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Antoní Miralda: "O prato é como um símbolo, uma metáfora da cidade"

da Redação

TV UOL

O artista catalão Antoní Miralda fala à TV UOL (15/08/06)

O artista catalão Antoní Miralda fala à TV UOL (15/08/06)

O artista catalão Antoní Miralda, 64, participa pela segunda vez da Bienal de São Paulo --a primeira foi em 1983-- e traz à cidade sua obra em processo "Sabores e Línguas", uma grande instalação que reúne o que o artista chama de um "aparelho de jantar imaginário", fotos, desenhos e anotações sobre comida.

Para realizar esse trabalho, Miralda visitou diversas cidades da América. Nelas, visitou bares, restaurantes, mercados, casas, locais públicos e privados, a fim de fazer uma pesquisa sobre os hábitos e iconografias ligadas à alimentação local.

Nessas cidades, Miralda enviou ainda pratos brancos para pessoas voluntárias, artistas ou não, que criaram uma obra com a louça (pintando-a, fazendo colagens, desenhos etc).

Na 27ª Bienal de São Paulo, o catalão apresenta os pratos, imagens e anotações que coletou nas 11 cidades por que já passou (inclusive no Brasil, em Belém, Brasília, Rio, Salvador e São Paulo). Miralda pretende concluir a obra com o resultado do que coletar em 13 cidades.

Antoní Miralda começou a carreira nos anos 60, como fotógrafo. Desde o início, seu trabalho teve um cunho performático e utilizava a alimentação como tema recorrente. De 1986 a 1992, o artista realizou a série de instalações "Honeymoon", sobre um casamento hipotético da Estátua da Liberdade, em Nova York, e o Monumento a Colombo, em Barcelona.

Leia a seguir a íntegra do depoimento do artista:


ANTONÍ MIRALDA

O prato é como um símbolo, uma metáfora da cidade
"Sabores e Línguas" começa de uma experiência que eu vivi, digamos assim, através de meu próprio trabalho, desse projeto, através de exposições e de objetos que tinham que ver com o "comestível".

A súmula desses trabalhos e projetos me levou a este ponto, de pensar em um projeto que recapitulasse e organizasse meus próprios projetos e trabalhos, e que se ligasse com lugares diferentes.

"Sabores e Línguas" se estrutura assim: É uma investigação, uma pesquisa, um trabalho de equipe que pretende entender de onde vêm essas conexões com comida, em cada cidade, ou seja, perguntar às pessoas, investigar e anotar, registrar muitas imagens. Depois vem um trabalho de digestão, de concentração, e de como resumir, como editar essa informação, para realizar um trabalho gráfico, em forma de prato, que entre dentro de um prato, e faça parte de um prato, um prato que represente a cidade e seja como um retrato, um compêndio, uma imagem da cidade, como um resumo da cidade, e, a partir desse prato, passar a uma viagem. A viagem é confrontar a realidade do país, a cidade e as pessoas com a informação contida nesse prato.

A informação é extendida, soma-se e se transforma, enriquece-se e se critica, tudo isso ligado à idéia de diversidade. Fazer um prato só por cidade não tem sentido. Uma cidade como São Paulo, que conecta todas as diferentes culturas culinárias do país poderia ter 10, 12, 20, centenas de pratos. Ou seja, o prato é como um símbolo, uma metáfora da cidade.

Com o prato está a língua, que de certa maneira se conecta visualmente com essa idéia da língua como um símbolo do gosto, da comunicação, da linguagem, e também uns elementos escritos, umas anotações, como se fossem da minha agenda pessoal, baseadas nas observações feitas pelas pessoas. Ou seja, é um trabalho totalmente coletivo.

A comunicação com as pessoas faz parte intrínseca desse projeto. A pessoas têm que se sentir parte desse projeto artístico, é preciso que as pessoas sejam artistas, cada uma a seu jeito, e, sobretudo, é claro, que cada pessoa tenha essa liberdade de se expressar sobre o tema alimentar. A idéia é criar um aparelho de jantar imaginário, uma coleção de pratos ibero-americanos da qual já participam essas cidades (Caracas, México, Havana, Miami, Lima e Bogotá) de diferentes países pelos quais já passamos e que agora inclui também o Brasil.

Nas diferentes cidades que visitei, no Rio, Bahia (Salvador), Belém, Brasília e São Paulo, foram distribuídos um número de pratos. A idéia é que as pessoas recebam pratos brancos iguais, para dar unidade ao trabalho e dar essa idéia de banquete coletivo, e que as pessoas interpretam suas idéias através de diferentes elementos gráficos --colagem, grafismo, objetos, desenho, pintura. Ou seja, o prato é utilizado como um elemento de comunicação, como algo que contém memória, informação, e esse prato fará parte da exposição na Bienal.

Basicamente, a exposição da Bienal tem a coleção de pratos de diferentes cidades, de diversos grupo e diversas pessoas, não apenas artistas, mas qualquer pessoa pode intervir. Há também uma louza imensa em que as pessoas podem intervir, escrever frases, gracejos, provérbios, ditos populares, poesias, críticas, qualquer coisa que tenha a ver, e esse trabalho gráfico é registrado e passa a fazer parte do arquivo.

Depois há outro ingrediente da exposição, que é este panorama de imagens que faz parte dessa topografia culinário-urbana, que são as diversas imagens que temos registrado, tanto de comida quanto de lugares.

Mas não existiria "Sabores e Línguas" sem essa obra participativa, coletiva, e essa parte é a que tem mais força, pois é ela que vai aos poucos conectando, reunindo e entrelaçando essas diferentes obsessões, idéias e metáforas que as pessoas associam a esse tema.

Em cada cidade, me interessou poder sentir a cidade. A primeira visita que fiz em algumas cidades foi o mercado central ou municipal. Outra foram as ruas, para ver como se desenvolvem as vivências que sempre acabam comendo ou bebendo de pé.

Essas barraquinhas maravilhosas que existem em todos os lugares, que em Belém são maravilhosas, com as cadeiras em frente às comidas, e, que de certa maneira, vão se reorganizado à medida que as pessoas encontram o seu próprio espaço privado nesse espaço público. E como são as comidas, de acordo com a cultura da pessoa que as prepara, desde um tacacá, ou um caju... uma coisa mínima, como um bolinho de bacalhau. Como essas coisas são diferentes em cada cidade.

Também houve partes das cidades que visitamos, que sempre me interessaram por seu aspecto monumental, como o incrível cemitério vertical do Rio, visitamos restaurantes fast food, para ver como funcionam aqui, interiores de restaurantes, entramos em casas e fotografamos o interior de geladeiras. Enfim, desde o mais íntimo e ínfimo até o macro, que é o tecido da cidade.

O visual
Há certas estruturas, um certo "pattern", uma rede, um diagrama, que de certa maneira parece coincidir em muitas cidades. A maneira como a cidade em si tem uma maneira de organizar o espaço urbano em função da comida. Muitas vezes de maneira opulenta, com propaganda e imagens da comida que se vende, ou a bebida, a cerveja, associada à imagem da mulher, a fast food, ou então, de que maneira na cidade os cardápios se integram. O cardápio dos restaurantes pequenos, das barracas.

Isso está presente em todas as cidades. Acontece que em algumas cidades isso é feito com luminosos coloridos, em neon; em outras cidades isso é escrito a mão, numa louza, na fachada, as mensagens dos letreiros, os gráficos, os caminhões pintados com as comidas que vão para o mercado.

Há toda uma parte visual que está presente em todas as cidades, mas que muda muito. Se é um caminhão refrigerado com 16 rodas ou se é um caminhãozinho que leva cocos, um carrinho que leva milho. Quer dizer, conforme o status e a qualidade de vida da cidade, esses elementos que têm a ver com a estrutura da cidade, como o ambulante, estão presentes. E é interessante ver como eles coincidem, e como certos produtos muito clássicos --tanto no resto da América Latina como aqui-- estão em diversas cidades, mas apresentados de maneira distinta, mas sempre sobre rodas ou como parte do tecido urbano.

Comida como arte
Há uma consciência de preservação. De que as coisas estão sendo apenas devoradas pela globalização, mas estão sendo apagadas, sumindo da memória dos jovens. Então, acho que é muito importante estar presente neste momento debruçado sobre este tema. Claro, um mercado em si é uma obra de arte. Isso está muito claro. E a comida que comemos e cozinhamos, e que faz parte de toda essa memória acumulada de vivências, da família, da avó, de outras viagens, essa mistura maravilhosa, tudo isso é cultura e tem que ser mostrada como obra de arte.

A idéia do Museu da Comida nasceu em Barcelona, por ser um lugar que conecta o Mediterrâneo com o sul, com o norte da África, com todo o Oriente. Barcelona parece ser um lugar interessante para que haja uma sede. A princípio, no momento, o projeto do museu existe sem edíficio. Existe como fundação e como espaço-arquivo. A idéia é ter um espaço ativo e com energia.

E esse espaço atualmente existe, mas como atividade, não como edifício. Ou seja, não acho que seja preciso haver um "museu", mas sim que haja um espaço onde seja possível reunir-se para mostrar objetos e elementos que fazem parte desta iconografia popular, que são às vezes muito pequenos e sem importância, mas que merecem ser mostrados com um caráter museológico, com obras de arte.

Qualquer embalagem, qualquer elemento, qualquer informação que temos aqui ao nosso redor no mercado, acho que é importante situá-los em outro contexto. E esse contexto é o do museu. Pois essas obras que nos rodeiam, essa iconografia da comida, isso é obra de arte. Logo, acredito que precisam ter um espaço museológico --mas não o do museu clássico. Que seja um anti-museu, um estômago de informação, para poder digerir, para que se possa sentar em volta e degustar.

É um projeto em processo que pode acontecer em vários lugares. Não tem por que ter um espaço em Barcelona. Pode ter várias "cozinhas-satélites", em vários países, onde haja várias atividades, várias degustações, várias oficinas, e que tudo isso se conecte com o nome do museu e com a cultura da comida.