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30/11/2005 - 22h17
Designer de móveis Claudia Moreira Salles apresenta "a cara da casa brasileira" em exposição e livro; leia entrevista
AUGUSTO OLIVANI
UOL Diversão e Arte



A designer de móveis Claudia Moreira Salles tem quase três décadas de criação revistas em exposição, no Museu da Casa Brasileira, e em livro, lançado simultaneamente à abertura _que acontece nesta quinta-feira, 1º de dezembro, em São Paulo. Ambas focadas em cerca de 30 móveis emblemáticos da obra de Claudia, livro e mostra destacam o caráter artesanal com que a designer trata elementos brasileiros em construções contemporâneas de mobiliário.

Claudia é conhecida por aliar simplicidade com detalhamento, além de dominar as nuances de uma matéria-prima que tem forte identificação com o Brasil: a madeira. Nascida (em 1955) e formada (em 1978) no Rio de Janeiro _de onde em meados dos anos 80 para morar em São Paulo_, seu ambiente de criação foi embebido na tradição aristocrática da arte moderna nacional, por nomes como Candido Portinari, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy e Lasar Segall.

"No Rio, você tinha muito mobiliário de madeira na casa das pessoas, com criações de Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues. É algo presente na minha memória _é a cara da casa brasileira", define a designer Claudia Moreira Salles em entrevista ao UOL.

Claudia, ao mesmo tempo que tem formação em Desenho Industrial, ou seja, fundada na produção seriada, fez a transição para a produção sob encomenda, em que tem contato estreito com os artesãos de marcenaria.

O recorte feito dos móveis criador por Claudia Moreira Salles inclui peças representativas de sua trajetória, como os bancos Dueto (1992), Iracema (1993) e Jangada (2000), a mesa Fresta (2001), a cadeira Quase Mínima (2004) e o sofá e poltrona Tragara (1997). Nelas, é possível ver as diferentes tonalidades e veios da madeira em harmonia e o uso da transparência, dos espaços vazios, das elipses, para dar leveza a criações que são densas pela natureza da madeira.

Na exposição do Museu da Casa Brasileira, as cerca de 30 peças estão acompanhadas por croquis e desenhos de projeto, com o intuito de mostrar o processo de criação e como ele se dá, além de ter fotos ampliadas _com autoria de Cristiano Mascaro_ de ambientes criados pela designer, por exemplo, para fazenda projetada pelo arquiteto mexicano Ricardo Legorreta em Matão, no interior de São Paulo.

Já o livro traz 145 imagens, de trajetória semelhante do mobiliário de Claudia Moreira Salles, assinadas por fotógrafos como Andrés Otero, Claudia Jaguaribe, Cristiano Mascaro, Romulo Fialdini e Tuca Reinés, além de desenhos da própria designer que elucidam o processo de desenvolvimento dos produtos e textos de Adélia Borges _autora do livro, curadora da exposição e atual diretora do Museu da Casa Brasileira_ e Sergio Rodrigues _designer e influência de Claudia.

Sergio, aliás, escreve: "No meu entender, trata-se de autêntico design com cara de Brasil. O desenho das peças, a escolha dos materiais, tudo exala Brasil!"

Depois do livro e da exposição, Claudia se prepara para lançar nova coleção de objetos, feitos com sobras de madeira. São caixas, recipientes e outros objetos utilitários.

Leia, abaixo, entrevista com Claudia Moreira Salles, em que a designer fala sobre as possibilidades da madeira, o traço afetuoso de suas peças e a predileção pela convivência e não pela ruptura.

UOL: De que forma surgiu a idéia do livro? Partiu da autora Adélia Borges ou de você mesmo?
Claudia Moreira Salles:
Trata-se de uma obra em conjunto. A Adélia estava organizando a exposição de inauguração do Museu de Curitiba [aprox. em 2001] e passou no meu ateliê para escolher uma peça. Então nós conversamos sobre reunirmos as minhas criações em um livro, pois a Adélia achava que já tinha volume de trabalho suficiente. A idéia começou ali e foi retomada em 2004, quando começou a tomar forma.

Queria um livro que não fosse somente de enfeite, de mesa de centro, um que acaba não sendo lido. Mas sim um livro que acrescentasse, através do caminho que eu tomei, algo sobre a visão de design e a criação de móveis. Queria transmitir a experiência de alguém que saiu da formação de Desenho Industrial, da produção em série, para uma produção de pequenas séries e do trabalho com madeira. Além disso, um livro que mostrasse o processo de criação _por isso achei importante mostrar croquis e desenhos técnicos junto às peças acabadas.

UOL: Como foi a passagem da produção em série para a artesanal?
Claudia Moreira Salles:
Quando eu me formei na Esdi, no Rio de Janeiro, já tinha trabalhado como estagiária no Instituto de Desenho Industrial (IDI), em cima de um projeto de mobiliário escolar, encomendado pelo governo do Estado de São Paulo. Foi uma produção de mobiliário normativo, que servia tanto para produção em série quanto em pequena escala.

Quando vim morar em São Paulo, a Escriba Indústria de Móveis estava desenvolvendo uma série de equipamentos para biblioteca. Foi então que comecei a fazer alguns trabalhos sobre encomenda. E com esses projetos comecei a ter contato com uma mão-de-obra artesanal, e por mais que tivesse a disciplina da indústria, a facilidade construtiva, de materiais _algo forte no meu projetar_, quando é um outro tipo de processo que não a máquina, quando se tem contato com a mão que está fazendo a obra, se percebe que há a possibilidade de explorar ao máximo o toque. Então comecei a desenvolver o conhecimento de madeira, das técnicas de artesanais, pois me identifiquei com esse tipo de produção, com a troca com o artesão _havia muito o que aprender com marceneiros experientes.

UOL: De onde vem essa relação tão próxima com a madeira?
Claudia Moreira Salles:
Morei muito tempo no Rio de Janeiro. E no Rio, para mim, você tinha muito mobiliário de madeira na casa das pessoas, com móveis de Sergio Rodrigues, do Tenreiro, é algo muito presente na minha memória _é a cara da casa brasileira. Quando eu fui entrando nesse caminho de explorar a madeira e a mão-de-obra artesanal, voltei para trás e me lembrei daquilo que era a minha vivência. Assim, fui atrás de recuperar e ver o trabalho dessas pessoas que desenvolveram móveis associados à arquitetura moderna dos anos 50 e 60.

UOL: De que forma você alia a tradição da madeira com sua produção contemporânea e artesanal? Você tem uma predileção pela convivência do que pela ruptura?
Claudia Moreira Salles:
A madeira é considerada mais conservadora porque o plástico e os metais vieram depois. Se você não os produz, industrialmente, tem muita dificuldade de fazer, não há como fazer uma pequena série com materiais assim, eles só se justificam numa grande série.

Mas quando eu saí da indústria, e isso aconteceu, não foi uma ruptura. Quando vi que a indústria não absorve, fui por esse caminho porque foi o que me apareceu e porque eu conseguia realizar coisas dessa maneira. O trabalho dos Irmãos Campana, por exemplo, também é uma resposta, mas de ruptura, que parece afirmar "não consigo produzir industrialmente, então vou usar produtos industriais pra criar séries artesanais". Isso também é uma resposta à uma falta de oportunidade. Alguns dos meus projetos, mesmo sendo construídos artesanalmente, tem uma característica construtiva de simplicidade, que poderia ser usada na fabricação em grande séries. Trabalhar em pequenas séries é muito prazeroso, mas é também mais trabalhoso, encarece, você vende menos.

UOL: Por que a predileção pela madeira como matéria-prima?
Claudia Moreira Salles:
A madeira, ela única. Cada pedaço é único. Ao conhecer bem o material, se aprende a usar e a tirar o melhor dela. Cada peça tem a sua expressão, tem indicações diferentes que você passa a conhecer. É também um material quente. O toque da madeira é fantástico. A durabilidade é incrível. A madeira, dependendo de como é usada, dura muito tempo. Não vai virar sucata, lixo, trambolho. Tem-se inclusive capacidade de recuperação. Além do que, dos materiais existentes, a madeira é o único renovável, graças às técnicas de reflorestamente, de manejo sustentável. É um material que faz sentido sim, inclusive ecologicamente. A madeira é campeã.

UOL: Quais são suas principais aspirações na criação de mobiliário?
Claudia Moreira Salles:
Busco muito a leveza, um princípio que vem da arquitetura, mas é difícil obter a leveza com as madeiras brasileiras, que são muito densas. Prezo também pela transparência: os espaços vazios, as elipses, as bases e o que se pode ver através das peças.

LIVRO: CLAUDIA MOREIRA SALLES, DESIGNER
» Bei Editora
» 160 páginas
» R$ 80

EXPOSIÇÃO: CLAUDIA MOREIRA SALLES
» Onde: Museu da Casa Brasileira
(av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 - Jd. Paulistano)
» Quando: De 2/12 a 15/1/2006 (ter. a dom., das 10h às 18h)
» Quanto: R$ 4
» Informações: (11) 3032-2564 e www.mcb.sp.gov.br

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