
José Arthur Giannotti: "A Bienal foi um aprendizado do olhar"Da Redação
Para o filósofo José Arthur Giannotti, a Bienal de São Paulo fechou o ciclo inaugurado pela semana de 1922 e educou o olhar de uma geração para a arte. Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ex-presidente do Cebrap e autor de "Trabalho e Reflexão" (Brasiliense), entre outros, Giannotti é doutor em Filosofia pela FFLCH-USP.
Leia a seguir depoimento dado à TV UOL, em julho de 2006. A Bienal fechou o ciclo aberto pela semana de 1922 A cidade era muito diferente. Nós, principalmente os jovens, nós ocupávamos a cidade em vários momentos, os monumentos como o Masp, a cinemateca, a discoteca, a biblioteca. O Oswald (de Andrade) era um dos monumentos que a gente visitava. Quando ele disse que a Bienal era o coveiro da Semana de Arte, eu acho que ele estava pensando também que era a realização da Semana de Arte e, portanto, ela terminava um ciclo. Obviamente ele estava com muito ciúme. A primeira Bienal - 1951 Para nós não era só um susto, era mais. Era um monte de coisas que a gente não sabia muito interpretar. Porque nós não tínhamos ainda uma coleção boa de arte, está certo? Estávamos começando com o Masp, estávamos aprendendo a ver. Eu não tinha viajado ainda, portanto eu não tinha ainda nenhuma freqüentação de museu e você ver aquela monstruosidade toda ela exposta era muito desnorteante. Você precisa começar a localizar para educar o seu olho. A segunda Bienal - 1953 A Bienal que mais me impressionou _e a muita gente_ é aquela que veio a grande exposição Picasso, que vem "Guernica". Você tem contato extremamente forte com uma arte que para nós era uma novidade, uma arte ao mesmo tempo realista, impressionista, enfim, que resumia todo o processo de arte que a gente sabia pelos livros. A gente aprendeu ao ver muita coisa. Eu aprendi por ver muita coisa. Os primeiros Morandis que nós vimos. Eu me arrependo até hoje, eu deveria ter comprado um. Como foi que eu deixei passar esta oportunidade? Eu era pobre, garoto, mas se a gente fizesse uma vaquinha dava para comprar um Morandi. A exposição do Beuys foi muito interessante, porque aí mostrava como a ruptura que a gente via aos pedaços, quando veio o Pop-Art, assim por diante... o Beuys era realmente algo que tinha uma força sintética que as outras coisas não tinham. Pelo fato de as representações serem nacionais vinha um monte de porcaria, como vem até hoje. Aliás, é normal que venha uma porcaria porque se você faz um balanço do que foi feito em arte em dois ou três anos, obviamente a porcariada vem à tona. O aprendizado do olhar Não havia essa loucura do curador ser o autor da Bienal. Havia uma série de representações, e, portanto, a dificuldade era você passar pela Bienal e ir descobrindo coisas. Aos poucos, você passava duas, três, quatro vezes e você ia localizando o que era bom. Eu insisto muito nesse fato, a Bienal foi um aprendizado do olhar para todos nós. A arte americana Uma das coisas mais interessantes foram várias experiências com a arte americana, certo? Porque nós éramos muito franceses, em particular em filosofia. Eu lembro do Foucault nos dizendo que nós nada mais éramos do que um departamento francês de ultramar. Então, o fato de a gente começar a perceber que havia uma arte importante nos Estados Unidos, e que portanto havia um outro pólo que estava se construindo, com arte moderna, como arte moderna, assim por diante, acho que foi algo muito importante, muito interessante. Necessidade das retrospectivas Acho que a Bienal tem muito sentido para nos apresentar aquilo que está sendo feito de arte nos últimos dois anos, as novidades, assim por diante. E evidentemente não é possível pensar em Bienal sem retrospectiva, porque dá justamente a comparação, e mais ainda, é uma oportunidade, uma linda oportunidade que a gente tem de ver obras em grande escala. Aliás, quando você vê uma boa retrospectiva, o conhecimento que você tem de um único ou de dois quadros de um artista muda muito. Eu acabei de ver uma retrospectiva do Ingres em Paris, que é muito interessante, porque mostra um pintor que é maravilhoso quando faz seus nus e seus retratos, mas que é um pintor pavoroso quando vira ideológico e começa a pintar Napoleão, Júpiter, assim por diante. Essa combinação das duas coisas a meu ver é muito importante. A Bienal tem que ter isso, principalmente em um espaço que ainda é muito restrito como o espaço brasileiro. Arte é reflexão O desaparecimento da arte representativa, ou melhor, a diminuição da arte representativa, que acabou todo um processo figurativo que veio do Renascimento até o século 19, é evidente. Em compensação, acho que a multiplicidade das manifestações estéticas e dos instrumentos ganhou tal grandeza que é muito difícil você simplesmente dizer que a arte está morrendo. Em particular, dizem que a arte está morrendo porque ela se tornou uma espécie de reflexão sobre si mesma. Então, o Hegel, coitado, é citado a todo momento, na medida em que a arte, ao chegar a refletir sobre si mesma, vira uma espécie de filosofia. Isso tem sentido em uma filosofia da representação contra a filosofia da representação, mas não tem sentido falar isso abstratamente. Por quê? Porque sempre a arte é uma reflexão, se não for sobre si mesma, pelo menos sobre o objeto que ela está focando. A junção com o mercado mantém a arte viva A mercantilização da obra de arte traz um desgaste enorme para os objetos estéticos, mas traz, em compensação, uma possibilidade de comunicação e de abertura de horizontes que é extraordinária. Eu lembro sempre o que era eu ir a discoteca dos anos 50 e andar da minha casa até atrás da rua Florenço de Abreu para poder ficar quarenta minutos dentro de uma cabine para ouvir alguma coisa diferente, e hoje eu vou numa grande livraria e eu tenho a história da arte presente, mais ainda com autores que eu nuca imaginei que eu iria ouvir. Então essa co-presença da obra de arte, de toda a história da obra de arte, dá justamente um sentido diferente à obra de arte, mas não é porque ela é muito diferente que ela está morta, pelo contrário, a arte a meu ver está em plena vitalidade. Em particular porque se conseguiu juntar o mercado com a obra de arte. O artista é um construtor A arte é questionamento. A arte é você pegar um objeto qualquer e questioná-lo, mostrar como ele é. Ele pode ser visto, por exemplo, dos mais diferentes aspectos. O que é um quadro cubista? É pegar o objeto e botá-lo em um caleidoscópio. E fazer com que ele seja visto por uma perspectiva, que não é a perspectiva divina, mas em compensação é uma perspectiva centrífuga, que abre a visibilidade ao mesmo tempo em que a encerra num quadro, num quadrado. Então isso é uma questão. O artista não faz um decalque da realidade, nem um decalque de suas emoções. Ele é, antes de tudo, um construtor. A arte escapa dos domínios da realidade Eu acho que a grande vantagem da arte é que ela mostra, mesmo em um filme mais realista, uma tal crueza numa situação, que ela nos obriga a pensar em alternativas. Nesse filme, "Paradise Now", você vê como dois jovens se tornam terroristas e ao mesmo tempo vê todo o drama do povo palestino. Ao ver isso, coisa que é muito diferente de você ler uma notícia ou você ver uma cena na televisão, você diz "isto tem que mudar". Você começa a mudar e já sabe mais ou menos onde tem que mudar. É preciso fazer com que as pessoas recuperem as suas dignidades, que elas também possam ser artistas e que elas possam portanto imaginar mundos possíveis, diferentes do mundo atual. A grande vantagem da arte, a meu ver, é que ela escapa dos domínios da realidade. |
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