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04/01/2005 - 22h13
Will Eisner, o "Dom Quixote" das histórias em quadrinhos

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 Capa original do álbum "O Último Cavaleiro Andante" |
PEDRO CIRNE Editor-Assistente de Últimas Notícias
No início dos anos 40, quando concedia uma entrevista ao "Baltimore Sun", Will Eisner (1917-2005) afirmou que as histórias em quadrinhos deveriam ser vistas como uma legítima forma de arte. As pessoas ao seu redor riram como se o criador do super-herói Spirit tivesse contado uma piada.
Vinte anos depois, em um encontro da National Cartoonists' Society (sociedade de cartunistas norte-americanos), Eisner conversava com o caricaturista Rube Goldberg quando comentou que enxergava um grande potencial nos quadrinhos enquanto forma de arte. Bravo, Goldberg bateu sua bengala no chão e gritou com Eisner: "Isso é bobagem, menino! Nós não somos artistas. (...) E você nunca se esqueça disso!"
Eisner nunca se esqueceu desses dois eventos. Na verdade, ele lutava contra o preconceito. Afinal, não era claro para ele por que na Europa os quadrinhos (ou a arte seqüencial, como ele preferia) eram vistos como uma forma de arte, diferentemente do que ocorria nos Estados Unidos - onde "intelectuais" torciam o nariz para esta "subforma de arte" voltada para crianças e imigrantes.
A valorização na Europa era (e é) tal que suas HQs eram tratadas como livros, para serem guardadas nas estantes -assim como são as HQs européias publicadas no Brasil, como Asterix, Tintin, Lucky Luke.
Já nos Estados Unidos, Donald, Mickey e companhia estavam mais próximos de revistas, não de livros. Você comprava e lia uma, duas vezes. Alguns até podiam colecioná-las, mas a maioria as comprava para momentos passageiros de diversão -e depois jogava fora. A maioria das HQs norte-americanas que chegou aqui no Brasil veio com esta "marca" de descartabilidade. Tio Patinhas, Superman, Hulk... não importava o que era. Se era em quadrinhos, era para criança, e, depois de lido, deveria ser jogado fora.
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 Capa original do álbum "Um Contrato com Deus" |
Dom Quixote Era esse preconceito e essa subvalorização que Eisner combatia. Se em alguns livros teóricos Eisner já foi citado como "o Orson Welles dos quadrinhos" pela qualidade de sua obra, em outros ele foi comparado ao Dom Quixote da arte seqüencial, pela luta pelo reconhecimento da HQ como arte. E o Cavaleiro da Triste Figura jamais atingiu um moinho com tanta força como Eisner o fez quando conseguiu, em 1978, publicar o livro "A Contract with God" (no Brasil, "Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço", editora Brasiliense).
A publicação foi um marco nas HQs norte-americanas. Sem super-heróis, sem caricaturas, sem charges, criou um gênero: a "graphic novel" - no Brasil, álbum de luxo ou "graphic novel" mesmo. Eisner estava mostrando que, sim, era possível utilizar textos e imagens para narrar uma história boa e que, além disso, a história poderia ser guardada em uma estante sem causar vergonha ao proprietário.
Uma cultura de décadas não se muda apenas com o lançamento de um único livro. Mas foi depois de "A Contract with God" abrir caminho que apareceram obras como "Batman: O Cavaleiro da Trevas" e "Watchmen", escritas, respectivamente, por Frank Miller e Alan Moore, fãs assumidos de Eisner.
Miller recentemente escreveu um livro com Eisner, "Eisner/Miller". E, em uma de suas raras entrevistas, Moore foi questionado sobre que desenhista ele gostaria que ilustrasse uma história sua. A resposta: "Will Eisner, mas ele definitivamente não precisa dos meus argumentos."
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 Capa original do álbum "O Edifício" |
Reconhecimento O que Will Eisner conseguiu após décadas de luta? Reconhecimento, acima de tudo. Tanto que em abril de 2003 discursou na biblioteca do Congresso Americano. Falou sobre a forma de arte que sempre defendeu, sobre o reconhecimento que ela estava começando a alcançar e sobre quanto isso era importante para os artistas vindouros.
Tal reconhecimento ficou restrito aos Estados Unidos. Um dia depois de Eisner discursar no Congresso, o governo paulista fechou o Museu de Artes Gráficas do Brasil (MAG), que havia sido inaugurado quatro meses antes.
Entre os motivos apresentados para o fechamento do museu estavam frases como "o museu não tem interesse para o público, só para um grupo pequeno de desenhistas" e "o museu não tem estofo artístico e cultural", entre outros preconceitos.
O projeto do MAG viria a ser retomado após muitos protestos de fãs e profissionais, mas a atitude mostra o quanto os conceitos brasileiros sobre arte ainda precisam ser revistos e o quanto seria importante termos o nosso "Dom Quixote" lutando pelo reconhecimento da arte - ter o nosso "Will Eisner" é impossível. Ele é único.
ps - para saber mais sobre Will Eisner, leia as HQs "O Edifício", "Um Sinal do Espaço", "Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço", "No Coração da Tempestade" e "O Último Cavaleiro Andante" (a adaptação de Eisner para um de seus livros prediletos, "Dom Quixote"), todas já editadas no Brasil, assim como o teórico "Quadrinhos e Arte Seqüencial". As histórias narradas nos dois primeiros parágrafos deste texto estão em "Reinventing Comics", de Scott McCloud (sem tradução para o português).
Leia também: Morre aos 87 anos o desenhista Will Eisner
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