
Mario Navarro revela fraturas históricas da AL através de tecnologias datadasDa Redação
Mario Navarro nasceu em Santiago do Chile, em 1970, no ano em que Salvador Allende (1908-1973) assumiu a presidência da República do país, pela coalizão de esquerda Unidade Popular. Três anos depois, um golpe de Estado sangrento apoiado pelos Estados Unidos acabou com o governo que nacionalizou bancos, minas de cobre e indústrias e promoveu uma reforma agrária, medidas adotadas por Allende para promover o socialismo.
O choque do terror que transbordou as fronteiras do Chile e atingiu os sonhos de democracia nos países da América Latina e a ditadura de Augusto Pinochet que se seguiu ao golpe - e que durou 17 anos - têm ecos na obra de Navarro. Seus trabalhos como artista são objetos, fotos, gravuras, vídeos e instalações que dão ressonância a questões políticas. Em 2003, montou o projeto de arte pública "Radio Ideal", que instalou equipamentos eletrônicos em um trailer, de base para a realização de transmissões em freqüência FM e apresentações ao vivo em diferentes pontos da cidade. O trabalho aproximava o funcionamento das atuais rádios comunitárias às transmissões clandestinas que aconteceram no Chile, como parte da resistência à ditadura militar. Licenciado em Artes pela Universidade Católica de Chile, o artista curou a exposição "Transformer", em 2005, na qual foram exibidos trabalhos de artistas chilenos que abordam o período de transição democrática do país. Atualmente Navarro trabalha como artista e curador para uma exposição em Nova York intitulada Daniel Lopez Show ("Daniel Lopez" era o pseudônimo de Pinochet para transações financeiras fraudulentas). Um mês após a abertura da mostra, Mario Navarro reflete sobre seu trabalho e a participação na Bienal de São Paulo na entrevista que segue. (Mara Gama) UOL - Qual a sua relação com o Brasil? Mario Navarro - Já estive várias vezes no Brasil. Minha primeira viagem foi a Porto Alegre, para a Bienal (do Mercosul), depois a Fortaleza para outra exposição. Também estive em Porto Seguro e no Rio de Janeiro para férias. Tenho um sentimento muito especial com o Brasil porque o Chile é totalmente o contrário em relação às relações sociais, embora sejamos todos sul-americanos. O que sempre me impressiona nos brasileiros, desde as classes mais abastadas até as mais despossuídas, é a generosidade que expressam, com seu corpo, para além de suas ações concretas. UOL - Como foi participar da 27ª Bienal de São Paulo? Navarro - Realizei duas obras. A primeira tem o título de "Red Diamond" e corresponde a um módulo escultórico baseado no primeiro satélite brasileiro, posto em órbita no fim da década de 70. Este projeto também toma como referência o projeto Cybersyn ( www.cybersyn.cl) realizado no Chile em 1971. O Cybersyn desenvolveu um modelo de comunicação em tempo real com o objetivo de controlar a produtividade das indústrias do Estado através de uma sala de controle similar às que foram desenvolvidas na Segunda Guerra Mundial. Ambas as referências abordam o desejo da América Latina de sair do isolamento que o subdesenvolvimento mostrava e, simultaneamente, observa "Como Viver Junto" através de projetos tecnológicos. A segunda obra se chama "The new ideal line (opala)" e se refere especificamene ao Chevrolet Opala fabricado no Brasil desde o final dos anos sessenta até meados dos oitenta. Este veículo, exportado a muitos países da América Latina, representa, no Chile, um caráter político completamente definido pelo terror, pelos desaparecimentos e sequestros realizados durante a ditadura de Pinochet. Nos demais países, e especialmente do Brasil, a maneira de ver este carro é totalmente diferente e está muito mais ligada à condição doméstica e familiar. Por isso mesmo, meu interesse é comparar, através de um exemplo de tecnologia local latino-americana, os diferentes comportamentos sociais de nossa região. UOL - Você esteve na abertura. Quais suas impressões sobre a mostra? Navarro - Estive dez dias para montar minhas obras e para ver a recepção por parte do público. Sobre a Bienal, minha percepção é que a exposição abarca problemas realmente contemporâneos e expressa através de uma curadoria comprometida com como os artistas escolhidos observam seu entorno. Este ponto para mim é muito relevante, porque diferentemente da bienal anterior, onde a maioria dos projetos observavam de uma maneira muito tangencial o contexto em que se desenvolve a Bienal, nesta oportunidade os artistas estão particularmente interessados um fazer uma conexão direta. Penso que isto é claramente percebido pelo público e, por isso mesmo, junto com a entrada gratuita, a assimilação das obras vai além de um espetáculo de massas para o fim de semana. UOL - Como entendeu o tema "Como Viver Junto"? Navarro - Mais que um tema, acho que a frase escolhida por Lisette Lagnado é um sintoma transcultural e totalmente contemporâneo. É a forma de vivermos hoje apesar do caráter globalizante da cultura contemporânea. A frase de Barthes não somente interroga a condição atual das relações sociais, mas também apela a uma definição pessoal e a opiniões particulares sobre como cada pessoa se desenvolve em seus próprios micro-territórios. UOL - Que outros trabalhos da Bienal estabelecem diálogo com o seu? Navarro - Principalmente as obras de Thomas Hirschorn, Fernando Ortega, Dominic Gonzalez-Forster, Armando Andrade Tudela e projetos como o do Taller Popular de Serigrafia, precisamente porque eles fazem uma observação super específica e profunda sobre suas próprias realidades e as adaptam e recontextualizam nesta Bienal. UOL - Quais foram as obras mais interessantes da Bienal na sua opinião? Navarro - Para mim foram as apresentadas por Meschac Gaba, porque são trabalhos extraordinariamente sensíveis sobre como se pode compreender o frágil e o precário das relações sociais, tanto no Brasil, através de sua obra realizada com açúcar, e do continente africano, relacionado com sua obra em exibição no segundo piso do pavilhão. UOL - Qual a importância de grandes mostras como as Bienais e a documenta de Kassel hoje? Navarro - Acho que estes grandes eventos deveriam ter uma pauta mais experimental, já que podem redefinir a noção atual de bienal tão desgastada e utilizada principalmente como respaldo para a visibilidade de diferentes cidades no contexto internacional. Sabemos que São Paulo de certa forma fez isso através das residências para artistas, e Kassel com sua nova proposta editorial para o catálogo da mostra. Espero que em Veneza mudem o método de trabalho e se incorpore cada vez mais uma dinâmica mais próxima do simbólico. UOL - Em que está trabalhando no momento? Navarro - Continuo interessado em projetos tecnológicos desenvolvidos para contextos totalmente carentes de tecnologia. Minha investigação atual se baseia no "Reporte Eames" realizado na Índia nos anos cinqüenta pelos designers Charles & Ray Eames para dotar aquele país de um instituto tecnológico. Espero poder exibir os resultados desta investigação ao fim de 2007 em Ghent, na Bélgica. O mais imediato é uma mostra em Nova York onde além de artista sou curador e que se chama Daniel Lopez Show (Daniel Lopez era o pseudônimo de Pinochet para transações financeiras). |
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