Há uma velha discussão no meio literário sobre a legitimidade da denominação regionalista para descrever os textos de certo grupo de escritores. O amazonense Milton Hatoum demonstrou ter essa preocupação quando lançou "A Cidade Ilhada" (Companhia das Letras), livro com 14 contos com um ponto comum: uma Manaus de sua cabeça. De fato, é limitado demais dizer que se trata de uma obra de caráter regionalista. Há uma organização espacial bem definida, é verdade, mas os conflitos acentuados no enredo são amplos, universais.
Dos contos apenas seis são inéditos em português. A maior parte foi publicada em jornais, alguns foram apresentados em congressos de literatura, outros saíram em antologias anteriores. A reunião deles nesse livro é uma prova da versatilidade do autor, cujo universo literário permite ao leitor viajar de Paris a Berkeley sem se distanciar do clima úmido e sufocante de uma Manaus que parece o centro do universo.
Em "Varandas da Eva", as diferenças sociais de um grupo de amigos parecem pequenas quando todos não passam de meninos que descobrem a vida. O tempo passa e as memórias de uma juventude de aventuras livres são atropeladas pela separação (inevitável?) entre pobres e não pobres e por uma atormentadora coincidência. Hatoum faz uma leitura nostálgica do passado neste texto. Chora a passagem do tempo, capaz de dissipar "os gozos sem fim", dando espaço para que a aspereza de cada ato da vida surja "como um cacto, ou planta sem perfume".
Na outra ponta da vida, a velhice e os desejos vencidos estão lindamente apresentados em "Dois Poetas da Província". O texto aborda o encontro de Albano e Zéfiro, dois poetas, um ex-aluno do outro, ambos apaixonados por Paris. Albano se prepara para embarcar para França. Zéfiro, um poeta que nunca publicou um livro, vive em Manaus o sonho europeu, e se orgulha em desprezar o governo militar com a mesma altivez em que ignora "a cachaça, o sol da tarde e a floresta". Albano, o ex-aluno, é também uma espécie de alter ego do professor, se não por sua postura diante da poesia, certamente por sua postura diante da vida.
O olhar estrangeiro em Manaus permeia praticamente todo livro, como deve mesmo ser para quem cresce na fronteira entre o país urbanizado e a floresta, entre a modernidade e o selvagem. O estrangeiro de "A Cidade Ilhada" é atento, curioso, desconfiado com tudo que cerca o mundo real.
Em "Uma Estrangeira da Nossa Rua", a família Doherty mantém-se distante do entorno. Pai, mãe e duas lindas filhas estão isolados do país pelo muro da casa, numa discrição excessiva que os afasta das relações mais casuais. É nesse ambiente de distanciamento que o narrador percebe a presença de Lyris, a jovem sedutora porque o garoto sente "alguma coisa terrível e ansiosa parecida com a paixão". Outro olhar estrangeiro, dessa vez de um brasileiro em Berkeley, está em "Uma Carta de Bancroft". Aqui, o narrador descreve seu espanto ao encontrar uma carta fictícia de Euclides da Cunha numa biblioteca americana. No manuscrito, o escritor descreve um sonho e uma cena premonitória. Mais uma vez, Manaus aparece emaranhada. O narrador diz que a cidade o persegue, mesmo quando não é solicitada, "como se a realidade da outra América se intrometesse na espiral do devaneio para dizer que só vim a Brancoft para ler uma carta amazônica do autor d`Os sertões".
Três JabutisArquiteto de formação, com passagem pela Universidade da Califórnia (assim como seu personagem), Milton Hatoum figura entre os autores brasileiros de maior prestígio. Estreou na literatura com o excelente "Relato de um Certo Oriente", livro que lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1989. Em 2000, seu segundo romance, "Dois Irmãos", também foi considerado o livro do ano e ganhou o Jabuti, além de ter sido traduzido para oito idiomas. O autor ainda tem mais um Jabuti na estante, dessa vez por "Cinzas do Norte", de 2005.
"A Cidade Ilhada"Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
125 páginas