Editora faz vaquinha e arrecada US$ 150 mil em 4 dias para lançar HQs

Diego Assis
Do UOL, em São Paulo

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    Lançamentos de Daniel Clowes, Jim Woodring, Daniel Clowes, Jaime Hernandez, Charles Schulz, Tony Millionaire e outros previstos para lançamento entre abril e agosto de 2014 pela Fantagraphics

    Lançamentos de Daniel Clowes, Jim Woodring, Daniel Clowes, Jaime Hernandez, Charles Schulz, Tony Millionaire e outros previstos para lançamento entre abril e agosto de 2014 pela Fantagraphics

Principal editora independente de quadrinhos nos Estados Unidos, a Fantagraphics Books surpreendeu o mercado no início deste mês ao apelar diretamente ao bolso dos leitores para garantir a publicação de seus 39 lançamentos previstos para 2014. Precisava de US$ 150 mil em caixa, caso contrário, álbuns de artistas premiados e cultuados como Dan Clowes, Joe Sacco e Charles Schulz, para citar apenas alguns, ficariam sem ver a luz do dia, no melhor dos cenários. No pior, falência e fechamento da companhia, fundada em 1976 e responsável por divulgar nomes como os de Robert Crumb e os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez.

"Não conseguir publicar os livros de toda uma temporada pode muito bem levar a isso", afirmou ao UOL Eric Reynolds, um dos sócios da editora, que tem sede em Seattle, no estado de Washington. "Não tenho como dizer que isso realmente aconteceria, mas certamente não queríamos descobrir e não teríamos recorrido ao financiamento coletivo se não sentíssemos que a situação era realmente séria."

Para alívio da empresa, o objetivo foi atingido, em tempo recorde e bem acima das expectativas. Bastaram quatro dias em destaque no site de crowdfunding Kickstarter para que os US$ 150 mil necessários para "imprimir, publicar, promover e distribuir" os 39 livros do catálogo fossem alcançados.

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    Pôster reproduz a capa da edição nº 31 da revista "Love and Rockets", desenhada por Jaime Hernandez. Todo o lote de 43 gravuras foi vendido a US$ 75 cada uma no Kickstarter

Nesta sexta-feira (29), faltando apenas seis dias para encerrar o projeto, a vaquinha virtual já estava bem perto dos US$ 200 mil, pagos por um grupo de mais de 2.700 fãs de quadrinhos dispostos a ajudar a Fantagraphics a se manter viva em troca de álbuns autografados, pôsteres limitados, retratos exclusivos, cursos e até uma espécie de "Black Friday" de HQs, que leva o leitor em uma corrida de 5 min pela sede da editora com acesso a todos os livros do estoque no esquema "leve o quanto puder carregar" (Custo da brincadeira: US$ 2.000).

"Eu esperava atingir a meta, mas não tão rápido como atingimos. Nos sentimos bastante honrados e reconfortados com esse apoio", diz Reynolds, que também "se vendeu", oferecendo dez avaliações de portfólio por Skype para aspirantes a quadrinistas. Todas já vendidas, por US$ 30 cada uma.

Tempos sombrios
O aperto financeiro da Fantagraphics tem ligação direta com a morte de Kim Thompson, co-fundador da companhia ao lado de Gary Groth. Thompson, que era responsável por selecionar e editar a linha de quadrinhos europeus da editora, foi diagnosticado com câncer de pulmão em fevereiro deste ano e morreu apenas quatro meses depois. Os US$ 150 mil pedidos na vaquinha, explica Reynolds, eram o valor necessário para cobrir o prejuízo provocado pelo cancelamento ou adiamento por tempo indeterminado de 13 lançamentos europeus que vinham sendo cuidados por Thompson até a descoberta repentina da doença. "Foi um ano difícil para nós como um todo", lamenta.

Reconhecida não só por publicar o trabalho de artistas menos comerciais, mas por fazê-lo em edições caprichadas, com cores, tamanhos e materiais diferenciados, a Fantagraphics vem driblando dificuldades financeiras há mais de uma década. No início dos anos 2000, a editora também precisou recorrer aos fãs para cobrir um rombo de cerca de US$ 80 mil depois de levar um cano de um distribuidor que faliu e deixou dívidas para trás.

Em tempos de ameaça ao formato físico dos livros, a editora decidiu lançar-se apenas muito recentemente no mercado de livros e HQs digitais. Está presente em um dos principais aplicativos de leitura em tablets e celulares, o Comixology, mas ainda de forma tímida, com apenas alguns de seus autores e títulos.

"Eu não temo pelo futuro do [livro] impresso. Mas eu também não temo mais o digital. É só mais um braço para publicação, nesse momento. Aprendi a abraçá-lo como uma alternativa ao impresso. É ainda um mercado muito menor, mas acho que ambos podem vir a se complementar no final das contas", conclui Reynolds, que garante não ver trevas, mas luz no fim do túnel. "Penso que o campo [dos quadrinhos] está mais saudável do que nunca em termos criativos, ainda que o mercado esteja sempre em evolução e nós tenhamos de nos adaptar aos novos desafios o tempo todo."

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