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30/03/2006 - 19h04
Pornografia visual substituiu a escrita por "iletrismo", diz tradutor de "A Cazzaria"
RODRIGO BARRADAS Editor de Diversão e Arte
A coleção Humanismo Libertário, na qual foram publicados "A Cazzaria" e "Pornólogos 1", tem um mentor. Trata-se do psiquiatra José Manoel Bertolote, 58, coordenador de Transtornos Mentais e Cerebrais do Departamento de Saúde Mental e Toxicomania da OMS (Organização Mundial de Saúde).
De Genebra, Bertolote dedica horas vagas à coleção, tradução e publicação, no Brasil, de obras eróticas, entre elas as da coleção. O médico também foi responsável pela seleção, tradução e apresentação do livro "111 Deflorações Antológicas", composto por narrações de perda da virgindade extraídas de clássicos da literatura.
José Manoel Bertolote conversou com o UOL, por e-mail, sobre os livros "A Cazzaria" e "Pornólogos 1". Leia a entrevista abaixo:
UOL - Na sua opinião, qual foi o impacto da fotografia e da reprodução em massa da pornografia visual e explícita sobre a produção e consumo da pornografia literária? Bertolote - Creio que a pornografia visual veio ocupar o espaço deixado vazio pelo crescente iletrismo das populações. Lê-se (e escreve-se) cada vez menos, sobretudo obras que impliquem algum esforço intelectual. Claro que não me refiro aos nomes constantes das listas de mais vendidos, Crichton. Grisham, Follet, Coelho, que desaparecerão sem deixar sua marca literária. UOL - Quais são as épocas e lugares que se notabilizaram pela produção artística erótica? Bertolote - A Antigüidade (Japão, China, Grécia, Roma, Índia) produziu talvez o que de melhor exista em termos de arte erótica (literária e pictórica). Um segundo período pode ser encontrado no Renascimento italiano, e na França, sobretudo no século 17, voltamos a ter uma arte erótica que pode ser comparada à da Antigüidade. Sade sozinho dá conta de vários países e séculos.
UOL - "A Cazzaria", mais do que uma obra com propósito realmente erótico, parece usar o escandaloso para mirar em outros alvos: a moral, a Igreja. A obra é realmente sobre o cazzo? Bertolote - "A Cazzaria", principalmente aos olhos dos contemporâneos de Vignali, era um obra sobretudo política. Vignali e sua família participaram da sublevação de Siena e acabaram do lado dos perdedores, o que motivou o seu exílio. Creio que, em grande medida, escreveu-a como vingança, tratando de ridicularizar os que o derrotaram. Na introdução, abordo superficialmente essa questão. Não há, como nas obra mais típicas do libertinismo, um ataque direto nem à Igreja, nem à monarquia, pois Siena era uma república, com menos influência da Igreja que os Estados italianos contemporâneos que dependiam mais de Roma. UOL - "Cazzaria" é mais erotismo ou mais escatologia? Bertolote - Depende de quem lê. Na perspectiva histórico-política que mencionei acima, acho uma obra, sobretudo, muito humorística, irônica e divertida. UOL - Arsiccio (personagem-narrador) começa o livro numa diatribe contra a ignorância sexual, dizendo que se cobre de ridículo quem não tem conhecimento sobre o assunto e defendendo que os filósofos deviam se ocupar do estudo dos órgãos sexuais. Isso é uma espécie de intuição da psicanálise freudiana quase quatro séculos antes? Bertolote - Não tenho certeza. É claramente uma crítica aos neoplatônicos, aos filósofos que se dedicavam mais a questões abstratas, ignorando a realidade do dia-a-dia. Nesse sentido, Vignali se aproxima de Galileu, tanto em sua preocupação com as coisas práticas, como em escrever de forma a que o povo entenda (em dialeto sienense e não em latim). Na magistral peça de Brecht sobre Galileu, este diz que se o que escreve não for entendido pelas vendedoras de peixe, não tem muito sentido. UOL - "Cazzaria" é uma diversão mais intelectual ou mais sensual? Bertolote - Claramente intelectual. Era uma obra para ser lida às escondidas, em saraus literários, e não em reuniões de natureza sensual ou erótica. UOL - A Academia dos Aturdidos dedicava-se assumidamente a atividades homossexuais? Sabe-se bastante sobre o estilo de vida deles? Bertolote - A Academia existe até hoje, sem uma preferência sexual declarada. Há que se entender que o homossexualismo, sobretudo o masculino, era entendido de forma totalmente diferente da atual tanto na Antigüidade como no Renascimento. Na Grécia antiga, era legítimo que um cidadão tivesse prazer com um menino ainda imberbe (hoje iriam todos para a cadeia por pedofilia), mas a relação sexual entre dois homens barbados (e a barba era mais ou menos uma marca de respeitabilidade; quase todos os filósofos eram barbudos) era considerada de extremo mau gosto. Um bom educador (pedagogo) deveria ensinar tudo o que soubesse a seus discípulos, e nisso se incluía a iniciação sexual. Quanto aos acadêmicos contemporâneos de Vignali, sabe-se de alguns deles que, se não faziam a apologia do homossexualismo, ao menos toleravam-no com bastante liberalidade. UOL - Aretino (autor dos "Pornólogos") era um poderoso comentarista social, riquíssimo, perseguido e protegido pelo poder. Despertava medo e fúria com seus comentários. Existe um paralelo na imprensa de hoje? Bertolote - Talvez o mais próximo disso, no Brasil, ao menos, sejam os "cronistas sociais". Não leio muito da imprensa brasileira contemporânea, mas "a coluna do Ibrahim" virou até letra de samba. Talvez (o escritor e jornalista norte-americano) Gore Vidal tenha sido uma figura literária próxima de Aretino, em muitos sentidos.
UOL - "Pornólogos" também tem sua dose de anticlericalismo e de crítica social, mas parece dar mais espaço para o prazer do sexo. É realmente mais erótico que a "Cazzaria"? Bertolote - "Pornólogos" é definitivamentente mais sensual e erótico que "A Cazzaria". E, também, declaradamente anticlerical e um feroz crítico da hipocrisia social. UOL - "Qualquer coisa é melhor que um marido", diz a cortesã Nanna (personagem-narradora de "Pornólogos") já no começo da segunda parte. Como essas idéias eram recebidas na época? Bertolote - Nanna não é o que se poderia considerar uma "mainstream". Era claramente uma "marginal", suficientemente rica, poderosa e corajosa (como o próprio Aretino) para dizer o que lhe aprouvesse. Mesmo Antonia (outra personagem) nem sempre está de acordo com ela. Mas o livro teve enorme sucesso, o que pode ser entendido como uma certa forma de aprovação, se não dessa frase em particular, de seu tom geral. UOL - As duas mulheres concluem que o melhor destino para a filha de Nanna é ser prostituta. Que lugar as cortesãs ocupavam na sociedade italiana do século 16? Bertolote - Desde a Grécia e a Roma clássicas, e isso era válido para a Itália do século 16, havia uma distinção entre as prostitutas, em geral pobres, que dependiam disso para comer, e as cortesãs, muito ricas e que, embora comessem "disso", podiam selecionar seus amantes, clientes ou fregueses. As cortesãs, respeitadas as diferenças dos tipos de atividades desenvolvidas, poderiam ser comparadas às grandes "estrelas" do cinema, em termos de fama, riqueza e de possibilidade de aceder aos ricos e poderosos, e de influenciá-los. UOL - Na sua opinião, a literatura erótica italiana é a mais saborosa? Bertolote - Qual queijo é mais saboroso: o parmesão ou o camambert? Pizza ou "french fries"? Em termos de alta literatura erótica, penso que a italiana é mais claramente sensual que a francesa, que é mais intelectualizada. Devo acrescentar ainda que a francesa é muito mais abundante que a italiana.
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