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Mario Navarro revela fraturas históricas da AL através de tecnologias datadas

Da Redação

Divulgação

Obra do artista chileno que está exposta na 27ª Bienal de Arte de São Paulo

Obra do artista chileno que está exposta na 27ª Bienal de Arte de São Paulo

Mario Navarro nasceu em Santiago do Chile, em 1970, no ano em que Salvador Allende (1908-1973) assumiu a presidência da República do país, pela coalizão de esquerda Unidade Popular. Três anos depois, um golpe de Estado sangrento apoiado pelos Estados Unidos acabou com o governo que nacionalizou bancos, minas de cobre e indústrias e promoveu uma reforma agrária, medidas adotadas por Allende para promover o socialismo.

O choque do terror que transbordou as fronteiras do Chile e atingiu os sonhos de democracia nos países da América Latina e a ditadura de Augusto Pinochet que se seguiu ao golpe - e que durou 17 anos - têm ecos na obra de Navarro.

Seus trabalhos como artista são objetos, fotos, gravuras, vídeos e instalações que dão ressonância a questões políticas. Em 2003, montou o projeto de arte pública "Radio Ideal", que instalou equipamentos eletrônicos em um trailer, de base para a realização de transmissões em freqüência FM e apresentações ao vivo em diferentes pontos da cidade. O trabalho aproximava o funcionamento das atuais rádios comunitárias às transmissões clandestinas que aconteceram no Chile, como parte da resistência à ditadura militar.

Licenciado em Artes pela Universidade Católica de Chile, o artista curou a exposição "Transformer", em 2005, na qual foram exibidos trabalhos de artistas chilenos que abordam o período de transição democrática do país.

Atualmente Navarro trabalha como artista e curador para uma exposição em Nova York intitulada Daniel Lopez Show ("Daniel Lopez" era o pseudônimo de Pinochet para transações financeiras fraudulentas).

Um mês após a abertura da mostra, Mario Navarro reflete sobre seu trabalho e a participação na Bienal de São Paulo na entrevista que segue. (Mara Gama)

UOL - Qual a sua relação com o Brasil?
Mario Navarro - Já estive várias vezes no Brasil. Minha primeira viagem foi a Porto Alegre, para a Bienal (do Mercosul), depois a Fortaleza para outra exposição. Também estive em Porto Seguro e no Rio de Janeiro para férias. Tenho um sentimento muito especial com o Brasil porque o Chile é totalmente o contrário em relação às relações sociais, embora sejamos todos sul-americanos. O que sempre me impressiona nos brasileiros, desde as classes mais abastadas até as mais despossuídas, é a generosidade que expressam, com seu corpo, para além de suas ações concretas.

UOL - Como foi participar da 27ª Bienal de São Paulo?
Navarro - Realizei duas obras. A primeira tem o título de "Red Diamond" e corresponde a um módulo escultórico baseado no primeiro satélite brasileiro, posto em órbita no fim da década de 70. Este projeto também toma como referência o projeto Cybersyn ( www.cybersyn.cl) realizado no Chile em 1971.

O Cybersyn desenvolveu um modelo de comunicação em tempo real com o objetivo de controlar a produtividade das indústrias do Estado através de uma sala de controle similar às que foram desenvolvidas na Segunda Guerra Mundial. Ambas as referências abordam o desejo da América Latina de sair do isolamento que o subdesenvolvimento mostrava e, simultaneamente, observa "Como Viver Junto" através de projetos tecnológicos.

A segunda obra se chama "The new ideal line (opala)" e se refere especificamene ao Chevrolet Opala fabricado no Brasil desde o final dos anos sessenta até meados dos oitenta. Este veículo, exportado a muitos países da América Latina, representa, no Chile, um caráter político completamente definido pelo terror, pelos desaparecimentos e sequestros realizados durante a ditadura de Pinochet. Nos demais países, e especialmente do Brasil, a maneira de ver este carro é totalmente diferente e está muito mais ligada à condição doméstica e familiar.

Por isso mesmo, meu interesse é comparar, através de um exemplo de tecnologia local latino-americana, os diferentes comportamentos sociais de nossa região.

UOL - Você esteve na abertura. Quais suas impressões sobre a mostra?
Navarro - Estive dez dias para montar minhas obras e para ver a recepção por parte do público. Sobre a Bienal, minha percepção é que a exposição abarca problemas realmente contemporâneos e expressa através de uma curadoria comprometida com como os artistas escolhidos observam seu entorno. Este ponto para mim é muito relevante, porque diferentemente da bienal anterior, onde a maioria dos projetos observavam de uma maneira muito tangencial o contexto em que se desenvolve a Bienal, nesta oportunidade os artistas estão particularmente interessados um fazer uma conexão direta.

Penso que isto é claramente percebido pelo público e, por isso mesmo, junto com a entrada gratuita, a assimilação das obras vai além de um espetáculo de massas para o fim de semana.

UOL - Como entendeu o tema "Como Viver Junto"?
Navarro - Mais que um tema, acho que a frase escolhida por Lisette Lagnado é um sintoma transcultural e totalmente contemporâneo.
É a forma de vivermos hoje apesar do caráter globalizante da cultura contemporânea. A frase de Barthes não somente interroga a condição atual das relações sociais, mas também apela a uma definição pessoal e a opiniões particulares sobre como cada pessoa se desenvolve em seus próprios micro-territórios.

UOL - Que outros trabalhos da Bienal estabelecem diálogo com o seu?
Navarro - Principalmente as obras de Thomas Hirschorn, Fernando Ortega, Dominic Gonzalez-Forster, Armando Andrade Tudela e projetos como o do Taller Popular de Serigrafia, precisamente porque eles fazem uma observação super específica e profunda sobre suas próprias realidades e as adaptam e recontextualizam nesta Bienal.

UOL - Quais foram as obras mais interessantes da Bienal na sua opinião?
Navarro - Para mim foram as apresentadas por Meschac Gaba, porque são trabalhos extraordinariamente sensíveis sobre como se pode compreender o frágil e o precário das relações sociais, tanto no Brasil, através de sua obra realizada com açúcar, e do continente africano, relacionado com sua obra em exibição no segundo piso do pavilhão.

UOL - Qual a importância de grandes mostras como as Bienais e a documenta de Kassel hoje?
Navarro - Acho que estes grandes eventos deveriam ter uma pauta mais experimental, já que podem redefinir a noção atual de bienal tão desgastada e utilizada principalmente como respaldo para a visibilidade de diferentes cidades no contexto internacional.

Sabemos que São Paulo de certa forma fez isso através das residências para artistas, e Kassel com sua nova proposta editorial para o catálogo da mostra. Espero que em Veneza mudem o método de trabalho e se incorpore cada vez mais uma dinâmica mais próxima do simbólico.

UOL - Em que está trabalhando no momento?
Navarro - Continuo interessado em projetos tecnológicos desenvolvidos para contextos totalmente carentes de tecnologia. Minha investigação atual se baseia no "Reporte Eames" realizado na Índia nos anos cinqüenta pelos designers Charles & Ray Eames para dotar aquele país de um instituto tecnológico. Espero poder exibir os resultados desta investigação ao fim de 2007 em Ghent, na Bélgica. O mais imediato é uma mostra em Nova York onde além de artista sou curador e que se chama Daniel Lopez Show (Daniel Lopez era o pseudônimo de Pinochet para transações financeiras).