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Bienal fez "desinfecção" do nome para exibir Daspu, critica Maria Galindo

Da Redação

Site oficial Mujeres Creando (www.mujerescreando.org)

Obra de Maria Galindo na 27ª Bienal de São Paulo

Obra de Maria Galindo na 27ª Bienal de São Paulo

A fundadora do coletivo feminista "Mujeres Creando", Maria Galindo, costuma definir o "Mujeres" como uma estratégia de luta que tem como motor a criatividade. "Particularmente, devo esclarecer que nós qualificamos nosso trabalho de maneira deliberada como fora do mundo da arte", disse Maria Galindo ao UOL, em entrevista.

Paradoxalmente, com uma sala na 27ª Bienal Internacional de São Paulo, o coletivo está, pela primeira vez, no cenário oficial das mostras de arte. Apesar de considerar a proposta interessante, a artista faz críticas ao ambiente da mostra, lamenta a espetacularidade do evento e o tratamento dado à exposição do coletivo Daspu.

Site Mujeres Creando

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A artista entrega rosas durante evento pró-lesbianismo em La Paz, Bolívia (2006)

Nascida em 1964, Maria Galindo é professora de sociologia da Universidade Maior de San Andrés, em La Paz, Bolívia. Escreveu vários livros sobre sexualidade e realizou pesquisas com movimentos sociais. Dirigiu as séries televisivas "Creando Mujeres" e "Mama no me lo dijo" e realizou o documentário "Exiliadas del neoliberalismo", sobre as mulheres que imigram para a Espanha. Atualmente se dedica a um projeto que questiona o indigenismo e num livro em cooperação com o Museu de Arte Contemporâneo de Castela.

A seguir, trechos da entrevista de Maria Galindo:

Releitura da sociedade boliviana

O trabalho que apresentei na Bienal de São Paulo é uma releitura da história da sociedade boliviana e das encruzilhadas históricas perante as quais ela se encontra. Realizei esta releitura a partir do arquivo de fotografias de Julio Cordero, um fotógrafo autodidata e não-reconhecido na sociedade boliviana. Seu arquivo nos dá uma visão muito rica sobre a sociedade, pois ele teve a oportunidade de cobrir todos os aspectos da vida social. Por isso, para esta releitura escolhi alguns grupos fotográficos: as fotos da classe dominante vista através de suas festas; as fotos do grupo policial extraídas dos registros policiais para os quais Cordero trabalhava como fotógrafo (neste grupo estão mulheres em situação de prostituição, meninas ladras, índias etc.); as fotos dos insurgentes indígenas do século 19; as fotos da campanha do Acre.
A visão deste conjunto nos permite repensar o processo de mudança que o continente latino-americano está enfrentando e sua relação com a utopia. Este grupo de fotos é acompanhado por quatro grafites no estilo que nós usamos para ocupar paredes de quatro cidades do país há mais de 10 anos. Por último, completam a proposta três cartas manuscritas dirigidas a Evo Morales de cada um dos personagens de época: um indígena sublevado, Zárate Willka, uma presa anônima e um soldado anônimo também da campanha do Acre.

Ambiente adormecido

Tenho impressões contraditórias sobre a Bienal. Por um lado achei muito interessante poder contar com um cenário deste tipo em nível latino-americano, pelo espaço em número de metros quadrados, por tratar-se da região latino-americana e pela quantidade assombrosa de público (cerca de 1 milhão) que poderia constituir-se em lugar importante de debate, de encontro, de confrontação e muito mais. Isto seria o que mais me impressionou. Não obstante, achei ao mesmo tempo uma tremenda espetacularidade, muito distante de um ambiente seja de diálogo ou de discussão, nem entre artistas e nem entre o público e nem a partir do público e nem partindo dos historiadores, críticos ou meios.

Neste sentido, senti um ambiente adormecido, que em momentos transforma o ambiente da Bienal quase que uma imensa quantidade de zumbis que percorrem seu lindo espaço em um estado de adormecimento profundo e que
Se movem em busca de algo que tampouco sabem definir.

É como se estivéssemos satisfeitos e acomodados com o mero espetáculo, é como engolir fast food e pensar que você tenha se alimentado quando só engordou.

Neste contexto, senti uma tremenda sensação de solidão e momentos de desgosto. Por outro lado, o ego artístico - ainda hoje não superado - faz do ambiente de montagem também um ambiente sonâmbulo e egocêntrico.
A Bienal me fala então de dispersão, de sonambulismo, de espetacularidade, de desencontro. Os ícones históricos presentes, como Ana Mendieta, Matta-Clark e outros, fazem testemunhos mudos e surdos deste presente adormecido, desta oportunidade que é hoje derramada no espetáculo e na pompa.

"Como viver junto"

O tema me parece absolutamente falso e insuficiente, digno da superficialidade com a qual hoje em dia se fala de política, de democracia, do outro ou de justiça. Me desagradou muito e sem dúvida não passou de umas quantas letras - que já não seduzem ninguém - escritas num letreiro.

Conexão com outros trabalhos

O crítico que me convidou quis fazer uma conexão entre as fotografías da época e o trabalho de Helio Melo. Creio que a conexão é interessante porque ambos - Helio Melo e Cordero - estão vendo suas sociedades de baixo. Em outro contexto, o trabalho de Superflex me pareceu maravilhoso, por solapar os limites da própria Bienal na censura, no jogo de interesses ou a não inocuidade da criação me pareceram fundamentais e creio que a sua participação teve a virtude de deixar isso em evidência com absoluta clareza e ao mesmo tempo sacudir a acomodação fácil em que muitos artistas caíram aprisionados.

Não creio que o trabalho do Superflex esteja diretamente vinculado com meu trabalho e o de Mujeres Creando e menos ainda com o planejado na Bienal, mas senti uma conexão com a postura de criatividade com um instrumento de mudança social que remove e comove, que se nega a reciclar a dominação e que não se faz cúmplice.

Daspu

O trabalho presente na Bienal que me pareceu mais interessante foi o da Daspu, o coletivo de mulheres em situação de prostituição no Brasil com suas três ou quatro camisetas, o vestido de noiva e a cronologia dos desfiles.

Considero, no entanto, que a curadoria deste trabalho levou adiante o trabalho de "desinfecção", uma vez que o pano de fundo maravihoso da história do nome que as coloca no centro da contestação social no Brasil ficou de fora, como se este fato estivesse fora da criação da qual elas são protagonistas.

Papel das Bienais e das grandes mostras

Acho que não se pode ser ingênuo de pensar que estas grandes mostras tenham um papel de antemão. Tudo depende de em que mãos caiam os fios de poder destes locais, que são cenários de poder sobre a representação, a criatividade, a criação e o que se considera ou legitima como arte. Particularmente, devo esclarecer que nós qualificamos nosso trabalho de maneira deliberada como fora do mundo da arte, alheio ao mundo da arte.
O trabalho de Superflex com o Guaraná Power esteve na Bienal de Veneza e quando entrou na Bienal de São Paulo sofreu a censura mais descarada. A primeira resposta seria que em Veneza tiveram mais espaço. E a resposta mais desconfiada seria que em Veneza este trabalho era mais inócuo que no Brasil, onde a Amazônia, o guaraná e os indígenas que o cultivam estão a uns quantos quilômetros da Bienal e com o mesmo rótulo, o que teria transformado a Bienal, de maneira imediata e direta, em uma plataforma de propaganda da maravilhosa bebida que produzem.

Por outro lado, considero que neste momento não há nenhum espaço puro que tenha um só significado. Creio que tudo está interligado e que por isso toda esquina de ressonância e de cumplicidade é muito importante.
Creio também que espaços que nos permitem concentrar várias vertentes em todos os sentidos possíveis podem influir na capacidade de nos dar uma perspectiva.

Em relação à Bienal de São Paulo e à capacidade de nos olharmos diretamente a partir do Sul, tenho muitas dúvidas. Creio que há um filtro legitimador Norte-Sul que é direta responsabilidade das elites culturais do Sul e suas mentalidades neocoloniais. Fiquei surpresa com convite e destaco que foi a primeira vez que um cenário latino-americano me abriu suas portas para mostrar um trabalho que teve que viajar normalmente até o Norte e que chegou às mãos do crítico que me convidou justamente através de uma publicação realizada na Espanha. Quase seguindo uma rota obrigatória.

Impressões sobre o Brasil

A imensa e grave desigualdade social que vi me impactar todo o tempo e isso porque venho de uma sociedade como a boliviana. Poder perceber outro olhar na gente da rua me impressionou muito também, sentir medo na rua, um medo que me transmitiram com muita normalidade choferes de táxi, recepcionistas, etc.

Na Bolívia, sinto que, sobretudo os pobres, através de muitas estratégias, tomaram muitos espaços da rua e geraram um espaço próprio. Em São Paulo, - ainda que eu não tenha conhecido realmente muito - senti que se você não tem uns centavos no bolso, você está jogado na esquina, como um pedaço de papel. O contraste com os helicópteros transportando os importantes e com o luxo mais alto ficou gravado: São Paulo como cidade para ver através das janelas de um andar alto de um edifício, sem poder pisar na calçada.