 |
30/03/2006 - 19h04
"A Cazzaria" utiliza o escatológico para atingir o político
RODRIGO BARRADAS Editor de Diversão e Arte
A obra de Antonio Vignali não tem a mesma sofisticação vocabular de "Pornólogos", mas sua prosa não é menos refinada em outros aspectos. Nesse livro em que não se poupam palavrões, a delícia está mais no brilho das argumentações e na contundência das provocações do que no conteúdo erótico.
Vignali foi um dos fundadores da Accademia degli Intronati (Academia dos Aturdidos), uma sociedade de jovens letrados dedicada à arte e a discussões. Entre os diversos intelectuais de Siena que a freqüentaram, está Enea Silvio Piccolomini, mais tarde conhecido como papa Pio 2.
Os aturdidos sienenses tinham de adotar apelidos, pelos quais eram conhecidos entre seus pares. Vignali era chamado de Arsiccio (Esturricado), que, em "A Cazzaria", discute com um colega, Sodo (Atarracado, alcunha do estudante de Direito Marccantonio Piccolomini), sobre diversas questões sexuais.
A narrativa segue o estilo dos veneráveis diálogos platônicos, em voga desde a Idade Média, com a influência do pensamento escolástico sobre as humanidades. Como se debatessem o mais acadêmico dos assuntos, Arsiccio e Sodo dedicam-se a elucidar temas como "por que os colhões não entram na boceta nem no cu", "por que se imaginou punhetear o caralho" ou "por que o homem não quer ser visto quando fode".
Para quem considera tais temas indignos de especulação, Arsiccio já começa o livro avisando: "não há coisa tão vil e tão feia que não seja ainda mais vil e mais feio ignorar". O próprio motivo do diálogo é a indignação do aturdido frente à admissão de Sodo, em público, que pouco sabia sobre o sexo.
É claro, porém, que quem lê "A Cazzaria" não fica sabendo um vintém mais sobre sexo do que já sabia. Mas aprende muito sobre a organização social e principalmente sobre os protagonistas da vida política das cidades italianas da época, sobre quem, sob o pretexto de falar de sacanagem, Vignali lança as verdadeiras estocadas.
De quebra, Vignali escreve em prosa fascinante, maltratando e abusando da lógica. Em um parágrafo, é capaz de passar da mais grossa escatologia para as mais sublimes citações (em parte, falsas) de Dante e Petrarca.
Vignali também faz uso de alguns dos mais tortos e vertiginosos silogismos que a retórica pode imaginar, como: "alisar o caralho é uma das primeiras coisas que se aprende em filosofia. E a prova de que isso é verdade, Sodo, aqui está: entre todas as coisas da criação, qual é a mais digna? Se você quiser responder sabiamente, dirá que é o homem, pois sabe bem que tanto as escrituras sagradas quanto as profanas assim o dizem. Agora, atenção: qual é então a parte mais digna da filosofia? É preciso necessariamente que seja aquela que trata das coisas mais dignas, ou seja, tudo que diz respeito ao conhecimento do homem. Ora, como este não pode existir sem o caralho, fica claro que é necessário meter o caralho para ocluir a boceta e o cu, donde se conclui que essas coisas são as primeiras que devemos aprender; em seguida, da conjugação entre a boceta, o caralho e o cu resulta o conhecimento da arte de foder e de enrabar, e assim tem progredido a ciência."
Humanismo delirante e, definitivamente, libertino é isso aí.
Leia também|Lançamentos recuperam sacanagem literário do Renascimento|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4604.jhtm|"Pornólogos" encantam pela riqueza da prosa|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4607.jhtm|Entrevista com o tradutor dos livros|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4606.jhtm
|
|