Paraty quer que seu visitante mergulhe também na sua cultura e nas suas raízesBRUNA MONTEIRO DE BARROS
Enviada especial a Paraty*Rodar pelo centro histórico tentando se equilibrar sobre as pedras que cobrem as ruas de Paraty, andar acompanhado de um guia que lhe conta histórias pitorescas sobre o desenvolvimento da cidade. Admirar trabalhos artesanais, seja dos ambulantes sentados nas calçadas ou dos ateliês que ocupam os casarões altos e de grandes janelas. Pegar um cinema, se emocionar com o teatro de bonecos. Ouvir um sonzinho intimista na mesa do bar. Conhecer comunidades e sentar para conversar com um "baú" de causos e cultura. As atrações da bela cidade fluminense vão muito além da praça da Matriz, dos passeios de barco e dos mergulhos com peixes coloridos.
Paraty entrou definitivamente para o roteiro de turismo cultural brasileiro com o nascimento, em 2003, da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Mas busca agora contar para quem a visita que sua cultura sempre esteve lá, pronta para ser devorada.
A cidade esteve em festa no último dia 6 de junho, quando houve o lançamento do "Mar de Cultura" (
saiba mais), um projeto da Associação Casa Azul encomendado pelo Ministério do Turismo, pelo qual pretende divulgar suas atrações culturais para quem vai a Paraty por causa do mar e do centro histórico. Na prática, para o turista, haverá mais opções de passeios.
O calendário anual de eventos, por exemplo, conta com comemorações que vão desde festas religiosas, como a do Divino Espírito Santo (maio), a da Nossa Senhora dos Remédios (setembro) e a Procissão Marítima São Pedro e São Paulo (junho), passando por encontros das culturas negra, caiçara e indígena, até festivais de cinema, dança, música instrumental e pinga. Todos têm em comum a busca do resgate das raízes do povo de Paraty.
As culturas negra e caiçara são temas ainda de atividades de vivência. Por exemplo, no passeio Quilombo Campinho da Independência, o turista pode conhecer a história dessa comunidade que lutou muito para conseguir a posse oficial das terras que herdou na decadência do regime escravocrata. Considerada um "ponto de cultura", a sociedade realiza atividades de resgate cultural, como capoeira, jongo, percussão, cerâmica, cestaria e artesanato em madeira. Apesar de o passeio ainda carecer de estrutura e organização para receber os turistas em grande escala, já existe por lá um restaurante (que serve uma verdadeira feijoada) e a casa do artesão, onde é possível adquirir produtos manufaturados por todos os moradores. Com um agendamento prévio, também é possível conversar com um "griô" (mestre do saber), que compartilha oralmente suas vivências na construção da comunidade.
Outro passeio, o Saco do Mamanguá, em Paraty-Mirim, tem como tema a cultura caiçara. Ali, pode-se passear de canoa e conhecer a confecção de artesanato em caixeta e a oficina de pintura de barquinhos artesanais.
Os hábitos caiçaras podem ser conhecidos também no Silo Cultural José Kleber, uma instituição sem fins lucrativos criada em 2001 com objetivo de "promover, facilitar e viabilizar a arte e a cultura caiçara da cidade de Paraty". Ali, há uma réplica de uma típica casa de farinha e de um lar caiçara. O espaço é muito visitado por escolas e um guia pode explicar direitinho como funcionam as coisas. Eles podem ser contratados na Associação de Guias Turísticos de Paraty.
O projeto é do músico local Luiz Perequê e sua mulher, a bailarina Vanda Motta, que sentiam falta de um espaço de fomento da arte de Paraty. Com a doação de um galpão de armazenamento de grãos e o envolvimento de arquitetos que transformaram a estrutura em um centro cultural, o Silo Cultural José Kleber teve as portas abertas para sediar oficinas de música, artes plásticas, dança, artesanato, cinema, artes cênicas, entre outras manifestações. Seu nome é uma homenagem a outro músico local. José Kleber foi poeta, ator e compositor, e sua músicas estão na boca dos moradores da cidade.
A obra de Kleber é, por exemplo, a base do repertório do coral Educanção, que tem seis anos e é um projeto da Casa da Música, espaço que proporciona à comunidade de Paraty aulas que vão desde a técnica dos instrumentos até a leitura de partituras.
Paraty guarda ainda uma pérola das artes cênicas, o Teatro Espaço, sede do grupo Contadores de Estórias. A companhia de teatro de bonecos é formada pelo casal Marcos e Rachel Ribas e teve início em 1971 em Nova York. Depois de conquistar o público do Rio de Janeiro e rodar em turnês internacionais, o casal se estabeleceu em Paraty e, em 1985, fundou o teatro, onde até hoje fazem duas apresentações semanais, durante todo o ano. As performances com bonecos são sensíveis e surpreendentes e já são patrimônio cultural dos paratienses.
O cinema também está presente na cidade. O Cineclube Paraty foi criado em maio de 2007 por moradores que buscam tanto levar a sétima arte para a população quanto levar as histórias da cultura caiçara para as telas. O grupo exibe filmes, gratuitamente, no auditório da Casa de Cultura, que, ao lado do Ihap (Instituto Histórico e Artístico de Paraty), incentiva o projeto. Na programação, há desde filmes sobre a cultura local até produções européias e norte-americanas.
André Góes, um dos membros do cineclube, conta que a idéia agora é levar o cinema para as mais de 40 comunidades de fora do centro urbano paratiense. "Começamos em março passado a exibir filmes para crianças e jovens de dois bairros. As exibições acontecem no Itae, instituto que acolhe esse público quando ele não está na escola", diz. Góes conta também que o cineclube promoveu na Flip de 2007 o primeiro "Escritores do Cinema", uma mesa de debates sobre o tema. O segundo está na programação da Flip deste ano.
O Cineclube Paraty promove ainda, de 25 a 27 de julho, uma mostra reduzida do festival Mix Brasil, com filmes recentes nacionais e internacionais que abordem a temática da diversidade sexual.
Como se pode ver, a cidade inteira parece estar envolvida com temas culturais, suas manifestações e resgates. Entre um e outro passeio de barco pelas belas águas de Paraty, o turista pode conhecer um pouco mais das raízes desse povo que tão bem o acolhe.
* A jornalista BRUNA MONTEIRO DE BARROS viajou a convite da Associação Casa AzulSERVIÇO
Associação dos Guias Turísticos de ParatyTel.: (24) 3371-1783
Casa da Cultura de Paratywww.casadaculturaparaty.org.brGuia de Paratywww2.uol.com.br/paratyQuilombo Campinho da Independênciawww.quilombocampinho.orgSilo Cultural José Kleberwww.silocultural.org.brTeatro Espaçowww.ecparaty.org.br