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30/03/2006 - 19h05
Lançamentos recuperam sacanagem literária do Renascimento
RODRIGO BARRADAS
editor de Diversão e Arte

Divulgação

Retrato de Pietro Aretino exposto na Pinacoteca de São Paulo

Retrato de Pietro Aretino exposto na Pinacoteca de São Paulo

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Em qualquer cartilha de escola, aprende-se que o Renascimento representou a redescoberta do homem -um tanto esquecido durante a Idade Média- como alvo de investigação estética, filosófica e científica. Contemporânea da ascensão da burguesia mercantil, essa nova visão do mundo daria impulso a uma revolução estética na pintura, na música e na literatura.

Uma conseqüência lógica da redescoberta dos temas humanos e da libertação das amarras religiosas, porém, parece escapar às apresentações mais corriqueiras da Renascença: o sexo.
E foi prolífica a produção de literatura erótica, pornográfica ou simplesmente desbocada no período. O mercado editorial brasileiro dispõe de alguns títulos, como o
consagrado "Decamerão", de Giovanni Boccaccio, e os "Sonetos Luxuriosos", de Pietro Aretino.

Dois lançamentos passam a enriquecer, agora, a categoria: "Pornólogos 1" ("Ragionamento", no original), também de Pietro Aretino, e "A Cazzaria" ("Cazzaria", que é o coletivo de "cazzo" mesmo, no original), de Antonio Vignali. Ambos integram a coleção Humanismo Libertino, à qual a editora Degustar pretende somar pelo menos outros seis. Embora tenham excessivos erros de revisão, que chegam a distrair o leitor, as edições são bem cuidadas, com esmero na tradução e vasto material iconográfico de época como ilustração.

Pornólogos

"Pornólogos 1" foi escrito por Pietro Aretino (1492-1556), figura proeminente nas cidades italianas do início do século 16, protegido por ilustres Médici, incluindo o papa Clemente 7º. Autodenominado "Flagelo dos Príncipes", Aretino fazia circular escritos mordazes e difamatórios contra notáveis da época, incluindo um testamento falso do papa Leão 10º no qual este legava a genitália de um elefante de estimação a um cardeal. Muitos pagavam pelo seu silêncio, prática que legou a Aretino a invenção do "jornalismo de chantagem", segundo o tradutor José Manoel Bertolote, na apresentação do livro.

São Paulo tem agora a possibilidade de ver de perto o rosto de Aretino: um dos quadros da mostra Luz e Sombra na Pintura Italiana, feito pelo mestre Tiziano Vecellio, mostra o escritor com ar plácido e pensativo, bem diverso do que se pode imaginar pela leitura de sua obra (veja álbum com as imagens da exposição).

Se, na difamação, Aretino demonstrava a mesma maestria que dedicou à escrita dos "Pornólogos", o investimento dos senhores italianos valeu a pena. As artimanhas estilísticas do escritor fazem do livro uma leitura atraente até para quem não se interessa por erotismo.

Embora se contem às dezenas e sejam detalhadamente descritivas as orgias e intercursos do livro, Aretino jamais designa os órgãos sexuais pelo nome. Por esse recurso, uma cena de sexo envolvendo uma freira, um padre e um noviço ganha a graça de ser descrita assim: "Depois de encostar o pincel, previamente umedecido com saliva, no cadinho roxo, torceu-o como se torcem as mulheres nas dores do parto ou numa crise histérica. E, para que o prego ficasse mais firme no buraco, fez um sinal ao veadinho atrás dele, que lhe baixou as ceroulas até os pés e aplicou a seringa no visibilium de Sua Reverendíssima".

Mais um exemplo: "Depois que o bacharel me plantou seu estandarte por duas vezes na cidadela e uma no revelim, perguntou se eu já havia jantado". Ou ainda: "A abadessa soltou o pardal do pai e pegou o tico-tico do filho pelas asas, morta de vontade de esfregar o arco do menino na sua rabeca". E assim se vão 140 páginas de peripécias sexuais em que, moralmente, não se salva ninguém, do sacristão ao advogado, do professor à dona-de-casa.

As histórias do livro são contadas por uma cortesã rica, Nanna, que, com a ajuda uma amiga, de mesma profissão, mas pobre, precisa escolher o destino de sua filha: freira, mulher casada ou cortesã. Não é difícil imaginar a conclusão a que chegam. No segundo "Ragionamento", que a editora pretende editar sob o título "Pornólogos 2", Nanna passa a ensinar a sua filha os conhecimentos indispensáveis à profissão.

A Cazzaria

A obra de Antonio Vignali não tem a mesma sofisticação vocabular de "Pornólogos", mas sua prosa não é menos refinada em outros aspectos. Nesse livro em que não se poupam palavrões, a delícia está mais no brilho das argumentações e na contundência das provocações do que no conteúdo erótico.

Vignali foi um dos fundadores da Accademia degli Intronati (Academia dos Aturdidos), uma sociedade de jovens letrados dedicada à arte e a discussões. Entre os diversos intelectuais de Siena que a freqüentaram, está Enea Silvio Piccolomini, mais tarde conhecido como papa Pio 2.

Os aturdidos sienenses tinham de adotar apelidos, pelos quais eram conhecidos entre seus pares. Vignali era chamado de Arsiccio (Esturricado), que, em "A Cazzaria", discute com um colega, Sodo (Atarracado, alcunha do estudante de Direito Marccantonio Piccolomini), sobre diversas questões sexuais.

A narrativa segue o estilo dos veneráveis diálogos platônicos, em voga desde a Idade Média, com a influência do pensamento escolástico sobre as humanidades. Como se debatessem o mais acadêmico dos assuntos, Arsiccio e Sodo dedicam-se a elucidar temas como "por que os colhões não entram na boceta nem no cu", "por que se imaginou punhetear o caralho" ou "por que o homem não quer ser visto quando fode".

Para quem considera tais temas indignos de especulação, Arsiccio já começa o livro avisando: "não há coisa tão vil e tão feia que não seja ainda mais vil e mais feio ignorar". O próprio motivo do diálogo é a indignação do aturdido frente à admissão de Sodo, em público, que pouco sabia sobre o sexo.

É claro, porém, que quem lê "A Cazzaria" não fica sabendo um vintém mais sobre sexo do que já sabia. Mas aprende muito sobre a organização social e principalmente sobre os protagonistas da vida política das cidades italianas da época, sobre quem, sob o pretexto de falar de sacanagem, Vignali lança as verdadeiras estocadas.

De quebra, Vignali escreve em prosa fascinante, maltratando e abusando da lógica. Em um parágrafo, é capaz de passar da mais grossa escatologia para as mais sublimes citações (em parte, falsas) de Dante e Petrarca.

Vignali também faz uso de alguns dos mais tortos e vertiginosos silogismos que a retórica pode imaginar, como: "alisar o caralho é uma das primeiras coisas que se aprende em filosofia. E a prova de que isso é verdade, Sodo, aqui está: entre todas as coisas da criação, qual é a mais digna? Se você quiser responder sabiamente, dirá que é o homem, pois sabe bem que tanto as escrituras sagradas quanto as profanas assim o dizem. Agora, atenção: qual é então a parte mais digna da filosofia? É preciso necessariamente que seja aquela que trata das coisas mais dignas, ou seja, tudo que diz respeito ao conhecimento do homem. Ora, como este não pode existir sem o caralho, fica claro que é necessário meter o caralho para ocluir a boceta e o cu, donde se conclui que essas coisas são as primeiras que devemos aprender; em seguida, da conjugação entre a boceta, o caralho e o cu resulta o conhecimento da arte de foder e de enrabar, e assim tem progredido a ciência."

Humanismo delirante e, definitivamente, libertino é isso aí.

A Cazzaria
» Editora Degustar
» 100 páginas
» R$ 29

Pornólogos 1
» Editora Degustar
» 141 páginas
» R$ 29
Leia também|"Pornólogos" encantam pela riqueza da prosa|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4607.jhtm|"A Cazzaria" utiliza o escatológico para atingir o político|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4608.jhtm|Entrevista com o tradutor dos livros|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/30/ult100u4606.jhtm

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