18/10/2005 - 13h38 "Estou colorindo o meu passado", afirma o neoconcreto Rubem LudolfAUGUSTO OLIVANI UOL Diversão e Arte
Um dos nomes associados ao neoconcretismo brasileiro mantém-se produtivo até hoje, ao mesmo tempo fiel aos princípios e livre dos dogmas do movimento. Aos 74 anos, Rubem Ludolf, aluno de Ivan Serpa, um dos únicos artistas do Grupo Frente (ao lado de Abraham Palatnik) que ainda estão vivos, apresenta em São Paulo, na Galeria Berenice Arvani, série de 20 pinturas à óleo feitas entre 2000 e 2005. "O meu trabalho, hoje, está mergulhado no colorido", revela o artista.
Trata-se da primeira exposição com obras inéditas desde a retrospectiva "Cor e Rigor", realizada no Rio de Janeiro (Museu Nacional de Belas Artes, em 2002) e em São Paulo (Centro Universitário Maria Antonia, 2003). Ao mesmo tempo que exibe as novas criações, Ludolf tem obras incluídas em uma coletiva ("Homo Ludens", no Itaú Cultural) e também na na 5ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.
Contemporâneo e associado aos trabalhos dos cariocas Lygia Clark, Hélio Oiticica, Aluísio Carvão e Lygia Pape, que na época da gênese do Grupo Frente (1954) procuravam a liberdade de criação e a experimentação em diferentes linguagens dentro da geometria, Rubem Ludolf integrou a 3ª Bienal Internacional de São Paulo na companhia dos mesmos. Depois, solo, voltou à Bienal de SP em 1959 (5ª), em 1961 (6ª), em 1965 (8ª), em 1967 (9ª, quando ganhou o Prêmio Aquisição) e na 12ª (1973).
Ludolf se diz um aficionado pelo quadrado. Em 2003, no Estúdio Guanabara (Rio de Janeiro), realizou a mostra "Homenagem ao Quadrado". "É uma forma que se repete muito nas minhas composições. Sou mais da reta que da curva", confessa. "Costumo dizer que faço uma pintura de arquiteto, mas em vez de abrir um escritório, montei um ateliê de pintura."
Alagoano radicado no Rio de Janeiro desde que foi estudar na Escola Nacional de Arquitetura da Universidade Brasil (onde se formou em 1955), Rubem Ludolf foi autodidata em seu início artístico, mais ligado à figuração. Porém, após frequentar as aulas de Ivan Serpa no Curso Livre de Pintura do MAM-RJ e de ser confrontado pela abstração na 1ª Bienal de São Paulo, enveredou pela geometria e pelas cores. "Serpa me mostrou o caminho, abreviou minha busca", admite.
Leia abaixo entrevista com o artista neoconcreto Rubem Ludolf:
UOL: O que une cada um desses trabalhos apresentados na exposição, de forma que eles constituem um momento na sua carreira? Rubem Ludolf: Esse trabalho é uma evolução que já faço há algum tempo, vem da minha fascinação pelo quadrado. Hoje, estou mergulhado no colorido. Três cores são predominantes atualmente: o azul, o vermelho e o verde. Mas quando vou às lojas, pego bisnagas de cores que não habitavam minha palheta, como o laranja. Sinto necessidade de explorar novos caminhos e novas cores, a palheta do artista vai crescendo, vai mudando, há uma variação que me incentiva a fazer novos trabalhos. Nessa exposição, por exemplo, há quadros que eu bolei na década de 50, mas que nunca tinha desenvolvido. Se um dia já cheguei a pensar que a geometria estava saturada, hoje acho que é infinita. Pode-se fazer a vida inteira, sem se repetir.
UOL: Como vê o reconhecimento e o enaltecimento hoje de artistas da sua geração, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e Ivan Serpa? Como encara essa mudança de paradigma, de ser vanguarda no passado e retaguarda no presente? Rubem Ludolf: Cada vez mais a pintura construtiva vem se afirmando, não só no Brasil como no mundo. Temos artistas construtivos de primeira linha. Era um grupo muito coeso. Em 1956, montamos uma exposição em São Paulo (que chegou ao Rio em 1957), chamada "1ª Exposição Nacional de Arte Concreta", que reunia cariocas e paulistas e ia além da pintura, tinha a participação de poetas como Décio Pignataria e Ferreira Gullar. Foi um movimento muito abrangente, muito avançado para a época, em momento em que a predominância era dos figutativos como Portinari e Di Cavalcanti. De repente, aparece uma turma fazendo pintura geométrica _que muitos achavam uma pintura decorativa.
Era, também, uma geração que quase não vendia o seu trabalho. Eu não tinha ilusões, permaneci no meu emprego por 30 anos. Tinha um sustento, então não precisava pintar uma arte comercial apenas para sobreviver. Sempre pintei o que quis. Se por um lado é difícil, é também gratificante, pois sempre visei o outro, aquele que irá se deparar com a obra. Assim, deixei de ser um artista maldito, mas nunca de pintar aquilo que acredito. Pelo menos não precisei chegar ao ponto de cortar a própria orelha, como Van Gogh (ri).
UOL: Como se usa a geometria para recriar artisticamente sua visão de mundo e criar oposições no plano, com essa dialética de formas e cores? Rubem Ludolf: Para mim foi um modo de resolver o espaço do quadro, aquele quadrado ou aquele retângulo, que começava pela forma e que depois eu coloria. Era aquela divisão, algo muito pessoal, que eu mantenho até hoje. Por exemplo, se você pegar um quadrado e pintar de vermelho, e ao lado colocar um fundo preto, esse vermelho vai ficar claro. Se for num fundo branco, vai reagir de outra forma. Isso me atrai, a possibilidade de fazer com que a cor mude sendo a mesma. Isso eu tenho conseguido através da pintura.
Curioso você mencionar dialética, porque eu participei da Bienal de Paris em 1961, a chamada "Bienal do Artista Jovem", que já não existe mais, com um quadro que eu mantenho até hoje, que chamo de "Diálogo". Me recuso a vendê-lo. São duas formas que se encontram num ponto comum. Associei isso a uma conversa e penso que a pintura deve contar uma história. Uma cor que se desenvolve, que vai num degradê até virar outra cor. Criar contrapontos entre uma e outra. Tudo que jogo no quadro tem sua razão de ser. Sou perfeccionista, sou introvertido. É algo que me ajuda tanto quanto pode atrapalhar. E acho que o geométrico é mais penoso de realizar. Mas é ótimo quando você vê tudo no seu devido lugar e sua arte saindo do ateliê para as galerias, para o contato com o público.
UOL: Ao se deparar com algumas de suas obras, se tem a impressão que são também labirintos. É proposital? Rubem Ludolf: É labiríntico sim. Uma vez, no início de carreira, quando mostrei trabalhos feitos com guachê, o Rubem Braga foi visitar a mostra. Quando fomos apresentados, o cronista, de brincadeira, perguntou se eu tinha um remédio de dor de cabeça para lhe dar, pois dizia que a minha pintura mexia muito com o olho. Muito tempo depois, em 2003, na retrospectiva que fiz de minha carreira, um jornal usou o título "o hermitão que quer pertubar nosso olhar". E eu quero perturbar mesmo. Às vezes consigo. É justamente esse olhar que procura no quadro alguma coisa. Minha pintura não é de impacto, como a do Manabu Mabe, requer que se fique procurando relações. Acredito que, na geometria, a coisa está mais despida de variações.
UOL: Como é ter essa rotina de criação quase que incessante, de trabalhar até hoje diariamente, oito horas por dia, no ateliê? Rubem Ludolf: É como uma coceira. Às vezes acordo de noite com uma idéia, vou na prancheta, rabisco, então passo a amadurecê-la. De um estudo à lápis passo para o processo de escolher a cor, por exemplo. É algo que vai se formando, se construindo. E também sou muito organizado. Tenho estudos guardados desde 1950. Quando olho e vejo que até hoje alguns desses estudos me atraem, como os de 1957 que serviram de base para obras que estão nesta exposição. Dizem, e eu concordo, que estou colorindo meu passado. Isso também me entusiasma. É sentir que as pessoas passaram a gostar do que eu fiz e faço com o passar do tempo, isso motiva muito o artista, essa comunicação com o público. A primeira visita da exposição, mesmo antes da abertura, foi de um casal de Vitória (ES), um professor que veio me conhecer, que disse mencionar minha obra aos alunos. Saber que você está conversando com alguém é gratificante.
RUBEM LUDOLF - PINTURAS RECENTES » Onde: Galeria Berenice Arvani (r. Oscar Freire, 540) » Quando: de 19/10 a 11/11 (de seg. a sex., das 10h às 19h30) » Quanto: Grátis » Informações: (11) 3088-2843 e www.galeriaberenicearvani.com