A literatura engajada sofre. Por um lado, sofre com as situações que denuncia; por outro, se vê limitada às suas denúncias. Fugir ao sentimentalismo ou demagogia parece uma boa solução, o que não resolve a questão do estilo, frequentemente esmagado sob o peso de uma mensagem ou tese.
Alguns autores, como o franco-afegão Atiq Rahimi, presença confirmada na Flip, conseguem um meio termo, não completamente satisfatório, mas com momentos de grande literatura, engajada ou não.
Já no livro de estreia, "Terra e Cinzas" (2002), texto entre o conto e a novela, revelava sensibilidade ao recriar, em frases despojadas, a aridez quase apocalíptica do Afeganistão arrasado pela guerra, e a resistência estóica de seus personagens (um velho e seu neto) ao Absurdo, como se estivessem numa peça de Beckett, mas na forma de um conto persa antigo.
"Syngué Sabour", traduzido por Flávia Nascimento, é sua terceira experiência literária (ele também é documentarista e diretor cinematográfico). A história se passa inteiramente num quarto, onde uma mulher conversa com o marido em coma depois de levar um tiro na nuca. O ritmo de suas palavras e da própria narrativa é ditado pela respiração do combatente estirado na cama. O efeito é claustrofóbico.
Os dias passam tragados pela poeira, perturbados por um ou outro acontecimento banal. Sem saber o que esperar, a mulher tenta se equilibrar entre momentos de agitação e resignação. O equilíbrio é, evidentemente, frágil. A qualquer instante parece que vai ser tomada permanentemente pela loucura.
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"Terra e Cinzas" (2002), texto entre o conto e a novela, revelava sensibilidade ao recriar, em frases despojadas, a aridez quase apocalíptica do Afeganistão arrasado pela guerra
Sua rotina consiste em pingar colírio nos olhos do marido e manter cheia uma bolsa de soro, que pinga com regularidade enervante. Aos poucos, ela vai revelando a história íntima do casal, em parte na tentativa de despertar o marido, em parte como forma de libertação. Como muitas na região, é uma história de pouco amor, insatisfação sexual e violência machista.
Dedicado a uma poeta afegã que foi barbaramente assassinada pelo marido, o livro força algumas passagens, ameaçando atropelar o estilo com a ambulância da mensagem, sempre bem intencionada, raramente sutil. Mas do meio em diante, ganha força e acaba conquistando o leitor mais cético.
É quando a mulher se lembra da lenda da pedra-de-paciência (a syngué sabour do título), que lhe foi contada pelo sogro. Trata-se de uma pedra à qual se pode confidenciar todas as faltas (pecados?) e tristezas, até que ela exploda e purifique quem a possua.
Pensando nisso, a mulher faz do pétreo marido sua syngué sabour, seu próprio confessionário mágico, e aumenta a voltagem de suas revelações, fantasiando a redenção de ambos. No fim das contas, é a redenção também do livro, um potente libelo contra a violência sofrida pelas mulheres afegãs, mas também uma bela peça de literatura.
"Syngué Sabour" ganhou o prêmio Goncourt no ano passado - principal prêmio literário francês. No Brasil foi publicado também seu "As Mil Casas do Sonho e do Terror". Conta a história de cinco personagens em meio à violência do Afeganistão de 1980. Como em seus dois outros livros, Rahimi parte de antigas lendas persas para compor a trama, num jogo poético entre tradição e modernidade.