É o pique!

Como a barbearia ajudou Jerry Smith a mudar sua rota e virar referência no funk depois de "Bumbum Granada"

Renata Nogueira Do UOL, em São Paulo Carine Wallauer/UOL

A voz grave mais cobiçada nas parcerias da atual música popular brasileira poderia estar hoje em outra profissão da moda. Não fosse uma barbearia, talvez Rodrigo Silva dos Santos, ou só Jerry Smith, ainda estivesse em Diadema batalhando para fazer o que ama: funk.

Vaidoso e sobrinho de barbeiro, o cantor viu na profissão uma saída para juntar os R$ 200 que precisava para emplacar uma música na plataforma que colocaria o som dele e do parceiro Zaac nos bailes. Foram seis meses de curso e mais dois meses trabalhando em um salão como aprendiz até "Bumbum Granada" estourar. 

O que poderia ser apenas mais um hit de verão foi só o começo para a dupla, que se desmanchou estrategicamente meses depois prevendo a pressão por um novo hit que superasse os 50 milhões de visualizações em apenas um mês (hoje são 415 milhões) e o topo das paradas no streaming, como foi com o "taca, taca".

Passados quase três anos, Jerry Smith hoje espalha o bordão "é o pique" não só no universo do funk, mas em diversos ritmos com suas parcerias. A gíria emprestada do funk carioca dá o tom para energia inesgotável que fez do funkeiro de SP o quinto artista masculino brasileiro com o maior número de ouvintes mensais no Spotify em 2018, à frente de nomes como Wesley Safadão e Luan Santana.

Carine Wallauer/UOL
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Barbeiro funkeiro

Fiquei dois meses trabalhando e 'Bumbum Granada' estourou. Mas foi o tempo suficiente. A gente precisava colocar a música em um canal do SoundCloud que era muito forte na época, o Detona Funk. E era R$ 150, R$ 200. Pensa na dificuldade pra arrumar isso aí? O Zaac desempregado, a pessoa que ajudava a gente também desempregada. Eu era o único empregado, mas como aprendiz de barbeiro tirava no máximo uns R$ 150 por mês. Fiquei ali trabalhando e foi a grana que eu consegui juntar para colocarem a música no canal. A partir dali deu um gás. Era um meio que a galera da rua gostava de baixar e colocar nos bailes funk.

A evolução de Jerry Smith

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A nova era do funk

"Bumbum Granada" não só mudou a vida de Jerry, como ajudou a levar o ritmo para as rádios mais tarde. "O público ainda tinha muito preconceito naquela época (2016). Mesmo assim, tomou uma proporção tão grande que crianças, avós, pais de família escutavam. Foi uma música que juntou o público e tomou conta do Brasil inteiro. Fazia tempo que um funk não fazia isso", relembra Jerry.

Ainda que destacasse o derriere feminino, tendência no funk mantida até hoje, a música furou a barreira onde paravam os proibidões. "Tinha rolado um fenômeno parecido um pouco antes com 'Baile de Favela', do MC João. Mas a música dele tinha um palavrão que limitava. A nossa, além de não ter palavrão, veio com uma parada mais rápida, uma batida pesada que mudou o cenário."

A pressão por um outro hit, no entanto, fez com que a dupla se separasse no auge. "A separação foi necessária. Na época do Zaac & Jerry, tudo o que a gente lançava o público se lembrava da música e comparava. E já tínhamos esse projeto de cada um seguir sua carreira, seus objetivos. Se a gente não se separasse, talvez não rolasse outra música de sucesso", acredita.

Anos depois, ele revela que a separação foi pensada durante meses. Quando o anúncio chegou para o público, os dois funkeiros que mantém a amizade até hoje já tinham músicas prontas para a nova fase em carreira solo.

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Jogador

O interesse pelo funk só veio depois de uma decepção com o futebol. Jerry chegou a jogar no São Caetano na adolescência e foi sondado pelo Palmeiras. Mas uma lesão o afastou de vez do esporte.

"Parei com 16, 17 anos. Joguei até o Paulista pelo São Caetano. Lembro até hoje um dos últimos jogos que eu fiz. Joguei contra o Palmeiras, os caras gostaram de mim porque meti umas caixas, dei trabalho pro zagueiro deles. Aí me chamaram pra fazer um teste lá", relembra ele, sete anos depois.

"Só que uma semana depois machuquei a coxa e fiquei dois meses parado. Quando voltei, o técnico que tinha gostado de mim já tinha até saído do time. Acabou morrendo aí o lance de ir pro Palmeiras. Foi quando parei e comecei a pensar no que eu ia fazer da minha vida."

Antes de ir para a barbearia, ele ainda trabalhou como ajudante geral na empresa do padrastro, onde começou a se interessar por funk. "Eu estava mal nessa época, e acreditava que podia melhorar. Sabia que ia encontrar alguma saída."

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Sobrancelha: marca registrada

No meio do funk já existia a sobrancelha falhada, inclusive o Bin Laden [do hit "Tá Tranquilo, Tá Favorável"] já usava. Na comunidade isso era comum, e como eu vim da comunidade, só segui. Acabei estourando com 'Bumbum Granada' e a galera viu e curtiu. Aí virou meio que uma marca minha. Hoje já deu uma avançada no estilo da minha sobrancelha. Mas não fui eu que lancei essa parada.

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Do funknejo a Gonzagão

Passada a fase "Bumbum Granada", Jerry Smith começou a aparecer sozinho e em novas parcerias, até inevitavelmente se juntar aos sertanejos. Com "Mulherão da Porra", Munhoz e Mariano foram os primeiros.

Os contatos que rolaram depois da música com a dupla o levaram até Goiânia. E, enquanto trabalhava em outros projetos, conheceu o cantor Rob Nunes. A música "Como É Que Faz" mostrou outro registro de voz do funkeiro, chamando atenção de mais sertanejos. Gravada na mesma época, "Não Fala Não Pra Mim", com Humberto e Ronaldo, é a mais bem-sucedida parceria do tipo, com 276 milhões de visualizações só no YouTube e lugar garantido no top 10 entre as mais tocadas do Brasil no Spotify e os principais artistas do Brasil no YouTube.

Jerry ainda cantou com os pagodeiros do Pixote em "Agora C Quer" e com MC Loma e As Gêmeas Lacração, grupo sensação do Carnaval passado, em "Não Se Apaixona". Ao se juntar com Márcia Fellipe em "Quem Me Dera" chegou ao top 10 dos vídeos de música mais vistos no YouTube do Brasil (mais de 150 milhões de views) e quarto lugar no top 50 do Spotify.

Influenciado por suas raízes nordestinas (ele nasceu na Bahia) e por canções de Luiz Gonzaga que não saíam de sua cabeça, o cantor seguiu no ritmo na música solo "Vou Falar Pra Tu", que traz elementos do baião na música e no clipe. Sozinho, bateu mais 35 milhões de visualizações no clipe em dois meses.

Ele agora se prepara para lançar uma parceria com Wesley Safadão, a música "Quem Tem o Dom". "Por isso que amo funk. Porque sempre dá pra fazer muita coisa, dá pra inovar, misturar os ritmos."

Não que isso signifique abandonar o funk. "Estou cada vez mais estudando. Quero ainda descobrir muita coisa, porque a área da música é muito ampla. Tenho muito a explorar e sempre estou aprendendo. Toda galera que você se tromba é um aprendizado", diz Jerry, que vê no trap - o novo funk - um caminho para suas futuras parcerias.

"Tenho muita vontade de gravar trap, tenho uns projetos de fazer umas coisas diferentes com funk. Gosto de fazer mistura, sou doido. Coloco minha voz, mas curto o ritmo, a batida. Essa é minha vibe, eu gosto de flow, de fazer a galera se envolver."

Funk é o que eu gosto de fazer. É a música mais conhecida do Brasil atualmente e até fora. É o ritmo que tem mais chance de se internacionalizar. Já aconteceu com músicas como 'Bum Bum Tam Tam'. O movimento está crescendo e cada vez mais as pessoas de fora estão se interessando. Não é à toa que estão vindo vários produtores e artistas pesquisar e entender como é que funciona o funk brasileiro.

Carine Wallauer/UOL Carine Wallauer/UOL
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