo Dias. Essa Bienal também é uma bienal de risco, que apostou em artistas como Bruno Steconi, de 25 anos, e que está promovendo a união dos pólos, com trabalho feito em Kuru, a cidade mais setentrional do pólo Norte, e em Ushuaia, a mais austral do pólo Sul. UOL: Ushuaia é distante dos mais conhecidos centros culturais da América Latina. O que se espera de público? Leonor Amarante: Todo tipo de público, desde os 60 mil habitantes de Ushuaia, até curadores internacionais, diretores de museus, artistas, estudantes de arte, colecionadores, apreciadores de arte, jornalistas de vários países. É muito dificil precisar um número. Ushuaia, porta de entrada e de saída da Antártida, recebe muitos navios de várias partes do mundo. Com certeza esse público também estará envolvido. E muitos estados argentinos vão enviar seus estudantes. UOL: Em que medida o local da mostra - estratégico e às portas da Antártida - influencia a seleção de obras, temas e as discussões? Leonor Amarante: Estamos plantados no olho do furacão, e aqui se sente, mais do que outro lugar, os efeitos devastadores das mazelas de todos os países. Recentemente a Antártida registrou 15 graus positivos. Isso é uma aberração e alguns artistas estao traduzindo sua indignação por meio de trabalhos que são quase manifestos. UOL: Um dos projetos da 1ª Bienal do Fim de Mundo é criar um Museu Polar Contemporâneo de Arte, Tecnologia e Meio Ambiente. Como se relacionam estes temas? Leonor Amarante: Hoje a arte provoca uma discussão sobre as questões que sintetizam o seu processo acumulativo e o da ciência e da ecologia, assim como destaca as múltiplas influências culturais que o Continente recebe de outros países e do fluxo migratório deste momento globalizado. Uma das questões que emergem nesta edição é a capacidade de resistência da obra de arte como agente transformador através do tempo. As obras aqui reunidas, com certeza, vão provocar a reflexão mais profunda sobre o papel da arte, da tecnologia e do meio ambiente, e o que eu espero é que este esforço provoque novas formas de ação. UOL: Bienais como a de Veneza e a de São Paulo têm sido criticadas por se tornarem grandes demais, semelhantes a feiras de arte, e terem perdido a qualidade de apontadora de valor artístico na produção atual. Em que medida esta Bienal do Fim do Mundo se assemelha e diferencia das grandes mostras contemporâneas? Leonor Amarante: Esta bienal tem 90% de suas obras feitas "in situ". Os artistas se deslocaram para Ushuaia. O diferencial é o que os artistas não estão num centro de arte, estão vivendo um entorno nunca antes experimentado. Aqui não há um circuito de arte. Muitos artistas chegaram aqui influenciados pelo chamado conhecimento poético, mesmo antes do conhecimento real. Quantos lugares nos conquistam mesmo antes de conhecermos? As tradicionais estratégias contemporâneas baseadas no impacto, na provocação, na inovação, em Ushuaia são assumidas por sua localização e particularidades geográficas. Sua história construída a partir de mitos de origem indígenas se mescla com o poder de sua realidade, que a converte ao mesmo tempo em porta de entrada e saída do Continente Antártico.
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