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Pandemia já custou mais de R$ 483 milhões ao mercado brasileiro de shows

Luan Santana em show de aniversário no Thermas Water Park - Agnews
Luan Santana em show de aniversário no Thermas Water Park Imagem: Agnews

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

03/04/2020 15h46

A pandemia no coronavírus já causou prejuízo superior a R$ 483 milhões no setor da música no Brasil, afetando mais de 8.000 eventos e um público estimado de 8 milhões de pessoas. Divulgados em primeira mão pelo UOL, os dados foram levantados pelo núcleo de pesquisa Data Sim, que ouviu via internet 536 agentes culturais, incluindo empresas e microempreendedores individuais (MEI), entre os dias 17 e 23 março.

No entanto, o estrago real da Covid-19 no setor, que vem sofrendo com perdas de incentivos e patrocínios do governo Bolsonaro, tende a ser muito maior. Considerando apenas apresentações ao vivo promovidas por microempreendedores individuais, o núcleo estima prejuízo de R$ 3 bilhões, com impacto em aproximadamente 1 milhão de profissionais.

Os mais afetados pelo apagão de shows são fornecedores (30%), freelancers (22,6%), prestadores de serviço terceirizados (18,1%) e colaboradores PJ (15,3%), a maioria do estado de São Paulo (45,5%), que é seguido por Rio de Janeiro (11,7%) e Minas Gerais (9,7%). Os microempreendedores individuais correspondem a mais da metade (53,2%) das empresas pesquisadas pela Data Sim.

Maiara e Maraisa (Foto: Reprodução/ Divulgação/ Instagram) - A dupla Maiara & Maraisa - A dupla Maiara & Maraisa
Divulgação
Imagem: A dupla Maiara & Maraisa

Para os realizadores da pesquisa, os números corroboram o estado de vulnerabilidade do setor em um momento de uma "crise aguda", que é maximizada pela informalidade. Apenas 23% dos agentes culturais ouvidos estão ligados a alguma associação de classe, como a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), a BM&A (Brasil Música e Artes) e a sindicatos de músicos.

Países têm anunciado medidas de recuperação através de entidades nacionais representativas dos diversos setores do ecossistema da música. No Brasil, a falta de uma entidade de âmbito nacional que dialogue com todos os segmentos produtivos, somada à fragilidade institucional das instâncias governamentais, tem impedido que ações sistêmicas e efetivas sejam encaminhadas com a urgência necessária

Daniela Ribas, diretora de pesquisa da Data Sim

Vocalista Matthew Bellamy durante show do Muse no Rock in Rio - Eduardo Anizelli/Folhapress - Eduardo Anizelli/Folhapress
Vocalista Matthew Bellamy durante show do Muse no Rock in Rio 2019
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

Para muitos artistas e produtores, a alternativa ao cancelamento (que ocorreu em 77,4% dos casos) e adiamento de apresentações (em 81,2%) por tempo indeterminado tem sido o aumento das transmissões de apresentações na internet. Mas essa ainda é uma onda problemática em termos financeiros. "A monetização desses conteúdos é crucial e ainda é um ponto crítico desse ecossistema."

Duas saídas possíveis para o momento de crise: um engajamento maior do público nesse tipo de transmissão e novas iniciativas de fomento direto e indireto promovidas pelo poder público e pela iniciativa privada. "A música é uma cadeia produtiva que merece ser tratada da mesma forma", afirma Daniela Ribas, que destaca o papel importante desempenhado pela comunidade musical na contenção do vírus, já que o isolamento tende a reconfigurar o consumo da música.

Só o tempo poderá dizer se tais mudanças serão duradouras e significativas para o mercado da música, e como exatamente elas influenciarão na reestruturação do setor. Certamente os grandes players do ecossistema (gravadoras, editoras, plataformas digitais) deverão lidar com tais mudanças para que possam estar atuaizados em relação às tendências do consumidor