'Samba da paz' une polícia e moradores de favela carioca


RIO DE JANEIRO, 11 Fev 2012 (AFP) -Um pegajoso "samba da paz", criado por um policial músico da favela carioca do Tuiuti, uniu, em desfile de rua, civis e militares, após décadas de hostilidade mútua nesta comunidade marcada pelo domínio do tráfico até sua 'pacificação', oito meses atrás.

Indiferentes ao calor abafado, mais de 250 moradores e policiais militares que ocupam a favela do Tuiuti, cantaram e dançaram juntos nas ladeiras de um morro da zona norte do Rio, no primeiro 'bloco' a percorrer em 13 anos as ruas desta comunidade com 22.000 pessoas.

"A intenção do 'samba da paz' é mostrar a aceitação da polícia por parte da comunidade. O povo do Tuiuti e o da Mangueira, que é vizinho, respiram sangue e a música agradou", explicou à AFP o soldado da polícia militar (PM) Igor Gomes, de 23 anos, autor da música e da letra.

"É Carnaval no Tuiuti/vem sambar, se divertir/este clima é muito legal/com inclusão cultural, segurança social", cantava Gomes do alto de um trio que percorre as ruelas do morro, acompanhado por seu cavaquinho, enquanto dezenas de adultos e crianças o seguem, dançando e cantando a letra.

"Hoje estou vestido de civil, o que queremos é nos divertir, somos todos cidadãos", disse Gomes, que também dá aulas de 'cavaquinho' e de canto a várias crianças da favela, como parte dos programas sociais que a chamada unidade de polícia pacificadora (UPP) da PM oferece em coordenação com a Associação de Moradores de Tuiuti.

Outra PM, Monica Rodrigues, de 30 anos e longos cabelos pretos, trocou o uniforme por um short jeans minúsculo e uma camiseta de lantejoulas para encarnar a "rainha da bateria". Ela samba sem parar à frente de uma quinzena de percussionistas e só interrompe para tirar fotos com os admiradores.

Seus colegas suam debaixo dos pesados coletes à prova de balas, enquanto sobem e descem as ruas do morro, fazendo o policiamento. Uma menina se aproxima para oferecer um refresco, que aceitam, satisfeitos.

O PM Rodrigo Souza, de 30 anos, afirma que a greve de policiais e bombeiros, decretada na sexta-feira no Rio, "teve pouca adesão". "Hoje todo mundo veio trabalhar aqui", contou, enquanto tirava a boina preta para secar o suor da testa.

Nem sempre as relações entre comunidade e policiais foram tão amistosas: no dia seguinte à instalação da UPP, em novembro, homens que tentavam fugir do Tuiuti em um carro roubado, atacaram a tiros os policiais e duas pessoas ficaram feridas.

"O bloco transforma a imagem da polícia. Muitos pensavam antes que a polícia não tinha nada o que fazer aqui. Mas agora, alguns moradores começam a se mostrar favoráveis à UPP. Há mais segurança, não se veem mais homens portando armas pelas ruas, quando antes exibiam fuzis e metralhadoras", conta Marcial Rodrigues Lopes, de 43 anos, que trabalha como entregador com sua moto.

Um menino - alheio à festa - solta pipa na parte mais alta do morro, em uma pequena praça que tem um pequeno Cristo Redentor e de onde se tem vista panorâmica do Rio.

Outras crianças correm e dançam em meio a músicos, policiais, foliões e curiosos, que saem de suas casas para ver o espetáculo, e se refrescam, entre risos, sob uma ducha instalada em plena rua.

Após a chegada da polícia à favela, "as crianças podem brincar na rua, passear, correr por aqui, as pessoas podem ficar até tarde na rua sem medo", comemora Edir Dias, empregada doméstica de 64 anos.

"Na hora da festa, da alegria, todo mundo é igual. O samba une as pessoas", afirmou o policial Rodrigo Souza.

Mais de 1,5 milhão de pessoas moram em 1.000 favelas no Rio, perto de um terço da população. Em 2008, o governo iniciou uma campanha para pacificar várias destas comunidades controladas por narcotraficantes e milícias paramilitares, começando a mudar a imagem da cidade, antes da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

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