Paraty busca um turista "melhor" em vez de mais turistasDa enviada especial a Paraty*Em 2007, Paraty deixou Búzios para trás e passou a ser a segunda cidade mais visitada no Estado do Rio de Janeiro. Dalva Lacerda, secretária de Turismo e Cultura, conta que as políticas adotadas pela cidade não buscam aumentar o número de turistas, mas sim aumentar o nível desse turista. "A gente não quer uma superpopulação em Paraty. Não cabe, estraga a cidade e ela tem que ser preservada."
Segundo o consultor internacional Joseph Chias, da Chias Marketing, contratada para traçar o Plano de Desenvolvimento do Turismo Cultural de Paraty, a cidade recebeu 352 mil turistas nacionais e 48 mil internacionais em 2006. Em 2010, o objetivo é receber 336 mil nacionais e 64 mil internacionais. Com isso, o número anual continuaria em 400 mil, sem nenhum aumento. Pretende-se, porém, que esse turista passe a gastar mais e a ficar mais tempo na cidade
Transformar a cidade de Paraty em um foco de turismo cultural (
saiba mais), além do turismo natural e ecológico, que já é bem forte por ali, faz parte do Projeto Destinos Indutores do Desenvolvimento Turístico Regional, do Ministério do Turismo. Funciona assim: o turismo do país foi dividido em segmentos (estudos e intercâmbio; rural; negócios e eventos; sol e praia; de pesca; áudiovisual; turismo de aventura especial; ecoturismo; de aventura) e foram determinadas 65 cidades para receber investimentos para atrair os turistas em seu setor e, principalmente, alcançar competitividade em nível internacional. Dessas 65 localidades, dez foram consideradas "referência", por terem uma estrutura mínima já existente. Elas serão as primeiras a receber verba federal (cerca de R$ 400 mil foram investidos de novembro de 2007 até agora) e deverão depois transmitir a experiência de suas ações para as outras cidades da lista. Paraty é um dos destinos-referência do programa no segmento "turismo cultural".
Para dar corpo ao projeto, o ministério contratou a Associação Casa Azul, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público que também é uma das responsáveis pela produção da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Foi formado então um grupo gestor com membros da sociedade paratiense para definir as demandas. Além disso, a Casa Azul chamou a Chias Marketing, para traçar o Plano de Desenvolvimento do Turismo Cultural de Paraty. O resultado dessas ações foi apresentado no lançamento do programa "Mar de Cultura", na Casa de Cultura de Paraty, no último dia 6 de junho.
"Em Paraty, cultura é fator agregador e dá sustentabilidade ao processo de desenvolvimento do turismo da região, que passa por dificuldades com problemas urbanos", diz Mauro Munhoz, diretor-presidente da Casa Azul. Problemas urbanos, inclusive, que estão na pauta das melhorias da cidade. Quem já visitou Paraty durante a Flip sabe, por exemplo, da falta de água e de luz que ocorre quando há superlotação na cidade. O saneamento básico é outro fator que precisa de investimento urgente, assim como a preocupação com a limpeza urbana, segundo Munhoz. Todos esses fatores começam a ser debatidos e considerados agora.
Outro fator que estimula os paratienses e paratianos (para eles, paratienses são aqueles nascidos em Paraty; paratianos são os que escolheram a cidade para viver) a dar importância às melhorias é a possibilidade de a cidade ser declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Paraty está na fila de análise e tem tentado se enquadrar nas exigências feitas pelo órgão internacional -saneamento básico é uma delas. Outra das principais exigências já foi cumprida, o cabeamento subterrâneo. Todos os fios elétricos do centro histórico foram passados por baixo do solo, com a recolocação de todas as pedras do calçamento. O processo foi acompanhado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que tem uma sede na cidade
Chias, durante sua apresentação, considera que a cultura é tudo aquilo que não é natureza. Coloca assim, entre os atrativos culturais de Paraty seu patrimônio histórico, museus, manifestações artísticas, festas populares, gastronomia, eventos culturais e entretenimento e lembra que a paisagem visual faz parte da paisagem cultural. "Uma cidade que não é boa para o morador não pode ser boa para o turismo", disse, cutucando a sociedade sobre a importância de o cuidado com a cidade partir dela própria.
(BRUNA MONTEIRO DE BARROS)* A jornalista viajou a convite da Associação Casa Azul