
Premiado na 1ª Bienal, Caciporé Torres fala da experiênciaDa Redação
O artista Caciporé Torres, premiado na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, fala sobre sua experiência.
1ª Bienal Eu sempre me senti um cara privilegiado porque eu cresci num ambiente intelectual e artístico. Meu pai era jornalista, intelectual, escritor e minha mãe também. Então eu sempre convivi com artistas e muito cedo eu despertei para o setor de artes. Vendo o Di Cavalcanti trabalhar, eu ficava no ateliê dele, com 7, 8 anos, desenhando. Quer dizer, eu me condicionei muito facilmente, sem sentir, no setor das artes e na escultura eu me descobri muito cedo, porque eu tinha muito mais noção de volume do que de cor. O grande acontecimento da época foi a 1ª Bienal, eu me arrisquei a mandar cinco trabalhos, mas sem a menor convicção de que poderia entrar. E eu consegui entrar com todos os trabalhos e ganhei um dos prêmios mais importantes da Bienal que era o prêmio viagem à Europa. A primeira Bienal foi muito interessante porque vieram onze críticos do mundo inteiro. Só tinha o Santa Rosa que era o representante brasileiro e o Ciccillo que era o presidente. Mas quem selecionava os trabalhos eram os críticos da Inglaterra, da França, da Itália, do Uruguai, da Argentina. Eram críticos completamente isentos de qualquer ligação com a arte brasileira, aí houve a grande seleção nacional. Eu expus na primeira Bienal com calça curta e aí me profissionalizei, passei dois anos na Europa, voltei ao Brasil, fiz uma individual no Museu de Arte, que ainda era na Rua 7 de Abril, voltei, passei mais seis anos na Europa. Quer dizer, foi o meu começo, então eu tenho um grande ponto referencial na primeira Bienal e nas bienais. A semana de 22 A Semana de 22 foi uma coisa episódica, que serviu depois para levar artistas como Tarsila, Anita para Europa e depois voltar. Os intelectuais como Oswald, Mário de Andrade desenvolveram o movimento, mas a Bienal foi um acontecimento internacional e a vantagem é que o Ciccillo teve sensibilidade para não criar problemas nacionais de vaidade, de crítica, e convidou críticos internacionais. Até a implantação da primeira Bienal pelo Ciccillo Matarazzo, a arte no Brasil não tinha um ponto referencial. Depois da semana de 22, não havia mais nenhum ponto referencial. Todos os artistas que tinham pertencido àquela geração ou que pelo menos tinham trabalhado, tinham exposto, se consideravam os expoentes máximos e eram realmente os expoentes máximos da arte brasileira, mas não havia um ponto referencial seletivo. E com a primeira Bienal, houve. 2ª Bienal Aí eu ganhei esse prêmio de viagem à Europa, fiquei dois anos na Europa, na França e na Itália toda, eu conheci diversas cidades italianas e mandei trabalhos para a 2ª Bienal, já mais amadurecido, relativamente ainda era garoto e ganhei o segundo prêmio na Bienal. Eu localizo a exposição da "Guernica", mas eu como expositor estava correndo, não tinha uma capacidade analítica do problema social da coisa. Mas mesmo assim era uma minoria que vinha. Naquela época ainda era um pouco elitista, como até hoje, a arte no Brasil não conseguiu chegar nem na classe média. A arte no Brasil chegou nas camadas altas. Então, você tem uma sensibilidade social, você fica até mal de ver que não atingiu novas camadas, somente aquelas camadas antes elitistas e intelectuais e hoje nem têm nível intelectual e sim nível econômico grande. Influências positivas Foi muito importante esse contato e serviu para os artistas terem pontos de referência, não só vendo as obras dos grandes nomes, como para se identificarem, ou até sugerir problemas que eles começaram a desenvolver, não imitar propriamente, mas a tecer pontos referenciais. Havia uma galeria ou duas em São Paulo, que era sempre o lugar mais destacado, e no Rio idem. Então abriu um novo universo para os artistas brasileiros que não tinham a oportunidade de ir à Europa constantemente. Porque a viagem à Europa era sempre cara e complicada. Ciccillo Matarazzo Ele era uma pessoa encantadora, muito charmosa e teve a sensibilidade que a maioria dos industriais não tiveram. Porque ele, como industrial, queria aparecer não como industrial, mas como mecenas das artes e apareceu de uma maneira fantástica. Era um colecionador de obras clássicas e depois entendeu que tudo tem a sua época, o seu momento, e depois passou a ser colecionador de obras nacionais, principalmente obras contemporâneas. Então, o Ciccillo era uma figura maravilhosa que deveria ser imitada hoje pelos milionários brasileiros, grandes industriais, que não se preocupam em nada, em promover a arte, em adquirir trabalhos. Eles adquirem mais bens, carros, e não arte. Panorama atual Eu acho que nós estamos numa fase em que não há nenhuma escola definida, uma tendência definida. Até um vale tudo um pouquinho, mas é a tendência, é como é um pouco na moda. Não é mais saia curta, evasê, vale tudo, depende da instituição. Dentro de todas as tendências, você vê hoje que é um bric-a-brac. Você vê um figurativo expressionista, vê um abstrato... O importante, na minha opinião, é os artistas voltarem para o ateliê, que hoje eles não ficam mais no ateliê. Eles têm que ser o marchand deles, têm que fazer o trabalho, então daí essa dispersão, essa loucura, que ninguém fica no ateliê, fica fazendo marketing nos espaços públicos, nos jantares. Mais ou menos é isso. |
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