
"A Bienal de 1969 quebrou a moldura da arte", diz Tom ZéDa Redação
Tom Zé acha que o jogador César, que jogava no Palmeiras em 1969, devia ser promovido. "Ele não foi só jogador de futebol, foi um artista de Bienal", diz. Para Tom Zé, César Maluco (apelido do jogador) fez para o futebol o mesmo que a Bienal estava fazendo naquele período: rompendo a moldura. César, a do campo de futebol, indo comemorar com a torcida. E a Bienal, a moldura da arte.
Leia a seguir o depoimento do músico Tom Zé sobre as bienais que mais marcaram sua vida e as descobertas de Andy Warhol, o pop, o kitsch e Alexander Calder. O Susto da 9ª Bienal Quando eu entrei na Bienal de 1967, que coisa, que susto, que surpresa. Parecia que as coisas que a gente podia sonhar que eram brincadeiras estavam lá. Ainda mais nós, do Tropicalismo, que estávamos fazendo aquilo correspondente em música. Vou falar das coisas mais famosas que vocês naturalmente já ouviram falar. Andy Warhol e aqueles trabalhos com a fotografia da Marilyn Monroe, da Elizabeth Taylor, com a lata de sopa Campbells. Parecia que o seu quarto de brincar, de criança, tinha sido levado para lá. O Lichtenstein, com aquele negócio de quadrinhos, usando a técnica de quadrinhos. Tudo isso estava sendo inaugurado naquele momento. Quer dizer, tudo isso, essa coisa kitsch estava sendo transportada do mundo do uso para o salão de exposição com esse nome de kitsch, de coisa, digamos assim, simplória. Mas era uma maravilha ver aquilo, mesmo porque o Tropicalismo fazia uso dessa mesma coisa no repertório da música popular brasileira. Raushenberger com aquela tal colagem, como é que ele chamava? Assemblage. O Hopper, que a gente não conhecia e que era um pintor mais clássico, mas uma coisa emocionante, aquela criança do Hopper no cabeleireiro... Nossa, que coisa emocionante. Abençoada a Fundação Bienal que pode trazer e todos os artistas brasileiros daquele tempo. A arte de César Maluco E depois teve uma coisa que me impressionou muito na Bienal de 1969. Não teve grandes novidades estéticas, pelo menos assim na minha memória. Mas uma coisa que acontecia no Brasil, no campo de futebol, de repente começou a... eu não sei se vocês sabem, mas vocês nasceram quando o campo de futebol já não tinha a moldura. Antigamente os jogadores estavam presos, digamos assim, entre aspas, dentro do campo de futebol. Todas as ações e reações deles eram reações e ações com os outros jogadores. A ação e a reação de jogar, de fazer o gol, de tudo e de repente apareceu um cara louco chamado César, do Palmeiras, que era chamado de brincadeira de César Maluco e que fez uma coisa impressionante dentro do campo: ele quebrou a moldura do campo de futebol e comemorava o gol com a torcida. Nossa, isso era uma verdadeira arte, uma coisa absolutamente diferente. E, quando eu cheguei na exposição de 1969, foi que eu vim a perceber o que César fazia em campo. César podia ser promovido. Ele não foi só jogador de futebol, foi um artista de Bienal. Na Bienal de 1969, acontecia quase que recorrentemente nos artistas mais ou menos expressivos que estavam lá uma coisa que era a quebra da moldura. Mas um tipo de quebra da moldura que era simplesmente o quadro continuando depois da moldura. Vamos dizer que a moldura é minha mão, o quadro continuava depois da moldura. Lembra desses outdoors que a cabeça de uma pessoa está fora do outdoor? Isso foi o que aconteceu na Bienal de 1969. Foi a coisa que mais me impressionou assim, tatilmente, o que mais me pegou, por causa da coisa do César, da comparação com a coisa do César. E eu, inclusive, tentei muito trabalhar com essa coisa da música sair da moldura. É claro que a música já está aos bagaços na minha mão, mas começou quando eu, enfim, vi que essa coisa de sair da moldura era uma coisa que eu estava próximo, que eu já praticava desde criança, pelo fato de eu não ser um compositor com habilidade para fazer aquilo do mainstream, eu então só fazia coisas fora da moldura. Então eu comecei a brincar entrando e saindo da moldura. Nossa, essas bienais de São Paulo são uma maravilha! Quebrador de convenções Essa coisa da arte imitar certas coisas da guerra de guerrilha, que não tem o quartel no lugar certo, não tem o soldado fardado, que uma pessoa do povo passa a ser parte da arte ou passa a participar só pelo fato de consumir a arte, tudo isso foi instigante e foi alimentador, porque tudo o que eu vejo e que me interessa é claro que imediatamente eu começo a pensar isso no meu trabalho de música. Eu não sou um compositor engessado na música, nessa imagem de santo que está ali e que ninguém mexe naquilo, porque aquilo é sagrado, não. Eu sou um quebrador de convenções. Então todos esses caminhos da arte e o que a Bienal nos proporciona ver, já que traz o mais sofisticado do mundo e tal. Móbiles musicais Eu já ia me esquecendo de outra Bienal maravilhosa. Essa eu não vou saber qual, mas a que veio o camarada dos móbiles, o Alexander Calder. Esses móbiles, eu não sei se eles me influenciaram, ou me cozinharam por dentro. Quando eu fiz o tipo de música que eu lancei em 1976 e que depois refiz em 1991, porque David Byrne lançou nos Estados Unidos -vê como é, minha música não valia nada; lançou nos Estados Unidos e começou a valer. Está vendo como é o negócio do dinheiro? Começou a valer e voltou para o Brasil como se fosse valiosa. Já pensou se Santos Dumont tivesse feito aqui? E já pensou o que seria de mim se não fosse o David Byrne? Aí os americanos comparavam aquilo com outra coisa de Bienal também, que é o minimalismo do Glass, do Phillip Glass. E eu falei: bom já que vai comparar, essa música minha parece muito mais com os móbiles do Alexander Calder. Porque cada trecho musical que eu sobrepunha, um sobre os outros, tinha um tamanho, cada célula musical tinha um tamanho, logo um arco de movimento, uns às vezes muito grande, outras vezes menor e era como um móbile. E elas todas se moviam ao mesmo tempo, de forma que horizontalmente você já sabia aquela célula, mas verticalmente cada hora tinha um acorde, tinha uma coisa musical diferente. Foi isso que me fez artista no exterior, foi isso que deu aquele susto em David Byrne, alguma coisa que já estava no coração dele, no coração dos artistas do mundo, por causa do Alexander Calder, do móbile, que eu também vi numa Bienal. |
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