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30/03/2006 - 19h04
"Pornólogos" encantam pela riqueza da prosa
RODRIGO BARRADAS
editor de Diversão e Arte

"Pornólogos 1" foi escrito por Pietro Aretino (1492-1556), figura proeminente nas cidades italianas do início do século 16, protegido por ilustres Médici, incluindo o papa Clemente 7º. Autodenominado "Flagelo dos Príncipes", Aretino fazia circular escritos mordazes e difamatórios contra notáveis da época, incluindo um testamento falso do papa Leão 10º no qual este legava a genitália de um elefante de estimação a um cardeal. Muitos pagavam pelo seu silêncio, prática que legou a Aretino a invenção do "jornalismo de chantagem", segundo o tradutor José Manoel Bertolote, na apresentação do livro.

São Paulo tem agora a possibilidade de ver de perto o rosto de Aretino: um dos quadros da mostra Luz e Sombra na Pintura Italiana, feito pelo mestre Tiziano Vecellio, mostra o escritor com ar plácido e pensativo, bem diverso do que se pode imaginar pela leitura de sua obra (veja álbum com as imagens da exposição).

Se, na difamação, Aretino demonstrava a mesma maestria que dedicou à escrita dos "Pornólogos", o investimento dos senhores italianos valeu a pena. As artimanhas estilísticas do escritor fazem do livro uma leitura atraente até para quem não se interessa por erotismo.

Embora se contem às dezenas e sejam detalhadamente descritivas as orgias e intercursos do livro, Aretino jamais designa os órgãos sexuais pelo nome. Por esse recurso, uma cena de sexo envolvendo uma freira, um padre e um noviço ganha a graça de ser descrita assim: "Depois de encostar o pincel, previamente umedecido com saliva, no cadinho roxo, torceu-o como se torcem as mulheres nas dores do parto ou numa crise histérica. E, para que o prego ficasse mais firme no buraco, fez um sinal ao veadinho atrás dele, que lhe baixou as ceroulas até os pés e aplicou a seringa no visibilium de Sua Reverendíssima".

Mais um exemplo: "Depois que o bacharel me plantou seu estandarte por duas vezes na cidadela e uma no revelim, perguntou se eu já havia jantado". Ou ainda: "A abadessa soltou o pardal do pai e pegou o tico-tico do filho pelas asas, morta de vontade de esfregar o arco do menino na sua rabeca". E assim se vão 140 páginas de peripécias sexuais em que, moralmente, não se salva ninguém, do sacristão ao advogado, do professor à dona-de-casa.

As histórias do livro são contadas por uma cortesã rica, Nanna, que, com a ajuda uma amiga, de mesma profissão, mas pobre, precisa escolher o destino de sua filha: freira, mulher casada ou cortesã. Não é difícil imaginar a conclusão a que chegam. No segundo "Ragionamento", que a editora pretende editar sob o título "Pornólogos 2", Nanna passa a ensinar a sua filha os conhecimentos indispensáveis à profissão.
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