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13/03/2007 - 17h35
Cronicamente Viável: Para Betty Milan a Internet não significa um homem novo; leia a íntegra
Da Redação
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Reprodução
Betty Milan na primeira edição do Cronicamente Viável
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Em 13 de março, o Centro Cultural Banco do Brasil deu largada a segunda edição do programa "Cronicamente Viável", que este ano tem como tema "A Informação e a Imaginação na Internet".
O debate que abriu o ciclo tratou das características gerais do mundo virtual e teve a participação da psicanalista e escritora Betty Milan e do engenheiro Demi Getschko, especialista em Internet, que participou da primeira transmissão da rede no Brasil.
O debate aconteceu das 19h30 às 21h30 e foi mediado por Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Tas.
Leia abaixo a íntegra da participação da psicanalista Betty Milan
Obrigado pela leitura ótima. Para mim isso aqui é um desafio porque eu não sou um especialista de comunicação. Vocês estão me ouvindo? Não sou psicosocióloga. Então o que eu vou tentar fazer é transmitir para vocês a experiência que eu tive através do bate-papo no UOL e da minha coluna na Folha, Fale com Ela, respondendo a duas questões que me colocaram: A nossa vida mudou com a rede? Na verdade o meu colega de debate já respondeu a isso, mas eu quero abordar a segunda questão que é a seguinte: Podemos falar de uma subjetividade nova, de um homem novo? Que a rede mudou a nossas vidas nós todos sabemos, mudou a nossa relação com o espaço e com o tempo. Virtualmente quem está na China está tão perto de quem está em São Paulo e o tempo da comunicação é aproximadamente o mesmo. As mudanças introduzidas pela rede são tantas que para repertoriá-las seria preciso fazer um estudo psicosociológico aprofundado. Assim eu vou me limitar à segunda questão, a questão da subjetividade.
Existe um homem novo? Existe uma subjetividade nova que foi produzida pela rede?
Para responder esta questão espinhosa eu vou focalizar o amor antes e depois da internet. Por que o amor? Porque o amor é indissociável da vida e da morte. Como disse o poeta espanhol Quevedo: Será cinza, mas uma cinza sensível, serás pó, mas um pó amoroso. A última cena de Notre Dame de Paris de Victor Hugo é uma ilustração perfeita dos versos deste poeta. O Corcunda de Notre Dame e Esmeralda morrem abraçados. Quando encontrados, o esqueleto de um envolve o do outro e quando tocados eles viram pó. A Literatura mostra que o amor foi e é a nossa vocação. Quando a literatura romântica epistolar baseada na carta deixou de existir, surgiu uma outra literatura romântica baseada no email. No passado os amantes trocavam cartas, eles hoje trocam emails. A carta era incerta e a espera dramática, os amantes temiam o extravio do correio e falavam a tão esperada missiva. O amor implicava paciência e a contenção. O sentimento amoroso era vivido de outra maneira, mas será que na sua essência esse sentimento mudou com a internet? La Roche Foucault, escritor francês do século 17, escreveu que para amar é preciso ouvir falar de amor e há vários exemplos disso. Um bom exemplo que vocês todos talvez conheçam é o Cyrano de Bergerac, a peça de teatro que virou filme com Depardieu. Quando o personagem Christian diz para a amada: "Eu te amo, eu te amo", ela responde: "Floreia, floreia meu bem". O que eu quero dizer com isso, com a citação deste exemplo, é que sem o floreado o amor não existe, quem ama quer a jura e o galanteio. O amor portanto surge com as palavras e é porque a palavra se materializa na tela do computador que ele pode surgir na através da internet, ou seja, a palavra é a condição do sentimento amoroso e essa condição não mudou. Ontem e hoje é com ela que o amante arrebata o amado. Gostaria de mencionar um dos emails que eu recebi da coluna Fale com Ela, era uma garota de 17 anos que encontra um rapaz de 21, eles trocam emails e uma semana depois ela fica totalmente desesperada se perguntando, sem saber o que acontece. Ela me escreve dizendo: "Mas a paixão existe por internet?" Então respondi que sim e estou retomando este exemplo sim, a paixão pode existir pela internet porque a paixão pulsa através da palavra. É através da palavra que a gente se apaixona. O amor de Romeu e Julieta é amor à primeira vista, mas não pode ser dissociado do que Romeu disse para Julieta: "Me chama de meu amor e eu estarei rebatizado" ou "Mulher nenhuma é mais bela do que a amada, o sol que tudo vê nada vê que pode a ela se igualar". Tudo isso para dizer resumidamente que o sujeito não muda com a técnica
O que muda com a técnica é a nossa vida
Sem a pílula a liberação sexual não teria existido na revolução dos anos 60, sem a máquina de lavar roupa o século passado não teria sido das mulheres. Agora, a experiência do amor através da net coloca questões novas, uma delas é justamente a questão da fidelidade virtual. Da qual eu tive notícia através de um email que foi retomado no meu romance, desta mulher que era fiel e só não era feliz de medo de perder o ciberlover e cuja única exigência era a fidelidade virtual. O email desta leitora me levou a refletir sobre a diferença entre a satisfação sexual real e a satisfação que a internet propicia.
O amantes que não se tocam
Os ciberlovers não se tocam, um não sabe da pele do outro, do calor da boca ou do perfume do corpo, eles se excitam e se satisfazem sem o prazer da carícia. Questão: por que então há entre eles os que não querem passar do virtual para o real? Esta é uma das grandes questões que a internet coloca. Porque com a internet o gozo se tornou possível sem o risco da contrariedade, ou seja, o ciberlover se vale das palavras do outro para alimentar a própria fantasia e não corre o risco de ser contrariado pela presença alheia. A internet não deu origem, pois ela aumentou a possibilidade da satisfação sexual pelo imaginário. Trata-se evidentemente de uma experiência narcísica e tem as suas limitações, mas nem por isso é menos válido. Tanto o amor quanto o sexo tem na internet um recurso de viabilização e através da internet é possível aprender muito como acabamos de aprender. Assim, por exemplo, a internet ensina que o continente do amor é um continente sem fronteiras, onde a nacionalidade não importa, também ensina que a força da palavra é incomensurável e é preciso considerá-la seriamente, inclusive para saber se as palavras do ciberlover são ou não dignas de confiança. Isso significa que a rede impõe uma educação sentimental nova, ou melhor, torna premente esta educação sentimental que já se impunha na época da revolução sexual. Porque a internet tanto possibilita a liberação sexual quanto pode ser uma armadilha para os incautos. Ela mudou a nossa vida discupabilizando o gozo sexual e propiciando encontros felizes. Ela é uma faca de dois gumes, embora nós possamos nos tornar mais solitários com ela, nós também podemos alargar o nosso campo de possibilidades reais, tudo depende de educação. Porque a internet não forma, ela só informa. Por isso a informatização das escolas é menos importante do que a formação dos alunos, computador nenhum substitui o professor. Não adianta acessar o Google sem critérios de avaliação e para ter critérios é preciso ser formado. Na minha opinião a internet não significa um homem novo, um homem novo depende de uma sensibilidade para si mesmo e para o outro que a aldeia global não garante. Assim como ela favorece as experiências amorosas ela pode estar na origem da violência. Segundo Dominique Wolton, um dos grandes especialistas da comunicação, a aproximação que a internet permite pode estar na origem de grandes conflitos mundiais porque quando as pessoas se aproximam elas se dão conta de que há mais diferenças entre elas do que pontos de semelhança. Nós não fomos educados para aceitar as diferenças e nos enriquecermos com elas. Por isso, eu preconizo nestes tempos de internet uma nova educação sentimental, o trabalho dos escritores, dos jornalistas e dos intelectuais é fundamental para tanto, são os intérpretes deste mundo em que tudo é virtualmente possível, mas nós tendemos para nos cegar para a realidade, salvo quando ela se impõe e nos aterroriza. Paradoxalmente quanto mais protegidos nós vivemos na aldeia global, mais expostos ao mal ficamos na realidade. O homem novo vai se valer da internet para transformar a realidade, desacreditando o ideário da sociedade de consumo e desdizendo time is money porque este homem, se homem novo houver será um pacifista. Obrigada.
O que a velocidade da informação muda no comportamento humano?
Não sei se ela tem um aspecto só positivo. Eu me lembro agora de uma frase que me disseram quando eu estava no Marrocos e era uma frase dita por um oriental que me disse: "Quem tem pressa já morreu". E esta frase me marcou muito. Eu tendo ao achar que essa aceleração não é só positiva, talvez seja preciso por outro lado desacelerar, voltar um pouco para uma outra relação com o tempo que a gente tinha e da qual a gente se esqueceu, que é a relação de quem olha as estrelas.
Como desacelerar nos dias atuais?
Eu não deixo a informação invadir o meu espaço, quer dizer eu recorro a ela quando eu quero tanto o quanto possível. Mas eu sou um caso extremo, eu não tenho celular, se puder não uso carro, eu sou um caso extremo de recusa a essa violência da informação e da velocidade. Por exemplo, houve épocas que eu não podia ler o jornal porque eu tinha que fazer um trabalho, então eu não lia o jornal e não via televisão e reparava que de tudo o que era importante eu tinha notícia porque as pessoas falam.
Amor virtual
Através do imaginário é possível se satisfazer sexualmente, é o equivalente da masturbação, mas é mais rico porque tem o outro, tem o outro falando, tem uma presença virtual. Além disso tem o anonimato, que é muito importante. A experiência do sexo anônimo é uma experiência que só existiu, que eu saiba, nos bordéis libertinos. A internet na verdade é um bordel da modernidade e nesse sentido eu acho que é muito salutar. Mas não deixa de ser uma experiência absolutamente limitada, a experiência do contato real, da presença do outro, da pele, do cheiro, tudo é infinitamente mais rico. E do risco que o encontro implica, na internet não tem, esse risco é minimizado.
Cada história é uma. Não tem uma regra geral. Tem gente que se satisfaz desta maneira. Quer a fidelidade virtual, por exemplo.
Ele pode namorar outra, pode transar na realidade com outra. Ele só não pode transar virtualmente com mais ninguém. Isso inclusive é uma grande surpresa.
Facilidade da Internet para pessoas tímidas
A Internet é um grande recurso de expressão da fantasia, mas este recurso tem um limite do virtual.
A internet é sempre uma faca de dois gumes, por um lado satisfaz e por outro acaba frustrando. Mas ao mesmo tempo ela garante a possibilidade da expressão da fantasia. Isso é uma coisa fantástica. Porque o imaginário é um recurso necessário, é uma via necessária. O sonho libera, é preciso viver a fantasia. Mas por outro lado o imaginário pode se tornar mortífero, a exemplo os atos terroristas. Então é uma faca de dois gumes essa entrega ao imaginário. Porque ela pode ser vital e pode se tornar funesta. Então é com isso que a gente está lidando na modernidade. Eu acho que a gente tem que ser prudente em relação a essa admiração pela internet, prudente, mas não contra.
"A internet tem em sua característica a revolução. Ela se mantém pelo ambiente colaborativo. Fora da internet, o efeito oposto, o isolamento. Na internet as pessoas se encontram e mudam a sua rotina virtual. Por ser um ambiente tão revolucionário por que as pessoas têm tanta dificuldade de transformar a própria vida, de revolucioná-la?
Mas é porque a revolução da internet é virtual, não é real. Na realidade você topa com outro, cujo desejo não é o seu. É infinitamente mais difícil lidar com a realidade do que com o virtual, porque no virtual o desejo do outro só está lá em função do seu.
Podem se tornar (reais). Acontece, isso é ótimo. Os grandes encontros.
Democratização na Internet
Citar só um verso do Maiakovsk antes do Demi Gestchko responder: Para alegria o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro.
Internet pode ajudar os tímidos?
Pode sim. tem que começar experimentando. Cyranor de Bergerac é um caso típico.
Fidelidade na rede
60% dos casais não há fidelidade. Isso na realidade. Mas o que está acontecendo é que tanto a infidelidade real quanto a infidelidade através da internet é que nós vamos ter que repensar esta questão da fidelidade e estabelecer uma diferença entre ser leal e ser fiel. Você pode não ser fiel sexualmente, mas ser leal, contar se o outro quiser saber. É uma questão singular, cada caso é um. Senão você pode ser brutal em nome da verdade.
Internet educa?
Eu já disse que a internet informa, ela não forma. A formação depende da escola, da família, dos programas culturais. Educar-se é uma coisa, informar-se é outra. A educação implica na difusão de valores e a informação não necessariamente. Esse é o grande problema da busca na internet, a falta de critérios para discriminar o que é bom e o que é ruim. Só uma pessoa efetivamente educada e formada pode se informar bem, esse é problema. É isso o que pode se tornar uma ilusão.
Quem tem pressa já morreu, isso virou um grande cemitério
É verdade, em um certo sentido virou um cemitério mesmo. E a gente precisa estancar esse movimento, acho eu. Acho que o futuro depende da relação que vamos estabelecer com o tempo. Porque a relação com o espaço foi liberada, a gente atinge os outros continentes. Agora, a relação com o tempo é aí que podemos ser vítimas da tecnologia, da contemporaneidade. E é nessa área que os pensadores podem intervir.
Pra onde estamos indo
É preciso resistir a rede. A rede em si é ótima, a rede em si abre possibilidades. Mas é preciso cuidar para não ser objeto dela, para ser efetivamente sujeito, porque ser sujeito significa ser autor, mas também significa poder dizer não.
Amor pela Internet
O que eu falei foi que pela internet a satisfação imaginária é garantida. Eu não falei que a relação com o outro real é mais segura necessariamente. Mas satisfação imaginária você tem sempre, é justamente porque o outro não está lá para te dizer: não quero isso, prefiro daquela maneira. Você encontra o outro de tal maneira que este outro satisfaça a sua fantasia. Mas além disso há pessoas que conseguem através da internet estabelecer relações que desembocam em um ponto feliz da realidade. Então as duas possibilidades existem. Por exemplo, esse tipo de satisfação sexual que é possível através da internet era um tipo que existia nos chamados bordéis libertinos, onde as pessoas entravam, o anonimato era garantido, a transa não era obrigatória, transava se quisesse. Então era um espaço de liberdade. A internet tem esta característica de ser um espaço de liberdade. Por isso que ela pode ser uma experiência feliz. Mas ela tem um limite também do virtual. Não é um encontro dos que se amam verdadeiramente, porque quem se ama verdadeiramente gosta do outro como ele é.
Rede pode ser usada com finalidades pacifistas
Além de difundir a violência, a rede pode ser usada com finalidades pacifistas que é o que há de mais importante hoje e talvez ela seja o instrumento mais eficaz para isso.
Ela suprime as fronteiras, as nacionalidades.
Por que não? A rede é um instrumento de enriquecimento. Ela não é exclusiva. A questão depende efetivamente da educação que as pessoas vão ter para a vida social. A rede vai colocar uma série de questões de educação e são essas questões que precisam ser repertoriadas agora. Os educadores, os analistas, os escritores precisam se debruçar sobre ela e considerá-la. A rede torna o consultório sentimental importante hoje, é por isso que ele está ressurgindo. Porque ela coloca uma série de questões que não existiam antigamente. Não se colocavam, ninguém ia perguntar se a paixão pela internet existe. São questões novas que surgem e essas questões precisam ser repertoriadas e respondidas. Porque ao respondê-las a gente passa a ter um saber novo. Quer dizer que a internet convida a sair do espaço fechado, do consultório, do escritório, da sala de aula e refletir sobre a aldeia global. Ela é um desafio nesse sentido.
Esse sexo que implica no anonimato, que implica na realização das fantasias mais extravagantes já existiu, só que era limitado. Ele existiu no século 18 entre os libertinos franceses, mas era limitado a um pequeno grupo de aristocratas. Isto hoje se tornou mundialmente possível, houve uma democratização da libertinagem. Mas isso não significa necessariamente um homem novo, não significa um grande avanço. O maior avanço não passa por aí.
Pode dar uma poesia nova também.
E quem quiser ignorar a Internet
Acho que não tem a menor dúvida de que pode. Porque controlar a internet não é possível, mas é possível se controlar diante dela.
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