! Cronicamente Viável: Para Demi Getschko a Internet expandiu as fronteiras do indivíduo; leia a íntegra - 13/03/2007 - UOL Diversão e Arte
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13/03/2007 - 19h30
Cronicamente Viável: Para Demi Getschko a Internet expandiu as fronteiras do indivíduo; leia a íntegra
Da Redação

Reprodução

Demi Getschko na primeira edição do Cronicamente Viável

Demi Getschko na primeira edição do Cronicamente Viável

Em 13 de março, o Centro Cultural Banco do Brasil deu largada a segunda edição do programa "Cronicamente Viável", que este ano tem como tema "A Informação e a Imaginação na Internet".

O debate que abriu o ciclo tratou das características gerais do mundo virtual e teve a participação da psicanalista e escritora Betty Milan e do engenheiro Demi Getschko, especialista em Internet, que participou da primeira transmissão da rede no Brasil.

O debate aconteceu das 19h30 às 21h30 e foi mediado por Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Tas.

Leia abaixo a íntegra da participação do engenheiro Demi Getschko

A mudança de padrões geradas pela Internet

Inicialmente agradeço o convite de estar aqui e poder compartilhar esta discussão deste momento interessante que estamos vivendo. Este texto do John Barlow tem mais de dez anos já. Era pra dizer que o espírito que existe na Internet a gente espera que continue existindo de alguma forma, o espírito libertário, o espírito de colaboração, colaboração no sentido de trabalho em conjunto, colaborar, que é o mesmo sentido de sinergia, que também é uma palavra em grego: synergia, trabalhar conjuntamente.

Eu vou dar uma visão geral do campo da história, um pouco de obviedades que vocês devem conhecer já, só para a gente ter o tema ou a provocação para discussão posterior.
Eu comecei a me envolver com redes quando estava na USP, por volta do final dos anos 70, e acabei indo trabalhar na Fapesp. E na Fapesp na época nós não tínhamos nenhuma conexão internacional com o exterior, a comunidade científica brasileira ia para fora fazer trabalho e quando voltava perdia o contato com os laboratórios, com os orientadores. E se via que lá fora a coisa havia mudado, que havia formas eletrônicas de manter este contato ou até de submeter dados a um determinado laboratório e pegar os resultados depois etc. Então surgiu uma pressão de que as universidades iam tentar uma conexão. E a Fapesp como era um órgão central e neutro resolveu capitanear esta conexão e dizer: Faremos aqui em São Paulo uma conexão e as universidades usarão essa nova conexão para poder acessar os laboratórios e os seus congêneres lá fora. Isto aconteceu em 87 e 88. Na época a rede não era a internet, era uma coisa chamada Bitnet, que era uma rede de texto, na época tudo era texto, os terminais eram de texto, os terminais de vídeo eram de 24 linhas por 80 colunas, não havia gráficos, então já estávamos muito felizes de poder enviar e receber mensagens em texto.

A Bitnet era uma rede de correio eletrônico e nós conseguimos ligá-la por volta de 88. No Rio também houve uma conexão na mesma época, um pouco antes até, do Laboratório Nacional de Computação Científica, também para a Bitnet. E se deu o espanto que foi o email, o correio eletrônico.

O correio eletrônico era uma ferramenta de extremo poder e ainda é. Primeiro porque tinha um status muito bom. Se você mandasse um email para alguém, não importa o quão importante esta pessoa fosse ela responderia imediatamente, daria toda a atenção ao seu email porque se você estava mandando email é porque estava ligado a rede, portanto você era uma pessoa que estava acompanhando a evolução e tudo mais.

Então o correio é uma ferramenta sensacional e ele tem uma característica um a um, peer to peer é como se chama, alguém manda uma carta para alguém e este alguém responde, é entre indivíduos. Ele expandiu as fronteiras do indivíduo de maneira que ele se comunicava com os demais indivíduos da rede, mas sempre um a um. Em breve surgiram listas de discussão onde indivíduos interessados em discutir determinado assunto mandavam um único correio que se espalhava pelos integrantes da lista e cada um respondia, havia debates, às vezes bastante acalorados, sempre baseados em texto.

Em 89 nós registramos o .br para poder ter já uma estrutura de nomes do país. Demos os nomes às máquinas terminando em .br na área acadêmica. E em 91 já estava mais claro, no final de 90, que a Bitnet ia ser absorvida, além de outras redes acadêmicas similares, por uma rede que estava vindo com muita força, a partir de 86, era já uma rede bastante importante nos Estados Unidos, que era originária do projeto Arpanet original, e que ganhou o nome a partir do protocolo. O protocolo que foi criado para esta rede era o protocolo TCP/IP, TCP, Transmission Control Protocol e IP, Internet Protocol. Então esse Internet Protocol deu o nome a rede, a rede que usava IP passou a se chamar Internet e passou a ser uma rede muito importante a partir de 86 e 87 nos Estados Unidos. Então nós fizemos um esforço, aproveitando uma linha que já existia aqui na Fapesp e até em um laboratório de Chicago chamado Fermilab, Laboratório de Física de Altas Energias, aproveitamos a mesma conexão para também circular TCP/IP e passar a receber os mesmos pacotes de internet em 91.
A Internet também era uma rede de texto, só correio eletrônico. Ela tinha uma vantagem em relação a Bitnet que era poder acessar uma máquina e se logar na máquina e trabalhar dentro da máquina sendo essa máquina remota. Então isso era mais poderoso do que correio eletrônico. Eu podia entrar em uma máquina e usar esta máquina remotamente. Claro que isso também trazia chance de eu criar um vírus e injetar na máquina, vermes e coisas deste tipo. Sempre a maldição acompanha a bênção, o fato de eu poder acessar uma máquina criava perigos.
Era uma rede de texto, não havia gráficos, não havia nada. E nós passamos a utilizar isso e o uso foi crescendo. A rede nacional de pesquisa que cobria o país também passou a distribuir TCP/IP a partir deste ponto de conexão na Fapesp e depois no Rio e as universidades começaram maciçamente a entrar nisso aí.

Em 93 acontece uma revolução que atualmente nós confundimos com a internet que é a criação da Web. Um pessoal também físico na Suíça criei um protocolo chamado http, um protocolo de hipertexto que permite você criar coisas além do texto, imagens, sites depois e tudo o mais. Isso muda completamente o poderio da rede. Enquanto o correio eletrônico era uma coisa um a um, eu mando e ele me responde, eu criar um site é uma coisa que eu crio para o universo, todo mundo pode ver meu site. Então eu estou me transformando em um publicador de informação. Eu sou um sujeito que divulga a informação para o mundo e não simplesmente para alguém aqui, como se fosse um telefone, nem se compara a um telefone, eu ligo para alguém e ele liga para mim, enquanto um site se compara a uma TV ou a um jornal, eu faço o que se chama broadcast, eu gero uma informação que todos podem de alguma forma receber.

Então essa é uma revolução que acontece a partir de 93 e 94. Inicialmente a gente era muito cética, eu lembro de ter dito isso aí vai entupir todos os nossos canais, para passar texto já era uma dificuldade. A linha internacional tinha 9600 bits por segundo que alimentava um monte de universidades e tudo o mais. Quer dizer, hoje 9600 bits por segundo não serve pra ninguém. Então na época achamos isso impossível, na hora que vier a primeira imagem nós vamos travar por duas semanas, até conseguir receber a imagem ninguém vai conseguir fazer nada. E de fato era por aí né.

Mas por sorte nós tivemos também uma grande evolução em meios de comunicação, na época não havia fibras de superfície no Brasil, só usava microondas. Então era difícil de ir de um Estado para o outro, tinha pouca banda disponível. Com a entrada de fibras de superfície e a privatização das telecomunicações, a banda começou a sobrar e aí as coisas que pareciam impossíveis passaram a ser perfeitamente viáveis. E nós vimos então o espalhamento da web. E hoje quando se fala em internet está em geral falando de web, ninguém mais fala de internet pensando em TCP/IP ou Telnet ou http, quer dizer nós estamos pensando sempre na web, nos sites, nas buscas.

Depois em cima disso se criam mecanismos que também pareciam impossíveis na época, se alguém me dissesse, por exemplo, que alguém ia varrer a rede inteira e criar um mecanismo de busca para a rede toda eu ia dizer: Não há computador que agüente, não há armazenamento que resista, principalmente porque as consultas vão ser tantas que isso vai capotar. E por sorte nós erramos mais uma vez. E foram criados mecanismos de busca, o Altavista foi o primeiro, depois veio o Google, teve alguns no meio também muito bons. E hoje ninguém vive sem um bom mecanismo de busca e outras evoluções do tipo.

A chegada do Second Life

Então nós estamos sempre embrenhados neste mundo e agora tem o Second Life que é uma diversão. O pessoal vai lá e cria seus avatares e discute. E no Second Life um sujeito tímido vira um sujeito audacioso, um sujeito forte pode virar delicado, uma pessoa que mora em um apartamento pode plantar uma floresta. Quer dizer, em suma, você cria toda uma nova vida em paralelo. E nós estamos sempre sendo afetados pela rede pontualmente nestes diversos setores.
E eu queria aproveitar essa primeira abordagem aí para estimulá-los a tentar olhar isso de uma forma um pouco mais distanciada. Quer dizer, em vez de olharmos aí correio eletrônico, sites, Second Life, blogs etc. vamos ver como isso tem afetado a nossa vida. E o que eu notei inicialmente foi esse poder enorme passado ao usuário de se exprimir, colocar seus pontos de vista, suas idéias, para o mundo inteiro, antigamente isso era impossível antes da rede.
O segundo ponto que eu acho fundamental é essa história que eu comentei de colaboração. A rede é extremamente baseada em colaboração. Para dar um exemplo em cima da linha do texto do Barlow para mostrar como a rede é colaborativa. Se vocês escreverem em qualquer lugar do mundo www.uol.com.br vocês vão chegar ao UOL porque é um sistema de resolução de nomes distribuídos, que a maior base distribuída que tem no mundo resolve isso. E como isso funciona? Funciona porque o pessoal que opera isso colabora. Para vocês terem uma idéia de como isso ainda é digamos romântico e no estilo original da internet, essa colaboração nasce de 13 servidores raiz. Servidores raiz são aqueles que conhecem a parte mais íntima da rede, os primeiros domínios de nível mais alto. Esses 13 servidores raiz são operados até hoje pelos operadores originais nas suas instituições originais sem receberem por isso e sem querer fazer nenhum tipo de contrato. Então eles operam isso aí, que é fundamental para a rede, em universidades, em instituições militares, em instituições comerciais, nos Estados Unidos, no Japão, na Europa. E fazem isso sem pagamento, não querem pagamento e não querem contrato. Isso não bate com o mundo comercial, quer dizer você vai fazer um investimento de milhões de dólares na rede e esse investimento depende de um operador que está em algum lugar operando o servidor raiz e você não tem nenhum contrato que o obrigue a fazer aquilo. Ele fica ofendido se você disser que precisaria fazer um contrato. Pode parecer anacrônico, mas é um grande risco, não deveria ser assim. Mas isso ainda é assim hoje e em parte é bom que seja assim. Você mantém essa pureza original da colaboração cada vez mais. Então todo software livre que você tem aí nasceu porque as pessoas colaboraram e colaboraram em cima de uma rede. Se não houvesse um meio para vir essa colaboração não haveria dinamismo suficiente para você criar o que foi criado. Então acho que colaboração é uma coisa fundamental.

Mas isso são coisas de dentro da rede. Se você olhar para fora, ela criou isso que o Barlow falou, um mundo sem fronteiras. Neste mundo sem fronteiras você não consegue impor restrições. Nós vimos o fenômeno Youtube com a Cicarelli. Não houve condições de tirar o negócio do ar porque sempre tem um jeito de contornar. A rede quando descobre um defeito, um ponto de censura, ela dá volta naquilo, ela contorna aquilo, ela flui ao redor, ela não fica travada porque alguém criou uma barreira naquele lugar. Então a imposição de restrições, de padrões, até daqueles que você gostaria eventualmente de impor é muito complicado em um mundo deste. Se o mundo se baseia em colaboração a ética deve ser fundamental e a tecnologia também porque as leis em si vão ter um alcance limitado. Se alguém nos Estados Unidos quer falar alguma coisa usando um servidor de Taiwan e isso denigre a imagem de alguém que mora na Argentina, como é que nós vamos tratar disso legalmente? Como a lei vai conseguir funcionar em um caso destes?

Como funciona a propriedade intelectual em época de Internet?

O Barlow tem boas idéias a respeito disso também. Hoje na rede você não distingue um pedaço de música de um pedaço de imagem ou de um pedaço de texto, são todos pacotes, os pacotes são todos iguais perante a rede. Então como você protege algo, se é que você devia proteger ou não? Será que você vai ter retorno financeiro a partir da reprodução de algo ou a partir da criação de algo. Talvez nós tenhamos que mudar o modelo, quer dizer tentar remendar o modelo em época de internet talvez não tenha mais saída, não se consegue continuar remendando eternamente. Vocês viram as tentativas via Napster, via outros mecanismos de peer to peer, que por mais que se tente remendar, tampar, processar e agir legalmente sempre há uma nova saída e isso permanece e continua. Então talvez o modelo esteja errado. Talvez a economia seja outra daqui pra frente. Isso vai acontecer em telecomunicações, com telefonia via IP. Telefonia via IP não tem como impedir, quer dizer você pode usar a rede para mandar voz em cima, isso também abala modelos econômicos, abala estruturas. Então temos que ter em mente que além das nossas vidas terem sido afetadas por isso, todo um modelo de sociedade, de economia, de convivência, de legislação, de propriedade em suma podem ser afetados, podemos estar em um limiar de realmente uma nova era.

Mundo virtual do Second Life

Quero só fazer uma provocação para a Betty aqui. Eu vejo, por exemplo, o Second Life como uma forma de o cara fazer uma catarse, quer dizer o sujeito que quer se livrar das angústias do dia-a-dia, das tensões, ele tem uma segunda vida lá que é diferente, é mais alegre, é mais feliz, ele faz outras coisas lá, é uma espécie de tratamento virtual, sai de lá feliz, quer dizer é muito melhor do que ficar dando tiro pra cima ou ficar batendo a cabeça na parede. Será que também isso não será afetado? Em vez de você sentar e contar a sua vida pra alguém, você simplesmente se veste de uma outra figura e passeia duas horas no mundo virtual agindo de uma forma que lhe traga mais felicidade.
Esses são os meus comentários iniciais e agradeço a paciência por terem me ouvido.

Eu vou seguir um pouco na linha da Betty. Eu acho que nós não somos bons exemplos, eu também não tenho blog, eu também não uso o Second Life, eu uso bastante correio eletrônico. E eu acho que a gente está é no controle da situação, quer dizer você sabe o que quer que atinja e em que quantidade. Mas isso não é o exemplo padrão. Eu nunca estive no Orkut, você entrou e saiu, eu sei que existe o Orkut, eu sei que o Orkut é um sucesso no Brasil, os brasileiros adotaram o Orkut. Então talvez nós não sejamos bons exemplos, pode ser que a nossa vida seja suficientemente carregada e talvez interessante para não...

Eu acho que isso aqui enriquece extremamente, complementa o entretenimento necessário, o lazer necessário, porque a gente tem uma vida muito maçante. Por exemplo, você trabalhar num ponto de trabalho hoje que permite que você leia seus emails durante o expediente e que quando termina você pode durante alguma brecha fazer alguma fantasia mental entrando em alguma comunidade e discutindo algum assunto que te interessa, isso te alimenta de alguma forma intelectualmente e te relaxa. Quer dizer, o fato de nós não estarmos usando isso, apesar de estarmos falando sobre isso, a gente vê que somos maus exemplos.

Sexo virtual

O meu comentário é politicamente incorreto. Eu acho que essa visão da Betty é uma visão bastante feminina. Que a mulher sempre busca fidelidade intelectual, apesar de que podem dizer o contrário do par, mais do que a fidelidade física. Porque ela sabe que a fidelidade física é algo passageiro. Na verdade o que vale é o envolvimento emocional. Enquanto o sujeito estiver envolvido emocionalmente com ela é um sujeito fiel a ela e forma um par. O homem é um pouco mais rasteiro nesta área. Talvez o homem esteja mais preocupado se ela é fiel do ponto de vista físico do que do ponto de vista mental. Mas isso é um comentário politicamente incorreto.

Eu queria comentar o seguinte. Nós passamos um período muito pobre do ponto de vista lúdico na fase em que a televisão foi um grande instrumento. Se nós pensarmos em antes, a literatura era o local onde as pessoas se expandiam, liam, davam asas a imaginação e de alguma forma se deleitavam, voavam no espaço e tal. Eu lia muito quando era jovem. Depois houve um período de seca, isso virou games, joguinhos, RPG. Muita gente joga RPG, jogos em que você assume personalidades. De alguma forma tem que substituir aquela fantasia que foi removida pela dureza do meio nessa fase dos anos 60, do pós-guerra. Acho que a internet de alguma forma volta a te dar alguma espécie de fantasia. Até esta história dos amigos remotos, você consegue voltar a ter uma atividade de imaginação intensa que você não tinha assistindo televisão. De alguma forma isso é uma volta na manivela. Nós estamos voltando a um esquema em que você valoriza o intelecto, valoriza o pensamento, valoriza a mente, você tem que escrever algo, você tem que pensar. Você não fica sentando comendo pipoca.

Internautas se relacionam mais?

Eu vou dar um exemplo que talvez não seja bem esta a pergunta, mas talvez sirva para dar um outro encaminhamento. No começo da rede a linguagem dominante era o inglês e se dizia que isso ia destruir culturas locais, que iria prejudicar digamos microcomunidades e as pessoas iam ter que se relacionar sempre falando linguagem exótica e iam ter que mudar o jeito de pensar. E de fato era verdade no começo. Uma vez eu estava de noite ouvindo uma rádio pela internet, eu falo grego por causa da família. Eu estava ouvindo uma rádio na Itália e de repente começaram a entrevistar um pessoal que resolveu cantar uma música que me parecia grego, e no caso quando se parece grego para mim normalmente é grego, e se chamava grecânico, e grecânico é um grego falado no sul da Itália e sobreviveu da época da Magna Grécia, portanto 2.000 anos atrás. E o pessoal não tinha aquilo escrito e falavam na comunidade, o avô explica para o neto. Eu estava ouvindo aquilo pelo rádio da internet aí o cara falou: aproveita e compra um CD cantado com música em grecânico. Eu pensei esta comunidade devia ter sumido, é uma espécie de dinossauro no mundo porque a comunicação é oral, a tradição passa de pai para filho e fala-se uma língua praticamente extinta. Pode ser que com a internet, eu que não sabia que eles existem passei a saber que existiam, até comprei um CD. De repente aquilo que não tinha massa crítica, se juntar os pedacinhos você consegue massa crítica e aquele negócio sobrevive. Então isso é uma coisa que você não tinha antes da conexão das comunidades. Então eu acho que o internauta tende a criar comunidades e a comunidade talvez seja o motivo de o Orkut ser um sucesso e outras coisas serem sucesso. E as comunidades têm vários aspectos negativos, mas têm muitos aspectos positivos. Nós não devemos ter medo destas coisas. Eu acho que isso representa algo positivo no sentido do cerne do humano.

Democratização na Internet

Nós estamos longe de ter democracia de acesso. Isso não é culpa da internet, é culpa do mundo real. E o mundo real é um pouco cruel nessa área, quanto menos recursos os indivíduos têm, mais longe eles estão dos recursos fartos e baratos. Quer dizer, o pessoal que acessa discado paga mais caro, tem acesso pior e está em uma região mais distante do que o pessoal que tem cabo e está usando fibra. Esse é um aspecto negativo, mas por outro lado, o aspecto positivo, ao contrário do mundo real, onde para entrar no Clube Harmonia, você tem que ter determinada característica, para entrar na internet você consegue mesmo sendo discado. Quer dizer, mesmo sendo um acesso ruim e não igualmente fácil e agradável para todos, o acesso em si é permitido a todos e aberto a todos. Então você vai só comer uma coxinha e tomar uma água mineral, você não vai ter acesso ao champanhe e ao caviar. Mas de qualquer forma você entrou na festa, você deu uma olhadinha no que está acontecendo lá.

Por que a Internet não entra em colapso?

Essa é uma excelente pergunta. Tem uma característica de engenharia na internet que é o seguinte, a complexidade está jogada nas beiradas. Você tenta manter o centro simples e jogar a complexidade nas pontas. Então tudo o que é pesado e que exige processamento é jogado nas pontas. Isso permite que a rede cresça. E essa é uma regra básica de engenharia no caso da rede. Você mantém o centro leve e livre de trabalhos complicados.

As pontas estão no usuário final, nos provedores, nessa região. O centro são os servidores raiz, a parte de roteamento.

A internet não tem dono. Ela tem uma administração distribuída e leve, por isso que a administração dela não cai. Se você quer derrubar uma central telefônica, você consegue fazendo um monte de chamadas. Mas é muito difícil derrubar a internet. Mesmo no caso de 11 de setembro não caiu. Não houve um caso em que os servidores raiz tenham caído. São 13 e como falei são operados voluntariamente. Tem dez nos Estados Unidos, dois na Europa e um no Japão. Hoje temos bem mais do que isso porque temos espelhos. Temos espelhos no Brasil, o Brasil foi o primeiro espelho no hemisfério sul de um dos servidores. Então existem espelhos dos servidores. Mas basicamente os servidores principais são 13.

Da mesma forma que as estradas, quem cuida das grandes vias, apesar de não ser um ator da internet, ele tem nas mãos um grande poder. Na verdade as grandes companhias de telecomunicação têm nas mãos os canais, isso não tem nada a ver com os servidores raiz nem com a lógica da internet que está por cima. Mas eles têm as vias nas mãos. Se dinamitarem todas as estradas você dificilmente vai conseguir contornar. Mas no caso da Cicarelli, mesmo com a vedação dos grandes troncos você conseguia fazer via proxy o acesso, claro que tem que ter um pouco mais de malícia nesse caso, você podia fazer por outros caminhos que não o caminho default. Seu caminho padrão está bombardeado, se conseguir criar um caminho alternativo você chega lá.

Foi erro do Google ter comprado o You Tube?

Eu acho que o Google representa de alguma forma essa mentalidade de internet. Eu não sei se foi um erro de comprar o Youtube ou não, eles já tinham o Google Vídeos que era da mesma linha. Esses são movimentos no sentido original da internet. Eu imagino que eles devem ter feito as contas no mundo real e visto que valia a pena. Eu não sei se é um fato ou não de ter sido um erro ou não, acho que não é um erro. Mas só para ir nessa linha e provocar um pensamento, a Google agora quer digitalizar todos os livros que forem encontráveis por aí que estiverem livres de proteção e colocar a disposição. Aqueles que estão protegidos e o autor se manifestar eles não fazem isso. Isso leva a uma nova fase de você acessar obras. Nesse sentido eu vejo muito positiva essa potencialização da expressão...O modelo está correndo risco.

Como zelar pela qualidade da informação?

A parte de qualidade e legitimidade da informação é uma coisa muito complicada. Na verdade a internet é algo meio indomável neste sentido, e aí nós temos preocupações reais. Quer dizer, primeiro certamente tem mentira misturada com verdade, tem informações falsas misturadas com verdadeiras, intenções muito ruins disfarçadas de boas intenções, toda essa história de phishing, de fraudes via email etc. Então a internet na verdade é mais uma forma de os maus instintos aflorarem e você estar sujeito a eles tanto no mundo virtual quanto no mundo real. O que a gente tem discutido em alguns fóruns e weekend, que foi comentado, é um dos fóruns, é como a governança desse processo pode se dar. Quer dizer, as nações têm que colaborar, quando você tiver que agir nessa área. E uma coisa importante, que a gente está tentando fazer aqui no Brasil, é preciso tomar cuidado em gerar legislação adequada, não legislação excessiva. E legislação que vise um malfeitor e não a estrutura. Na minha opinião a rede é isenta sempre. O que eles fizeram com o Youtube foi penalizar a rede, o que é uma barbaridade, a rede não tem nada a ver com aquilo. Você não dinamita a via Dutra porque tem contrabando entre São Paulo e Rio. Então é importante que a legislação leve em conta isso. Porque se nós fizermos uma legislação pesada demais ou amarrada tecnologicamente ela vai ficar obsoleta e inviável e vai penalizar os bons. Na hora que precisar mostrar a identidade para entrar na rede estará punindo os bons, porque os maus não têm problema com isso. Entre uma pessoa sem passaporte e uma pessoa com passaporte falso é mais perigoso uma pessoa com passaporte falso. Então em vez de exigir passaporte de todo mundo e ter que conviver com passaporte falso eu prefiro trabalhar sem passaporte. Então isso é uma coisa muito complicada e tem que ser discutida com muito cuidado.

Trabalho de Demi Getschko

O .br foi registrado em 89 e apontado na época para a Fapesp e debaixo do .br fica uma árvore. O .br tem a ver com o Brasil, mas o .br não é o Brasil, tanto que você pode trabalhar no Brasil sem usar o .br. Qualquer domínio é igual perante a rede. Então não há nenhuma obrigação e nem necessidade de você ter o .br, mas é um domínio simpático que carrega a imagem do Brasil, carrega a marca brasileira. Foi criada em 89 e funciona razoavelmente bem. Somos 1,1 milhão de domínios hoje mais ou menos, o Brasil é o oitavo país com maior número de domínios. Na verdade o que eu considero um bom resultado para o .br é que no Brasil 85% dos domínios usam o .br e 15% não. Na maioria dos países a proporção é exatamente o contrário, 10% usam o do país e 90% usam genéricos, porque o país demorou para criar uma estrutura que funcionasse debaixo disso. O .br está sob coordenação do comitê gestor da internet e ele é operado por uma organização sem fins lucrativos chamada NIC.br. NIC é um nome usado internacionalmente para National Information Center e que no Brasil a gente chama de Núcleo de Informação e Coordenação para poder aproveitar em uma sigla. Então o NIC.br opera o .br, registra debaixo do .br e distribui números IP para os brasileiros. Então os números IP que existem por aí para as provedoras, para as telefônicas vêm do estoque que o Brasil tem debaixo do .br. Essas duas estruturas são as que coordenam pedaços da internet, debaixo do .br, e que está majoritariamente no Brasil, mas que não precisaria estar, como acabei de explicar. A minha função nisso é que estive desde o começo envolvido com a delegação do .br para cá e atualmente eu trabalho no NIC.br, que é o registro brasileiro, e a gente tenta manter isso funcionando em ordem.

Pra onde estamos indo

Eu acho isso o grande risco das coisas. A internet está mexendo em estruturas tradicionais, estruturas que têm legislação por trás, que têm modelo econômico e isso certamente vai mudar porque as coisas mudam. Então certamente o que vamos ver em breve vai ser a adaptação das velhas empresas de telefonia, de telecomunicações ao mundo novo ou a sua substituição por alternativas mais abertas. Hoje se consegue fazer telefonia sem ter a estrutura pesadíssima que existia de computadores, de centrais telefônicas que eram necessárias em 1940. Na verdade a tecnologia está trazendo possibilidades novas e o modelo econômico vai ser afetado pelas possibilidades novas. Por exemplo, uma grande emissora de TV que tem público cativo e gera programação para milhões pode ser mimetizada, hoje não ainda com a mesma qualidade e a mesma capacidade, por um investimento mil vezes menor por alguém que queira gerar uma produtora independente. Com a evolução de banda, de recursos, de computador, de poder de computação certamente cada vez mais vai ser fácil gerar seu próprio streaming de informação, seu próprio fluxo de informação, e ser um ator nesse cenário não passivo, mas ativo, sair de objeto para sujeito. E esse é o grande movimento da internet. Todos nós na internet somos sujeitos além de também sermos objetos. E isso não era possível no mundo em que alguém fala e todos escutam. O risco está neste modelo que evidentemente vai afetar interesses, vai afetar economias e vai ter reações como essa contra o Google, do pessoal tentando manter o status quo.

Existem riscos. Qual é o grande risco? O grande risco por exemplo é assim, privacidade se foi. Se você navega na internet, os seus passos podem ser perfeitamente monitorados o tempo todo. Apesar de ser um mundo aparentemente anárquico, os traços digitais que você larga estão sempre presentes lá. Então se está sempre sujeito a um dia sofrer algum tipo de abordagem por alguma coisa que você fez ou deixou de fazer e ficou marcada na rede. Esse é um risco que estamos correndo. Em relação a serviços de tecnologia estamos indo para um mundo melhor. Em breve nós teremos serviços melhores, mais baratos e disponíveis em qualquer lugar. Não estamos mais presos a estruturas pesadas e caras. Porém nós estamos pagando um preço por isso. Cada vez mais somos rastreados dia e noite. Hoje certamente tudo o que se faz na rede é passível de ser monitorado.

A rede é baseada em colaboração, desta forma o direito tem alcance limitado, as leis são facilmente burladas. Na sua opinião como ficará a autoria, posto que não há tutela de direito de autor. Devemos considerar que esta impossibilidade de controle significará o fim de direito de autor sobre a obra? Devemos considerar que este ponto significará uma falta de incentivo a criação?"

É uma boa pergunta. Eu vou aproveitar para dar um exemplo. Quando eu estava na Agência Estado, o Estadão tinha um convênio com o Media Labs lá em Massachussets e a gente foi ver uma palestra do Barlow, que fez essa declaração de independência do ciberespaço. E era uma platéia de jornalistas que estavam preocupados com o roubo de autoria, de informação na internet e como eles podiam proteger os artigos deles. E tinha várias tecnologias, uma equipe tinha desenvolvido uma assinatura que mexia no espaço dos caracteres ou podia colocar uma imagem embutida em outra imagem. Existem várias formas tecnológicas de tentar mapear se aquele dado é seu, se alguém roubou seu conteúdo ou não. E aí como contraponto tinha a palestra do Barlow que falava o seguinte: "Nós estamos com uma mentalidade errada porque esse direito de autor que nós conhecemos tem 150, 200 anos. Se forem para 200 anos atrás, quando Bach compunha uma cantata, ele ganhava do príncipe regional uma quantia para compor, e toda a vez que tocava a cantata em algum lugar ele ficava muito contente com aquilo, não ia cobrar dinheiro, pois sabia que o fato de tocarem a sua cantata ele ia receber uma nova encomenda em breve, o novo tutor dele pagaria uma nova encomenda e ele faria uma nova cantata e ganharia mais dinheiro em cima disso." Porque tudo o que a gente cria depende das reações anteriores, a nossa contribuição naquilo é pequena. E nós não temos mais o meio físico quando você põe etiqueta, na internet não tem a caixinha do CD com o código de barra que você pode colocar um preço naquilo. Então diz o Barlow: "Veja por exemplo a minha pretação, esta pretação que eu faço aqui de meu deve ter 2%, o resto eu roubei de outros autores no passado. Então eu não posso dizer que ela é minha, quando acabei de falar ela pertence a você porque tudo o que eu acabei de falar aqui vocês podem falar em seguida, porque se eu falei pertence ao universo, a humanidade. Agora eu cobrei caro para falar isso, da próxima vez que me chamarem para falar eu vou cobrar o dobro, mas uma vez que eu falei é seu. Isso parece uma solução de rogo romântica e talvez não se adapte a realidade. Mas talvez nós tenhamos que imaginar que os modelos podem ser questionados. Pode ser que o modelo autoral no futuro seja pagar pela criação, o sujeito que escreve bem vai levar um monte para escrever um belo livro, um belo texto, uma bela novela. O fato de eu tirar xerox daquilo e distribuir é simplesmente um estímulo para que ele faça uma nova novela. E elimina da cadeia o intermediário, que é o cara que imprime e distribui. Talvez esse intermediário começa a perder o sentido. Qual é o sentido do gravador de CD que pega a minha música e grava 800 CDs para distribuir no supermercado? Talvez esse modelo não tenha mais sentido. Da mesma forma que o puxador de riquixá não tem mais sentido, ninguém precisa puxar alguém em um carrinho porque já existem formas de locomoção próprias. Às vezes o modelo está ultrapassado e nós não estamos enxergamos isso.

Talvez o editor como selecionador de uma obra não. Mas o impressor, o distribuir, o revendedor, o atravessador sim. O editor tem um trabalho intelectual que é selecionar entre as diversas obras qual será a que será levada à luz.

Rede pode ser usada com finalidades pacifistas

Eu acho que na verdade a visão otimista seria uma grande sociedade unida, sem fronteiras, pacifista, mas provavelmente o que nós teremos em um período mais curto são tribos não ligadas a fronteiras geográficas, mas que compartilham ideais ou objetivos parecidos ou próximos. Então se vê organizações em forma de comunidades que não têm fronteiras geográficas, mas têm objetivos similares, parecidos e se montam rapidamente. Eu vou dar de novo o exemplo o caso do fenômeno Youtube-Cicarelli. Em questão de dois ou três dias se montou uma comunidade pesadíssima defendendo o direito de expressão ou contra a decisão do magistrado, no caso. Sem entrar no mérito se é a favor ou contra, a pressão que surgiu em cima da MTV com o pessoal dizendo que iam boicotar os produtos do patrocinador e que não era para assistir a TV, a pressão gerada por essa comunidade formada da noite para o dia foi um espanto. A gente vê isso todo dia na internet, rapidamente se mobilizam comunidades com o mesmo objetivo e fazem uma força de pressão considerável.

Web como ferramenta de educação

Eu dou aula, eu sou professor da PUC. Eu dou uma aula tradicional, péssima, na lousa, com giz. Mas eu sei que isso está ultrapassado. Não façam o que eu faço, mas pensem no que é dito aí. De fato o que falta e que é importante e que a sala de aula provê é a interação quente entre o aluno e o professor. Isso não é facilmente transportado para o mundo virtual. Mas não quer dizer que não venha a ser. Eu tiro o chapéu para as experiências bem-sucedidas na área e estou tentando acompanhar isso aí. Se há gente pesada testando isso, as coisas mudarão também nesta área. Mas o debate como o nosso, onde estamos todos aqui presentes, é muito mais fácil de seguir, tirar conclusões e discutir, isso de fato é verdade e na sala de aula também. Porém as coisas caminham para o ensino a distância.

É possível controlar a Internet

Controlar a internet é possível se você destruir os meios de comunicação, porque ela anda em cima de canais de comunicação. Fora isso é muito complicado. Se um país resolve colocar barreiras em determinados conteúdos ou a determinados sites sempre há formas de contorno. No fundo nós estamos nas mãos dos cabos submarinos, das fibras óticas que existem, se isso sumir nós teremos dificuldades para nos comunicarmos. Mas se isso se mantiver no local, as chances de alguém especificamente colocar barreiras ou limites ou restrições e ser bem-sucedido nisso é pequena graças a Deus.

Quem manda na Internet no Brasil

Não, a Fapesp não tem mais papel nisso. Na verdade ninguém manda na internet no Brasil. O que existe são estruturas como o .br que devem ser administradas e controladas. Por exemplo, o Youtube foi foco de uma ação judicial no Brasil, mas ele não está no Brasil. O juiz legislou em cima das companhias de telecomunicação para tirar um site americano. Quando a gente pede os dados da Google, do pessoal do Orkut, eles estão em um servidor americano, e o sujeito pode estar usando a partir de um provedor da China. Então não há um controle da internet no Brasil. Há um controle das estruturas que estão à mão. O que está à mão? Distribuição de números de IP porque é uma coisa regional, é como a distribuição de números telefônicos, se você está em um determinado bairro, você tem determinado número, e registros debaixo do br que é uma estrutura delegada ao comitê gestor do Brasil.

É um serviço superavitário, quer dizer o que se recebe com registros paga com folga os custos do registro brasileiro. Tanto que sobra dinheiro para um monte de projetos como o Ponto de Troca de Tráfego, a cartilha contra spam, o projeto de inclusão digital que o CG toca, conteúdos em português. Nós temos uma porção de projetos que o comitê gestor toca com recursos que sobram do registro e não são poucos.

Os cabos são uma atividade lucrativa. Elas fazem o que acham e é uma confusão dos diabos.

Em uma guerra contra o Iraque por exemplo. Você não vai tirar o .iq do ar, porque não vai fazer nenhum estrago com isso. Você vai dinamitar as instalações de telecomunicação, você dinamita as instalações de energia elétrica. Você não vai atrás de interruptores.

As instalações talvez não tão descentralizadas quanto a internet. A internet é descentralizada, por isso que ela não corre o risco. Mas a estrutura onde ela trabalha é uma estrutura do mundo real. Se dinamitar uma central de telecomunicações pode-se ter um problema sério.

E quem quiser ignorar a Internet

Quem ignorá-la tem pouca chance. Mas quem tem chance é aquele que sabe dosá-la. Nós estamos em controle, você sabe o que você quer, até onde você dá informação sua, até onde você entra na rede, até onde você se expõe, até quando você se esconde. Essa maturidade que vai ser conseguida com o tempo é que vai nos dar o uso potencial dela. Acho que ignorá-la seria enfiar a cabeça na areia como o avestruz faz. Não podemos ignorá-la, mas certamente devemos saber dosá-la.

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26/11/2009

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