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27/03/2009 - 06h00

Uma Manaus no centro do mundo permeia as histórias do livro de contos de Milton Hatoum

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL
Divulgação
O autor Milton Hatoum coloca Manaus como ponto central de histórias contadas no livro "A Cidade Ilhada"
LEIA "VARANDAS DA EVA", DO LIVRO "A CIDADE ILHADA"
Há uma velha discussão no meio literário sobre a legitimidade da denominação regionalista para descrever os textos de certo grupo de escritores. O amazonense Milton Hatoum demonstrou ter essa preocupação quando lançou "A Cidade Ilhada" (Companhia das Letras), livro com 14 contos com um ponto comum: uma Manaus de sua cabeça. De fato, é limitado demais dizer que se trata de uma obra de caráter regionalista. Há uma organização espacial bem definida, é verdade, mas os conflitos acentuados no enredo são amplos, universais.

Dos contos apenas seis são inéditos em português. A maior parte foi publicada em jornais, alguns foram apresentados em congressos de literatura, outros saíram em antologias anteriores. A reunião deles nesse livro é uma prova da versatilidade do autor, cujo universo literário permite ao leitor viajar de Paris a Berkeley sem se distanciar do clima úmido e sufocante de uma Manaus que parece o centro do universo.

Em "Varandas da Eva", as diferenças sociais de um grupo de amigos parecem pequenas quando todos não passam de meninos que descobrem a vida. O tempo passa e as memórias de uma juventude de aventuras livres são atropeladas pela separação (inevitável?) entre pobres e não pobres e por uma atormentadora coincidência. Hatoum faz uma leitura nostálgica do passado neste texto. Chora a passagem do tempo, capaz de dissipar "os gozos sem fim", dando espaço para que a aspereza de cada ato da vida surja "como um cacto, ou planta sem perfume".

Na outra ponta da vida, a velhice e os desejos vencidos estão lindamente apresentados em "Dois Poetas da Província". O texto aborda o encontro de Albano e Zéfiro, dois poetas, um ex-aluno do outro, ambos apaixonados por Paris. Albano se prepara para embarcar para França. Zéfiro, um poeta que nunca publicou um livro, vive em Manaus o sonho europeu, e se orgulha em desprezar o governo militar com a mesma altivez em que ignora "a cachaça, o sol da tarde e a floresta". Albano, o ex-aluno, é também uma espécie de alter ego do professor, se não por sua postura diante da poesia, certamente por sua postura diante da vida.

O olhar estrangeiro em Manaus permeia praticamente todo livro, como deve mesmo ser para quem cresce na fronteira entre o país urbanizado e a floresta, entre a modernidade e o selvagem. O estrangeiro de "A Cidade Ilhada" é atento, curioso, desconfiado com tudo que cerca o mundo real.

Em "Uma Estrangeira da Nossa Rua", a família Doherty mantém-se distante do entorno. Pai, mãe e duas lindas filhas estão isolados do país pelo muro da casa, numa discrição excessiva que os afasta das relações mais casuais. É nesse ambiente de distanciamento que o narrador percebe a presença de Lyris, a jovem sedutora porque o garoto sente "alguma coisa terrível e ansiosa parecida com a paixão". Outro olhar estrangeiro, dessa vez de um brasileiro em Berkeley, está em "Uma Carta de Bancroft". Aqui, o narrador descreve seu espanto ao encontrar uma carta fictícia de Euclides da Cunha numa biblioteca americana. No manuscrito, o escritor descreve um sonho e uma cena premonitória. Mais uma vez, Manaus aparece emaranhada. O narrador diz que a cidade o persegue, mesmo quando não é solicitada, "como se a realidade da outra América se intrometesse na espiral do devaneio para dizer que só vim a Brancoft para ler uma carta amazônica do autor d`Os sertões".

Três Jabutis
Arquiteto de formação, com passagem pela Universidade da Califórnia (assim como seu personagem), Milton Hatoum figura entre os autores brasileiros de maior prestígio. Estreou na literatura com o excelente "Relato de um Certo Oriente", livro que lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1989. Em 2000, seu segundo romance, "Dois Irmãos", também foi considerado o livro do ano e ganhou o Jabuti, além de ter sido traduzido para oito idiomas. O autor ainda tem mais um Jabuti na estante, dessa vez por "Cinzas do Norte", de 2005.



"A Cidade Ilhada"
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
125 páginas

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