UOL Entretenimento

Rodrigo Naves: "Há pouca diferença entre as feiras de arte e a Bienal"

Da Redação

TV UOL

O crítico de arte Rodrigo Naves dá depoimento à TV UOL sobre a Bienal

O crítico de arte Rodrigo Naves dá depoimento à TV UOL sobre a Bienal

Para o crítico, professor e historiador da arte Rodrigo Naves, as bienais brasileiras vêm perdendo gradativamente importância ao longo de sua história. "Embora eu saiba da importância da Bienal antes dos anos 1970, de quanto ela foi decisiva para a formação das artes brasileiras, o sentimento que eu tenho, uma memória meio vaga, da Bienal é, sobretudo, de uma grande confusão. Posteriormente, passou a se associar a Bienal um ou outro tema, tentando alinhavar essa irregularidade. Acho que isso não resolveu".
Para Naves, tanto a Bienal de São Paulo como a de Veneza e a Documenta de Kassel sofrem de "gigantismo" e não diferem das feiras de artes.
Autor de "A Forma Difícil", "Farnese de Andrade", "Goeldi", "Nelson Felix", entre outros, Naves foi editor da revista "Novos Estudos", do Cebrap, de 1987 a 1995.
Leia, a seguir, depoimento de Rodrigo Naves sobre as bienais brasileiras à TV UOL.

A Primeira Bienal
"Certamente foi no final dos anos 1970. E eu não tenho isenção para falar da Bienal no sentido de uma memória mais vaga. Sempre tive com a Bienal uma relação mais ou menos profissional. Embora eu saiba da importância da Bienal antes dos anos 1970, de quanto ela foi decisiva para a formação das artes brasileiras, o sentimento que eu tenho, uma memória meio vaga, da Bienal é, sobretudo, de uma grande confusão. Posteriormente, passou a se associar a Bienal um ou outro tema, tentando alinhavar essa irregularidade. Acho que isso não resolveu. O que eu tenho muito presente é isso: trabalhos muito dispersos, muito irregulares, qualidade muito desnivelada e momentos muito altos.
O Phillipe Guston, por exemplo, que eu acho até hoje um grande pintor, foi a primeira vez que eu vi uma grande mostra dele. E foi em momento em que nas Bienais ainda as representações estrangeiras traziam sempre artistas muito relevantes do país. Eu suspeito que foi no final dos anos 70, começo dos anos 80, um momento em que um artista já velho como o Guston estava tendo uma espécie de reinterpretação dos Estados Unidos muito grande, embora ele seja canadense. E era uma mostra de muito boa qualidade, com uma quantidade razoável de trabalhos. Foi um momento muito interessante para mim. Acho que houve vários outros: a exposição do Kieffer, muitos anos depois, acho que nos anos 90, era uma exposição do melhor Kieffer, muito bem montada, foi muito influente para as pessoas ligadas aqui ao neoexpressionismo. Essa instalação do Beuys. Acho que houve momentos de muita perplexidade, de muito interesse, de um grande encantamento, mas é praticamente como se eu fosse a um lugar enorme com 200 individuais e me interessasse por uma ou duas..."

A importância das Bienais
"Eu tenho a impressão de que sobretudo nos primeiros 15 ou 20 anos é que a Bienal foi muito marcante, foi muito importante, para certos desdobramentos da arte brasileira. Se considera internacionalmente que a segunda Bienal de São Paulo talvez tenha sido a maior exposição de Arte Moderna de todos os tempos. Mas era uma coisa esplêndida, de Morandi, Modigliani, Picasso. Eu acho que essa relevância, essa regularidade e essa influência se perderam, talvez porque as coisas se tornaram mais cosmopolitas, as pessoas passaram a viajar mais. As influências aumentaram, os livros de arte se distribuíram mais. No período em que eu passei a freqüentar mais a Bienal, até por idade, no final dos anos 70, começo dos anos 80, eu acho que essa crescente irregularidade, essa ausência de trabalhos significativos, tornou a Bienal crescentemente irrelevante.
Eu acho que ela tem ainda alguma importância, até pela tradição, é um evento que atrai muito público, que contribui ainda para dar certa visibilidade para as artes visuais, que talvez entre as artes no Brasil sejam as que tenham menos dimensão pública. Mas acho que ela foi se tornando crescentemente mais irrelevante."

Gigantismo das exposições
"Esse tipo de exposição pode ainda ter alguma significação? Não sei, eu tenho dúvidas, eu acho que ela é grande demais para que ela tenha um nível razoável. Então, um certo preconceito que existe sobre a arte contemporânea _que por ter se afastado um pouco mais de certos virtuosismos técnicos passou a ser vista como uma coisa que qualquer pessoa faz_, esse tipo de preconceito é muito reforçado, eu acho, pela irregularidade, pela baixa qualidade em geral, das bienais e de exposições desse tipo. Nesse sentido, eu até acho que é um desserviço. Se se pusesse de lado, talvez, o gigantismo da Bienal e se tentasse organizá-la mais por qualidades do que por falsas unidades, dadas por temas totalmente estapafúrdios, talvez fosse possível novamente que ela ganhasse a relevância que teve nos anos 1950".

Dimensão espetaculosa

"Nessa passagem dos anos 1950 para cá houve uma mudança também muito significativa entre a arte moderna e a arte contemporânea. A arte contemporânea, em função um pouco de certas características dela, as instalações, uma certa participação do espectador, uma certa reivindicação de romper com a separação entre arte e vida, também pede uma dimensão espetaculosa, que talvez facilite um pouco que se acentue certas características já mais ou menos próximas de exposições grandiosas como a Bienal ou a Documenta, tanto faz. Acho que com este tamanho, as que têm mais relevãncia são a Documenta de Kassel, a Bienal de Veneza e a Bienal de São Paulo. Todas as três sofrem de problemas mais ou menos semelhantes. Não acho que nós sejamos especialmente bons em produzir mostras irregulares. Seria muito injusto falar no sentido amplo. Acho que Kassel teve edições piores e melhores e a nossa Bienal também e Veneza igualmente. Mas acho que todas elas sempre estiveram envolvidas com a dificuldade de, numa mostra desse tamanho, produzir o mínimo de qualidade, ou menos irregularidades entre os trabalhos."

O papel do curador
"O que passou a ser crescentemente influente nessas exposições, e talvez fosse um aspecto que não houvesse antigamente, é que passou, em todo o cenário internacional, a cada vez ter mais importância a figura do curador. Os curadores passaram a ter tanto ou mais importância que os artistas escolhidos, o que de alguma forma passou a implicar na força dos temas, a tentativa de pautar certas tendências que não existiam, enfim, como se certos temas, certas maneiras de dispor os trabalhos, de alguma forma tivessem mais a dimensão estética do que os próprios trabalhos expostos, o que eu acho que cria uma série de problemas.
Agora, as coisas são assim hoje em dia, não sei, e o problema em geral é que esses temas não têm a menor relação com a arte, quer dizer, se elegem certas questões e você escolhe os artistas que preenchem isso. Não é bem assim que eu entendo as coisas, mas que elas vão nessa direção, acho indiscutível. E também me parece indiscutível, que, com esses critérios, se torna cada vez mais difícil produzir Bienais ou exposições grandes, independentemente do nome, interessantes."

Mercado
"Eu acho que, crescentemente, para os artistas brasileiros, a Bienal se tornou um lugar para visibilidade internacional. Isso é quase equivalente a mercado. Eu acho que não é só isso, é quase isso. Eu acho que, dadas as maiores possibilidades de viagem, os livros de arte, as exposições fora da Bienal no Brasil, a Bienal deixou de ser uma referência enquanto lugar de informação, pros artistas, pro grande público talvez sim. E ela é o momento, sobretudo, na inauguração, que vêm os curadores, que vêm os grandes colecionadores, os diretores de museus, e aí se fazem todos os circuitos: nas galerias, nos centros culturais, uma certa mostra do que nós produzimos. De alguma maneira as pessoas colocam à disposição do mercado durante a Bienal.
Eu não tenho nada contra isso, quer dizer, as pessoas precisam viver do seu trabalho etc. Agora, eu acho que crescentemente vem havendo um certo descolamento entre a qualidade dos trabalhos, que nós conseguimos a duras penas, quer dizer, no Brasil a inexistência de uma categorização e uma hierarquização boa sempre foi marcante... Quando a gente estava mais ou menos conseguindo isso, passou a haver, de maneira muito forte, uma presença, uma seleção de nossos próprios artistas, feita por pessoas que tinham muito pouco contato com a nossa arte e que nos puseram no mercado de uma maneira muito selvagem. Ou seja, em geral, embora haja bons artistas brasileiros que tenham presença lá fora, a gente ainda entra no mercado internacional respondendo a certas expectativas que eles têm de nós: o corpo, a irracionalidade. Ou seja, nós somos ainda semi-índios que devemos dar satisfação à Europa ou aos Estados Unidos atendendo a essas expectativas. Enfim, eu acho isso meio sem graça, mas é isso ainda que tem força e eu acho que a Bienal entrou muito irrestritamente nesse circuito.
Não vejo muita diferença hoje em dia entre os eventos que se produzem em torno da Bienal, que talvez como mercado sejam mais importantes que a Bienal, e vão de festas a exposições em galeria, da coisa mais mundana a algo um pouco menos mundano _e que envolve inclusive seminários, fóruns, que no meu ver apenas são um certo glamour a essa coisa mais decididamente mercadológica_ voltando, há cada vez menos diferença entre Arco ou as feiras de Bassel ou Miami, e a Bienal, como um acontecimento que propicia outros acontecimentos."