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Em meio à Cracolândia, Mel Lisboa desvenda São Paulo dos anos 30 em musical

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/12/2015 07h00

Trabalhadores circulam na mesma calçada em que viciados em crack utilizam a droga. Neste meio, na região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo, fica o charmoso teatro Sede Luz do Faroeste, no número 301 da rua do Triunfo, de frente ao largo General Osório, na Luz. É neste espaço que Mel Lisboa se encontra acolhida para fazer um teatro que lhe renova, como conta a atriz gaúcha de 33 anos ao UOL.

Mel é uma das estrelas do musical "Luz Negra", com a Cia. Pessoal do Faroeste e dramaturgia e direção de Paulo Faria. A temporada vai até o próximo dia 15 de dezembro, às segundas e terças, às 21h, mas será retomada em 18 de janeiro de 2016 para seguir até o fim de abril. Todas as sessões têm entrada "pague quanto puder" --a produção fornece um envelope para que o espectador possa colocar, sem constrangimentos, a quantia que desejar.

"Luz Negra" é ambientado na São Paulo dos anos 1930, quando negros intelectuais criaram a FNB (Frente Negra Brasileira), partido político que buscava um melhor espaço na sociedade brasileira para a população afrodescendente, e que foi destituído com o estabelecimento da ditadura do Estado Novo por Getúlio Vargas em 1937.

A peça mistura fatos reais com ficção. Mel interpreta a atriz loira Vanda Marquetti, que visita a rádio na qual artistas negros fazem um programa que mistura política e entretenimento. Logo, sua personagem entra em tensão com a estrela negra Flora Eunice, cantora e advogada bem-sucedida fictícia defendida por Thais Dias, atriz do grupo Coletivo Negro convidada especialmente para a peça.

"O Pessoal do Faroeste faz peças com fatos que passaram despercebidos na história oficial. Isso é muito rico: contar histórias que não são contadas", defende Mel. "Eu, por exemplo, antes do processo de ensaios, não sabia da existência da Frente Negra Brasileira. É importante falar disso. Tanto tempo depois, pouca coisa mudou". Para ela, o fato de ser musical traz o público para dentro da história. "Tocamos no assunto, na ferida, mas as músicas também trazem uma leveza, uma coisa gostosa de se ver".

Sem patrocínio, mas com outro público

O diretor Paulo Faria conta que, mesmo com a atriz famosa na companhia, patrocinadores não apareceram. "Mel está aqui como artista. Mesmo com ela aqui não tivemos patrocinador e já tínhamos o Fomento ao Teatro antes de ela entrar. Mas Mel trouxe um outro tipo de público para ver nossas peças", diz ele, lembrando que muitas pessoas "de classe média" passaram a frequentar o espaço depois de noticiada a presença da atriz no Pessoal do Faroeste. "Isso é bom. Temos de humanizar essa classe média. É necessário que ela venha e participe. A Mel abriu esse diálogo".

Mel faz questão de conciliar outros trabalhos com sua permanência no grupo, fazendo teatro durante as noites na Cracolândia. "Aqui, cresço como artista, como pessoa, como ser humano. Não tem como você não ficar mais sensível, mais humano, estando aqui".

Depois que deixou de ter contrato com a Record neste ano --ela chegou a fazer uma rápida participação em "Os Dez Mandamentos"--, Mel foi cada vez mais abraçada pelo teatro. Além de "Luz Negra", ela está em cartaz com outras duas peças: o clássico "Otelo", de William Shakespeare, no Teatro Faap às quartas e quintas, e no musical "Rita Lee Mora ao Lado", que viaja pelo Brasil.

Tantas atividades a faz avaliar 2015 como "um ano bom, de muito trabalho". Sobre a televisão, na qual foi lançada em "Presença de Anita", minissérie de 2001 de Manoel Carlos, se resume a dizer: "Eu volto, um dia", lembrando que os projetos de teatro nos quais está inserida "costumam ter vida longa".