
19/12/2006 - 21h35A Bienal na mídia
Veja a seguir uma seleção de opiniões sobre a 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, obtida em entrevistas e reportagens sobre a mostra.
"Contra todas as previsões e preconceitos, a Bienal paulista ressemantiza sua identidade diluída nas últimas edições e adquire uma transparente incorporação dos países marginalizados, terceiro-mundistas, os excluídos de sempre pelas bienais eurocêntricas. O belga Marcel Broodthaers (1924-76) e o estadunidense Gordon Matta-Clark (1943-78), paradigmas da produção contemporânea, figuraram como protagonistas onipresentes em todos os participantes". (Nelson Di Maggio, La Republica, Montevideo, Uruguai) "O título desta edição da Bienal, tomado do título de um seminário tardio de Roland Barthes, é tão fácil como incisivo e perturbador. Fácil, porque assumido como critério de seleção dos artistas convidados permite justificar sem dificuldade a decião de reunir embaixo de um mesmo teto artistas tão díspares entre si por sua origem, sua cultura, suas intenções, suas opções estéticas e recursos retóricos e técnicos. (...) A diversidade resulta assim, em vez de um problema uma virtude, porque enfatiza a pertinência da pergunta "Como Viver Junto", agora que nos sabemos tão diferentes. E se transforma, uma vez aceita plenamente na Bienal em uma declaração política a favor da convivência em paz, quando a vergonhoza proliferação das guerras nos alertam sobre as enormes dificuldades que enfrentamos para viver todos juntos em um planeta que cada vez se torna mais pequeno. A Bienal de São Paulo tem, então, o enorme mérito de nos lembrar que em torno da arte -este enigma- se agrupa uma comunidade cosmopolita que, a despito de suas cruas diferenças, é capaz de se reunir e oferecer uma resposta plausível à pergunta barthesiana pelas possibilidades de nossa convivência". (Carlos Jiménez, no El Pais, Espanha) "O que é muito bom em um 'tema' como este é que ele não reduz as obras em exibição a meras ilustrações. Ao contrário, oferece uma maneira possível de olhar para elas. Como eu estou sempre refletindo sobre por que funcionamos do modo que funcionamos; sobre como os códigos e a cultura afetam o que fazemos, dizemos e construímos; o quanto estranho isso realmente é; e conseqüentemente qual poderia ser o papel da arte em todo este contexto; sinto-me muito confortável em relação este 'tema'". (Bárbara Visser, artista holandesa, em entrevista a Fernando Oliva, no Canal Contemporâneo) "Que se de um lado a Bienal perdeu o glamour, por outro, ganhou em vivacidade, interesse e pertinência" (Laurette Coen, sobre o fim das Representações Nacionais, no Jornal "Le Temps") "Para os artistas, algumas inovações também distinguiram suas participações. Todos os participantes eram estimulados a apresentar mais do que uma obra. Cada artista podia mostrar exemplos representativos de sua carreira, que davam o contexto de cada produção artística. Além disso, alguns artistas foram convidados a participar de residências artísticas em diferentes Estados do país". (Caroline Menezes, na revista eletrônica inglesa Studio International) "Mais que um tema, acho que a frase escolhida por Lisette Lagnado é um sintoma transcultural e totalmente contemporâneo. É a forma de vivermos hoje apesar do caráter globalizante da cultura contemporânea. A frase de Barthes não somente interroga a condição atual das relações sociais, mas também apela a uma definição pessoal e a opiniões particulares sobre como cada pessoa se desenvolve em seus próprios micro-territórios". (Mario Navarro, artista chileno, em entrevista ao UOL) "Sintomático é o fato de grande parte da crítica ter girado em torno do projeto curatorial e de um certo aprisionamento do 'estético' pelo 'político', ou, melhor, da captura da arte pelo social, reeditando assim discursos em grande medida datados - e ter perdido com isso a oportunidade de refletir sobre o que efetivamente ali se expôs". (Ana Amélia Genioli e Ruy Sardinha Lopes, no Canal Contemporâneo) "Desde o início, quando comecei a trabalhar com a Bienal, com a curadora Lisette Lagnado, fiquei muito interessado no tema e no projeto de transformar a estrutura da Bienal em uma plataforma mais internacional e flexível para o mundo da arte de hoje. Penso que 'Como viver Junto' é mais que um tema da Bienal, e não é apenas uma demanda urgente da arte hoje em dia, mas do mundo em que estamos vivendo". (Diango Hernández, artista cubano, em entrevista ao UOL) "O título-tema da bienal, "Como Viver Juntos", extraído de um livro de Roland Barthes, deixa isso claro. Cabe aqui uma consideração: a presença de um tema não é necessariamente uma camisa-de-força que constrange a liberdade expressiva das obras. Se bem realizada a curadoria, como acredito ter sido o caso desta bienal, o tema pode ser visto como um eixo conceitual a partir do qual as obras ganham um parâmetro relacional. Cria-se uma possibilidade de convivência e relação entre as proposições poéticas apresentadas. Outras articulações e novos sentidos são latências intrínsecas às obras". (Luiz Camillo Osório, crítico do jornal O Globo) "A proposta teórica, que define uma rede de relações entre arte e seu contexto social, resulta transparente graças a uma montagem consecuente e cuidadosamente planejada. Para o público especializado, se torna igualmente clara a presença referencial de certos modelos curatoriais que no passado recente articularam com êxito al arte e a política. Em primeiro lugar, as duas últimas Documenta, cujos eixos conceituais aparecem reiterados na Bienal paulista de maneira quase programática". (Valeria González, no Pagina 12, de Buenos Aires, Argentina) "Também é interessante ver que com toda a experiência seguem cometendo erros técnicos e logísticos, o que faz com seja sempre uma odisséia conseguir expor nestas mostras. Curatorialmente, creio que se pretende abarcar tanto que, no momento da exposição, é muito comum encontrar um vazio no discurso curatorial, sobretudo quando se pretende dar um panorama da arte através de um tema e apresentando centenas de trabalhos". (Héctor Zamora, artista mexicano, em entrevista ao UOL) "Creio que foi um excelente enunciado para o contexto de uma exposição como a Bienal de São Paulo. Para uma mostra das dimensões desta Bienal, com seus objetivos gerais de apresentar-se como termômetro de momentos artísticos, a metodologia temática é uma opção clara. E, se além de propor um tema que reflete os mesmos objetivos prévios e propõe também uma reflexão sobre a política, a sociologia e - porque não - sobre a idéia mesma de por que fazer arte, o enunciado é uma proposição ideológica em si mesma". (Alberto Baraya, artista colombiano, em entrevista ao UOL) |
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