Não é fácil ser leigo na Bienal Brasileira de Design Gráfico. Mas é curioso. Muitas das peças expostas - do total de 309, selecionadas a partir de um lote de 2.306 inscritas - são cartazes, rótulos, catálogos promocionais e capas de livros e CDs que circulam discreta ou descaradamente por grandes cidades, e cujos autores e processos criativos são desconhecidos das pessoas.
Neste ano, em sua 8ª edição, a exposição promovida pela Associação de Designers Gráficos do Brasil (ADG) no Memorial da América Latina, em SP, tem como um dos principais objetivos aproximar as produções profissional e acadêmica do público geral. Para isso, a disposição das peças eleitas pelo júri composto por 42 profissionais da área, com nomes como Ricardo Ohtake e Chico Homem de Mello, foi organizada por tendências criativas, e não por categorias (capas de livros, rótulos e catálogos, por exemplo), como nas edições anteriores. Há trabalhos de designers free lancers e de pequenos e grandes escritórios.
"Não é uma exposição curatorial, não há pesquisa, mas sim uma compilação de trabalhos inscritos por associados da ADG", deixa claro André Stolarski, um dos curadores da Bienal. "Mas não é por isso que vamos deixar de pensar em agrupar as peças de forma que facilite o entendimento do visitante comum", explica.
Em termos práticos, a visita é interessante para gente curiosa. Deve agradar quem aprecia capas de livros ou coleciona catálogos de exposições, por exemplo. E até quem fica feliz quando leva pra casa a roupa nova numa sacola bonita. O barato é ter as vistas embaralhadas por centenas de imagens agradáveis e, com paciência para legendas pequeninas e dispostas até o alto da parede, descobrir quem esteve por trás das criações.
Os núcleosSão doze temas que ocupam a parede e a área de circulação do prédio da Galeria Marta Traba. "Investigando o Brasil", por exemplo, reúne a singela caixa do CD "Mestres da Guitarrada", criada por Lu Guedes no Pará com madeira de miriti, imitando uma vitrolinha, e o sedutor relatório de responsabilidade social da Coca-Cola.
"Uma simples razão para visitar a mostra é conhecer trabalhos como esta caixa de CD, que nunca chegará às lojas", argumenta Bruno Porto, outro curador.
"Reinventando o Clássico" também é interessante; reúne dois dos trabalhos premiados pelo júri nesta noite, durante a cerimônia de abertura: o catálogo AMRIK - Presença árabe na América do Sul, sobre a exposição que viaja o mundo desde 2005, e a Revista do Arquivo Público Mineiro, chamados de belíssimos por Porto.
Durante a cerimônia, a mesa lembrou a importância de duas bienais de design estarem em cartaz ao mesmo tempo na cidade, frisando o respeito internacional pela produção brasileira.
Valor agregadoO evento paralelo citado é a I Bienal Brasileira de Design
(leia mais), aberta na segunda (19), na Oca, no Parque do Ibirapuera, em cartaz até 6/8, de terça a domingo, das 10h às 21h. Reunindo mostra e fórum de debates, destaca a atenção ao design como fator indispensável para a competitividade comercial de produtos brasileiros em todo o mundo.
O design gráfico, que se apresenta como criação artística - e, de fato, a é - funciona primordialmente como trabalho publicitário, o que se prova com a homenagem deste ano da Bienal, feita a Ruben Martins, pioneiro da profissão no Brasil. Martins é o pai de logotipos concisos e precisos como o da marca Bozano, mantido até hoje na praça. O designer, morto em 1968, foi citado também na abertura I Bienal Brasileira de Design e a falta de publicações sobre seu trabalho foi lamentada pela mesa curatorial na noite de hoje.
8ª Bienal Brasileira de Design Gráfico» QUANDO - 20/6 a 23/7; terça a domingo, das 9h às 18h
» ONDE - Galeria Marta Traba, no Memorial da América Latina (av. Auro Sores de Moura Andrade, 664, Barra Funda). Entrada pelo portão 4. Informações: (11) 3823-4600.
» QUANTO - entrada franca