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20/01/2006 - 20h33
Lourenço Mutarelli tenta capturar a realidade no álbum "A Caixa de Areia"
AUGUSTO OLIVANI
UOL Diversão e Arte

Reprodução

A Caixa de Areia de Mutarelli materializa memórias e propõe quebra-cabeça

A Caixa de Areia de Mutarelli materializa memórias e propõe quebra-cabeça

O autor e desenhista Lourenço Mutarelli, que das narrativas em quadrinhos passou a atingir o teatro e a literatura, lança novo álbum, "A Caixa de Areia", que tem "Eu era dois em meu quintal" como título alternativo. O título é da Devir Editora, que o representa (144 páginas, R$ 25).

Com o estilo que lhe é peculiar _ tortuoso, atormentado e de sentidos anestesiados, que ressaltam uma faceta lírica e onírica do subconsciente_ Mutarelli desta vez trilha um percurso de autoconhecimento que, com alegorias bem definidas, mergulha em questões existenciais e retorna, ainda com fôlego, para contar novas histórias.

Em "A Caixa de Areia" há um mistério que o próprio Mutarelli (que é personagem principal da história, assim como sua família) deve resolver: brinquedos velhos, peças sentimentais que salvaram a vida de Lourenço na infância, perdidos há 40 anos, passam a se materializar na caixa de areia do gato da família, Nanquim.

No desenvolver dos capítulos, a elucidação do mistério é intercalada com outra encenação, que aparentemente não se relaciona com o mote principal _a dos "dois no quintal" de Mutarelli. Em meio a um deserto que só cresce, um Fiat Uno é o cenário para diálogos sobre o vazio travados entre os personagens Carlton, o gordo falastrão, e Kleiton, o magro reclamão.

Mutarelli manifesta, na recriação de sua própria cruzada, o desejo de compreender a realidade e de aprisionar um período de sua existência (e aqui há referência clara à obra "Mundo como Vontade e Representação", do filósofo Arthur Schoppenhauer) e reflete sobre questões como o tempo ("é como se o só existisse quando tentamos medi-lo"), a paz ("reside no inanimado"), a realidade ("é o que está fora de mim") e o indivíduo ("é uma ilusão").

Enquanto isso, presos em e entre si, Carlton e Kleiton passam a limpo seus conflitos: "Nós combinamos que, quando um de nós se sente ofendido... ele deve repetir a ofensa até que ela se anule... se anule pelo desgaste".

Com o desenrolar das duas histórias paralelas, cheias de reviravoltas sutis, em que os momentos de revelação são dados nas mais ínfimas das coisas, há um momento definidor de amarração. A narrativa não-linear, auto-referencial, repleta de divagações filosóficas (Mutarelli chega a lançar mão de um dicionário de filosofia), mostra-se cíclica e, além de criar o elo dentro de si mesmo, estende-o em direção ao leitor, já que Mutarelli convida-o a adentrar suas memórias mais ternas.

Entre sonhos e reflexos (os espelhos, assim como o tempo das ampulhetas, são feitos de areia), Mutarelli exorciza seus demônios e revela os meandros do processo criativo. "A Caixa de Areia" parece ter sido confeccionada para sobreviver à passagem do tempo, uma vez que foi concebida a partir do coração do deserto que anda.

O único porém fica por conta da apresentação do álbum: concebido como uma espécie de diário (pelo menos no formato, 14x21cm, que lembra um pequeno caderno), a estampa da capa, que remete a ladrilhos hidráulicos, parece pouco marcante, e as páginas que marcam a passagem de um capítulo para outro denotam uma certa tosquidão _com as peça do quebra-cabeça de Mutarelli, mesmo que sejam as originais, transpostas com certa falta de capricho. Mesmo assim, é praticamente insignificante diante do teor das páginas.

LOURENÇO MUTARELLI - "A CAIXA DE AREIA
(OU EU ERA DOIS EM MEU QUINTAL)"

» Devir Editora
» R$ 25
» 144 páginas

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