
Alberto Baraya: Artista colombiano apresenta sua seringueira em primeira mãoda Redação
O artista colombiano Alberto Baraya, 38, é um dos artistas-residentes do convênio entre a Bienal e a Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado).
Baraya leciona Arte na Universidade de Los Andes e na Universidade Nacional da Colômbia. Seu trabalho para a Bienal se materializou na construção de um molde de uma seringueira com látex em escala natural. A TV UOL documentou a chegada de Baraya ao Porão das Artes na Bienal, quando desembarcava a serigueira que exibe na mostra. Leia a seguir a íntegra do depoimento: ALBERTO BARAYA Estou parodiando os investigadores científicos do século 19 e 18. Eles iam pela natureza, pesquisando e pegando as plantas para fazer suas investigações científicas. É um herbário de plantas artificiais, que consiste de uma coleção, tipo expedição botânica, de plantas. Mas, elas são "made in China", elas são de plástico. O que eu faço agora é uma investigação sobre plantas artificiais, não naturais, ou as que são consideradas naturais. Ficamos num ponto intermediário entre o que é artificial e o que é natural. Fazendo uma expedição pelo Amazonas, eu encontrei a história do caucho da seringueira. É uma história enorme, que tem a ver com os países de toda a bacia amazônica: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e mesmo o Brasil, claro. Então eu comecei a fazer este trabalho e surgiu a idéia de fazer uma planta que não estava dentro do herbário das plantas artificiais, que era a seringueira, e fazer a planta da seringueira com o mesmo material dela. A idéia era utilizar o látex natural para fazer uma cópia da árvore, uma "impressão" da árvore. Nós construímos um andaime ao redor de uma seringueira viva e começamos depois a aplicar látex, um látex tratado, estabilizado. Estamos vendo sempre esta parte totalmente lisa [Baraya mostra a obra], mas no interior ele tem as folhas e tal... Ela tem aqui as folhas, pedacinhos, deve ter até formigas por aí. Na parte interna estão as diferentes partes da pele da seringueira. Estas são as linhas que os seringueiros fazem de três em três dias para pegar o látex da árvore. Depois quando o látex secou, fizemos uns cortes com o bisturi e fomos removendo (a fôrma de) látex da seringueira viva, de cima até abaixo. Como você vê, aqui têm todas as diferentes marcas da vida da seringueira, na pele da seringueira. Aqui você tem um pequeno galho da planta com diferentes cores. E esta parte das folhas, elas foram feitas umas com fôrmas de gesso, outras de alumínio, e depois foram recortadas com tesouras para obter as folhas da seringueira, que têm esta forma. Eu intuía a relação que os acreanos têm com a seringueira, mas não imaginava que era tão profundo, tão significativo e simbólico o trabalho da seringueira com o povo do Acre. Eu trabalhei com seringueiros do Acre. Eles não eram bem seringueiros, mas dois deles tinham sido quando jovens, quando estavam na adolescência. Eles trabalhavam em diferentes seringais ali do Acre. Depois eles me disseram que havia sido muito legal ter voltado a trabalhar com o látex, mas de outra forma. Não estavam pegando o látex da seringueira, mas levando látex para a seringueira, como se fosse uma maneira de devolver o látex que sempre tinham tirado da seringueira. Era uma idéia bastante legal. Tudo o que eu fazia trazia um monte de lembranças para as pessoas que viam o projeto. Muitas pessoas se aproximaram, por exemplo, o João, que se aproximou para ver o que eu estava fazendo com a seringueira. "O que você vai fazer?", ele me perguntou, "eu vou banhar isso em látex para fazer uma cópia da pele da seringueira". "Que legal", disse o João, "eu trabalhei muitos anos com seringueira e também fui motorista do Chico Mendes". A história do Chico Mendes também foi abarcada, de alguma maneira. Eu não posso lidar diretamente com essas relações, mas a seringueira está evidentemente relacionada com a vida da floresta, com o desmatamento, com as emissões de gases, a ecologia. Eu não estou falando disso diretamente, mas o projeto permite essas interpretações. |
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