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18/05/2009 - 18h34

Com franqueza e bom humor, Gay Talese revela seus fracassos como jornalista e escritor

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
  • AFP

    Autor de "O Reino e o Poder", "A Mulher do Próximo" e "Fama e Anonimato", o jornalista norte-americano Gay Talese é um dos principais representantes do "novo jornalismo"

Parafraseando a famosa abertura de "Ana Karenina" de Tolstoi, pode-se dizer que os sucessos são todos iguais; já os fracassos são diferentes, cada qual à sua maneira. Talvez Gay Talese, o escritor mais elegante do chamado "novo jornalismo" e presença confirmada na próxima Flip, tivesse algo parecido em mente quando começou a rascunhar seu "Vida de Escritor", agora lançado no Brasil.

Pois o livro nada mais é do que a narração - franca, bem-humorada - de seus fracassos como escritor e jornalista. Pautas e idéias que nunca puderam ser desenvolvidas e publicadas, por vários motivos, encontraram lugar nessa curiosa autobiografia. Os grandes êxitos de Talese, como "Fama e Anonimato", com o antológico perfil de Frank Sinatra, "O Reino e o Poder", biografia afiada do "New York Times" e "A Mulher do Próximo", estudo original sobre a sexualidade americana (todos com edições em português), são mencionados apenas de passagem.

"(...) eu achava que com tantos livros de sucesso no mercado, e sobre como ficar rico, e como vencer, seria interessante ler algo sobre pessoas que talvez tenham desenvolvido um talento singular para a derrota." Com essa premissa, Talese, filho de um metódico alfaiate italiano, chegou a gastar anos em torno de temas que se revelavam, ao final, infrutíferos - ao menos do ponto de vista de seus editores (como a objetiva e prática Tina Brown, da revista "New Yorker", que recusou seus pedidos de escrever sobre o caso de Lorena Bobbit, aquela que cortou o pênis do marido num acesso de fúria e o jogou no mato) .

Foi assim com a jogadora de futebol chinesa Liu Ying, que se tornou uma obsessão desde que o escritor a vira casualmente na TV, ao perder um pênalti decisivo contra o time dos EUA, na final da Copa do Mundo. O autor, esse "bisbilhoteiro profissional", como se autodenomina, paga do próprio bolso a passagem para a China no intuito de tentar entender o que se passava na cabeça da infeliz futebolista.

Foi assim também com o terreno na rua 63, em Manhattan, por onde passaram vários restaurantes de má sina. Dizia-se até que o antigo edifício estava amaldiçoado. Talese, entusiasta de uma boa refeição fora de casa, antecedida por um dry Martini, não se dava por vencido e acompanhava as desventuras de garçons, chefs, gerentes e proprietários, com olhar ao mesmo tempo clínico e compassivo. Queria, com o material que anotava em pequenos blocos, fazer um livro nos moldes de "Na Pior em Paris e Londres" (Companhia das Letras), em que George Orwell conta de seus bicos atendendo em salões de jantar e cozinhas. Como o escritor inglês, gostava da ideia de inserir-se na história, ser também um personagem, e assim fazer o seu "Decameron dos fracassados".

  • DIVULGAÇÃO

    Em "Vida de Escritor", o jornalista norte-americano Gay Talese narra alguns dos fracassos mais curiosos de sua carreira

Por isso, entre outras coisas, costumava discordar das orientações do "New York Times", onde foi repórter por dez anos. Estilista nato, "acreditava que a redação de notícias podia ao mesmo tempo ser literária e fiel do ponto de vista factual." Como Norman Mailer, Tom Wolfe e Hunter S. Thompson, os díspares paladinos do "novo jornalismo" (rótulo "saco de gatos"), preferiu revistas como a "Esquire", onde tinha mais liberdade. E depois os livros, onde podia ser capitão, marujo e timoneiro ao mesmo tempo.

"Vida de Escritor" talvez seja seu projeto mais ambicioso, pois, como bem diz Mario Sergio Conti no posfacio, "não tem nada de natural ou automático". Sua construção é requintada: o livro é "labiríntico, autoquestionador, fragmentado", mas principalmente arbitrário, no sentido de ser profundamente autoral.

É curioso, por exemplo, como mistura às histórias de pautas que deram com os burros n'água, as lembranças de quando fazia o jornalzinho da escola, de sua passagem pela segregacionista universidade do Alabama e da correria de seus tempos de repórter. Talese também registra vividamente as coberturas que fez sobre as marchas de militantes do movimento negro, comandados por Martin Luther King, nos anos 60. E de como tentou, dessa vez sem sucesso, fazer uma grande reportagem sobre um casamento inter-racial na região.

Num dado momento, refere-se a seu trabalho com carinhosa ironia: "(...) durante os quarenta anos de minha carreira como escritor-pesquisador eu investi pesadamente na perda de tempo". Mas está claro que não considera realmente perda de tempo o exercício contínuo que fazia (faz!) de sua curiosidade eternamente insatisfeita e de seu alto poder de observação. Ainda assim, houve quem, nos EUA, considerasse o livro, ele mesmo, um fracasso. Ah se todos os fracassos fossem assim...




"VIDA DE ESCRITOR"
Autor: Gay Talese
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Preço sugerido: R$ 59,00
Editora Companhia das Letras
512 páginas

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