Novo estilo de romance erótico é marcado mais pela descrição do que pela qualidade narrativa

Marta Barbosa
Colaboração para o UOL

Um novo modelo de erotismo está na moda nas livrarias. Sem a riqueza literária de um Sade, e com uma dose do romantismo meloso da clássica coleção Sabrina (Nova Cultural), estes textos ganham leitores na velocidade de uma pastelaria. Quem abriu caminho no Brasil e nos Estados Unidos foi "Cinquenta Tons de Cinza" (tradução de Adalgisa Campos da Silva, editora Intríseca). Com uma capa de "livro de família" e uma narrativa que se julga moderna, a autora E. L. James fez um público nem um pouco habituado ao consumo da pornografia ler libertinagem, com detalhadas descrições de sexo. Lá fora, andaram chamando esse modelo narrativo de "erotismo para mamães".

E. L. James abriu um caminho em tanto, não apenas por trazer de volta às estantes dos mais vendidos essas histórias de amor e sexo que sempre tiveram seus leitores, mas também por apresentar um texto fraco, com analogias toscas. Isso multiplicado em 480 páginas, difícil não cansar. Com 200 páginas a menos, "Toda Sua" (tradução Alexandre Boide, editora Paralela, divisão da Companhia das Letras) é vendido no Brasil com o seguinte destaque na contra capa: "Mais bem escrito que Cinquenta Tons de Cinza".

Gideo me beijava como se estivesse desesperado para sentir meu gosto, e minha resistência começou a ceder. O cheiro dele era tão bom, tão familiar. Seu corpo se encaixava tão bem no meu. Meus mamilos me traíram, ficaram duros e pontudos, e uma onda lenta e morna de excitação começou a se espalhar pelo meu ventre. Meu coração reverberava dentro do peito.

"Toda Sua", de Sylvia Day

E é verdade. Sylvia Day já publica best sellers há algumas temporadas, embora sempre usando pseudônimos. Está acostumada às tramas intricadas: foi tradutora do russo para o serviço de inteligência dos Estados Unidos. Ainda assim, Sylvia repete os clichês de forma sintomática. As coincidências do enredo com "Cinquenta Tons de Cinza" são vexaminosas. Os personagens Ana e Christian Grey parecem da mesma família de Eva Tramell e Gideo Cross. Elas, as atrapalhadas e submissas. Eles, poderosos e estranhos. As duas caem "de bunda no chão" quando conhecem seus heróis, por exemplo.

O que salva é que Sylvia realmente redige melhor que E. L. James, e há passagens bem escritas, e uma evocação ao sexo que põe em choque a ordem civilizada das coisas. Em um dos trechos menos censuráveis, a protagonista narra sua falta de controle diante de seu algoz. "Gideo me beijava como se estivesse desesperado para sentir meu gosto, e minha resistência começou a ceder. O cheiro dele era tão bom, tão familiar. Seu corpo se encaixava tão bem no meu. Meus mamilos me traíram, ficaram duros e pontudos, e uma onda lenta e morna de excitação começou a se espalhar pelo meu ventre. Meu coração reverberava dentro do peito."

Fechando a tríade cinza das prateleiras (os três têm projeto gráfico que valoriza o cinza metálico na capa, e imagens de vestuário), a editora Record corre atrás do estrago com o relançamento de "Falsa Submissão", de Laura Reese (1996, tradução de Claudia Costa Guimarães). O livro é um suspense com erotismo. Nora Tibbs, uma jornalista de uma pequena cidade da Califórnia, se envolve com toda sorte de experiência com sadomasoquismo na tentativa de decifrar a misteriosa e violenta morte da sua irmã Franny. Na tentativa de chegar ao assassino, a protagonista cruza com M., o homem misterioso que a faz conhecer os prazeres na dor. Nora, tomada pelo inusitado, fica dividida entre o amor com afeto do namorado Ian e M..

Além de "Cinquenta Tons de Cinza"

Toda Sua
Autora: Sylvia Day
Tradução: Alexandre Boide
Editora Paralela
280 páginas
R$ 30
Falsa Submissão
Autora: Laura Reese
Tradução: Claudia Costa Guimarães
Editora Record
464 páginas
R$ 39,90
Silêncio – Hush Hush
Autora: Becca Fitzpatrick
Tradução: Débora Isidoro
Editora Intríseca
304 páginas
R$ 29,90
12 Shades of Surrender
Mills & Boon
Apenas venda digital

Mesmo caminho
As livrarias de São Paulo ainda não têm uma seção para romance erótico, espremidos entre lançamentos de ficção e sexualidade, mas os leitores do gênero não ficarão órfãos tão cedo. "Cinquenta Tons Mais Escuros" sai esse mês e "Cinquenta Tons de Liberdade", em novembro. Além disso, "Toda Sua" é a primeira parte de uma trilogia ("Profundamente Sua" será lançado em breve pela Paralela), e ainda há outros tantos livros que romantizam o sexo disponíveis.

"Silêncio – Hush Hush", de Becca Fitzpatrick (tradução de Débora Isidoro, Intríseca), tem na capa uma linda mulher levada nos braços de um musculoso homem com asas. É o terceiro volume de uma série de suspense (os primeiros são "Sussurro" e "Crescendo") em que um anjo caído do céu se relaciona com uma humana, Nora. Com menos sexo e mais suspense, e "Silêncio" parece ser o melhor da trilogia. Neste, a protagonista perde a memória, e se apaixona mais uma vez por Patch, um misterioso desconhecido.

A outra notícia vem da Mills & Boon, editora original da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza", que lançou a série de novelas digitais "12 Shades of Surrender" (ainda sem edição em português). São 12 narrativas curtas, com conteúdo explícito e enredos saídos de vidas cotidianas. Em "Taking her Boss", de Alegra Verde, Bruce Davies flagra a funcionária Glory James fazendo sexo com um cliente no escritório e, em vez de repreendê-la, admite que também a quer possuir.

Esses lançamentos estabelecem de uma vez por todas a nova face de negócios da Mills & Boon, mais conhecida pelos romances do que pelos eróticos. O diretor de digital da companhia, Tim Cooper, admitiu em recente entrevista ao Guardian que "o erótico tem se tornado mais popular e aceitável". A estratégia consiste em lançar livros menos descarados, inclusive na capa, e tirar proveito da liberdade da mulher moderna em ler o que bem entender. E assim nasce mais uma indústria focada no mais do mesmo.

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