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Nuno Ramos: "A única vez que eu fui preso, foi por causa da Bienal"

da Redação

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O artista Nuno Ramos ementrevista ao UOL (11/08/06)

O artista Nuno Ramos em
entrevista ao UOL (11/08/06)

Nuno Ramos, 48, é artista plástico, formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), e iniciou a carreira nos anos 80, com o grupo denominado Casa Sete, que reunia artistas influenciados pelo neo-expressionismo alemão de Anselm Kiefer, Georg Baselitz e Markus Lüpertz.

O artista, que participou da Bienal de 1983 --que trazia a polêmica "Grande Tela"-- falou, em depoimento ao UOL, sobre arte e sobre suas lembranças mais marcantes da Bienal de São Paulo.

"No meu primeiro contato com a Bienal, eu fui preso", relembrou Ramos, que, aos 19 anos foi parar no Dops (Departamento de Ordem e Política Social), numa batida policial na entrada do pavilhão de exposições.

Para o pintor, a Bienal é um "acerto" brasileiro: "Um pouco assim como a bossa nova, a seleção de 58", compara. "É sempre um momento de muita emoção".

"Por mais que se estrague com alguns temas, é muito difícil uma Bienal em que você não se depare com algumas coisas muito boas", considera Ramos, para quem títulos como "O Homem e a Vida" (18ª Bienal) e "Como Viver Junto" (27ª Bienal) fazem lembrar "seminário de Igreja Evangélica".

Leia a seguir o depoimento do artista:


NUNO RAMOS

Da Bienal para a cadeia
Quando eu tinha 19 anos, no primeiro ano do Governo Figueiredo, houve uma Bienal que tinha um sujeito chamado (Jean-Michel) Folon (1934-2005), que era um artista ilustrador.

E a gente gostava muito daquele Steinberg, aquele desenhista americano, o Folon era meio parecido, a gente foi ver, eu e o meu amigo. E no dia anterior, o Figueiredo, durante alguma coisa pública, agrediu a socos um sujeito. Ele era doido, pegou um cara da platéia e deu uma porrada, em plena ditadura. A gente não sabia de nada. Fomos à Bienal.

Chegamos lá, só tinha nego do exército, meio à paisana, e quando a gente desceu, vieram uns policiais pedirem documento. A gente tinha documento, cabeludo, aquela época...

Demos documento, mas levaram a gente para a rádio-patrulha. Ficamos na rádio-patrulha um tempão. Aí, nos levaram para o Dops, numa época em que isso era assustador, porque, enfim, já era um regime de abertura, já tinha passado o Geisel, já não se batia tanto, mas, de todo modo, a gente ficou com muito medo.

Ficamos quase 12 horas presos. Então, meu primeiro contato com a Bienal foi a cadeia, eu fui preso. A única vez que eu fui preso, foi por causa da Bienal para ver o Folon, que é um trabalho todo delicadinho, meio Paul Klee, enfim, um aquarelista... E eu fui parar no Dops.

Bienais marcantes
Uma coisa de que eu lembro bem foi uma Bienal (16ª, de 1981) em que veio o Philip Guston, uma Bienal muito importante para mim, para nós da Casa Sete que queríamos pintar, e ele era uma coisa que a gente aprendeu a ver na Bienal, acho que o primeiro contato foi a Bienal.

Acho que nessa mesma Bienal ou na Bienal seguinte, um pintor que eu adoro até hoje --o Guston, também eu adoro até hoje-- que é o (Bram) Van Velde, que é um amigo do (Samuel) Beckett, que faz uns guaches, pinturas também, mas principalmente guaches lindos, que veio uma coisa linda dele enorme, muita coisa. Isso era um pouco antes de eu ser artista.

Depois que eu comecei mesmo, teve uma Bienal que foi muito importante para mim que foi a de 83, em que veio a nova pintura alemã, que foi uma coisa que a gente super usou, super ficou impactado por aquilo, que parecia uma pintura de grande qualidade.

Hoje em dia eu já não gosto, à exceção, talvez, do Kiefer. De qualquer maneira foi uma lembrança bem forte. Lembro de uma sala do Jorginho (Jorge Guinle Filho). Lembro de uma sala do Kiefer, quando ele veio, muito bonita.

Enfim, quase toda Bienal, por mais que se estrague com alguns temas, sempre sobra muita coisa, é muito difícil uma Bienal em que você não se depare com algumas coisas muito boas, pela escala da coisa.

Bienal de 1985
Era de uma expectativa enorme, de a gente estar participando de um evento desse tamanho. Nós fomos convidados meses antes de ele iniciar, entramos no finalzinho mesmo.

Foi um grande susto, uma coisa quase eufórica de a gente estar ali. Agora, uma vez lá dentro, eu fiquei totalmente decepcionado. Eu não tenho uma lembrança forte daquilo.

Primeiro, como tudo no Brasil, uma vez que começa, acaba. Então, na semana seguinte à Bienal, já não havia quase que uma recepção àquilo.

Olha, eu acho que um pouco como na música popular, os grupos de rock também buscavam nos grupos punk alguma coisa que fosse diferente do caminho da MPB, a gente foi buscar um pouco na pintura que se fazia. Foi um caso desses de influência externa grande. Acho que isso passou não só para a gente da Casa Sete, como para outros artistas dessa época também.

Era uma época que vinha de uma ditadura militar, uma coisa muito fechada, então se buscava uma nova geração, num tom mais aberto. Acho que a gente teve nesse começo uma presença pública até exagerada, maior do que a gente deveria ter tido. Era uma coisa que estava se formando, se fazendo, e com as exposições que fizemos antes da Bienal e com a própria Bienal, nós tínhamos de fato uma presença meio assombrosa.

Claro que a Bienal contribuiu para isso, quando a gente entrou, quando a gente participou dela. Mas claro que a gente já vinha com isso há uns dois anos e pouco, exposições, também com divulgação boa.

Eu acho até que o trabalho de nós todos melhorou muito quando refluiu disso, quer dizer, conseguiu tensionar mais com o que foi feito aqui. Mas esse momento era um momento de influência forte de artistas como Lüpertz, Guston e Baselitz, que eram os artistas de que a gente gostava.

A "Grande Tela" é talvez o primeiro grande momento de uma presença curatorial totalmente avassaladora. É uma idéia de disposição que se volta um pouco contra aquilo que está sendo mostrado. Como se tudo fosse uma única tela.

É claro que nem o Jung, na idéia de inconsciente coletivo, ia achar que aquilo era uma mandala, né? Seriam obras de arte ocidentais, feitas dentro de parâmetros individuados. Essa individuação se perdia naquilo evidentemente... Tinha nego lá que tirava... Ele ia entrar com a sete, ele tirava a um e a sete para dar um vazio, porque era uma coisa totalmente invasiva.

Então, era uma coisa meio ambígua, como se se fosse um momento cosmopolita, ia estar todo mundo pintando igual no mundo inteiro, o que já é uma idéia estapafúrdia, e ainda por cima a coisa se voltava contra a gente. Ficava tudo igual.

Embora houvesse alguma igualdade, mas talvez então não fosse para chamar tantos artistas iguais.

De todo modo foi meu primeiro contato com essa coisa nova, que é o curador. Essa coisa que vem dos anos 80, o curador como um troço muito forte.

Institucionalização da arte
Então as Bienais têm essa coisa quase ridícula, que são os títulos: "O Homem e a Vida", "Imaterialidade", "Viver Junto". Essas coisas que parecem seminário de Igreja Evangélica. "O Homem e a Vida" é coisa lá da TV Record. A Bienal, na minha época, foi marcada por isso.

Antes dessa época, dessa Bienal em especial, a organização da Bienal, o curador era um pouco mais silencioso. Era menos enfático. Isso não é um fenômeno nacional, é internacional também. Só que aqui, não me lembro os nomes, é uma coisa de Igreja Evangélica, mesmo.

Na Bienal de 53, a 2ª, a estrela era a "Guernica" do Picasso. A estrela de hoje é o tema do curador, não é nunca um artista que vem. Há um deslocamento que não é culpa de curador, não é culpa de ninguém. É uma espécie, é um processo mais intenso.

Há um processo institucional cercando a arte muito intenso, muito forte. A Bienal herda isso de outras coisas, museus pelo mundo inteiro são muito mais capitalizados, há um número muito maior de museus. As instituições participam junto com os artistas da execução das obras, encomendam, o mercado é muito mais intenso.

O turismo é assim também, chegou em regiões onde não chegava. A indústria cultural chegou em regiões onde não chegava, chegou. E não adianta ficar lamentando como uma criança ou dizendo assim: "Puxa, Canoa Quebrada era tão legal quando eu ia queimar um fumo lá, com 15 anos, e agora tem aquele bando de japonês..."

E daí? A vida é assim, a gente precisa dar conta disso. Eu acho que a arte tem jeito de dar conta disso. Agora, é preciso poder falar mal, falar bem, é um jogo cultural de troca de opiniões, não vamos ficar muito cheios de dedos.

O mal é que os caras têm muito poder. Você fala mal, o cara não te convida para não sei o quê. Isso é o lado pequeno. Mas acho que é um jogo a ser jogado.

As instituições hoje têm um peso que de fato não tinham, o mercado tem uma coisa avassaladora. Acho que no Brasil ainda isso ainda é pequeno. Mas tem lados benignos também. É difícil imaginar uma obra como a do Richard Serra sem um apoio institucional gigantesco.

Hoje, um artista como ele entra numa fábrica de navios, pára a fabrica e constrói seus navios. Há 40 anos isso era impensável.

Então, quando esse poder é usado para o bem, como no caso dele, eu acho que é uma coisa brilhante. Agora, eu acho que há muita bobagem no meio, muito controle. No fundo, acho que os artistas têm que fazer mais o papel deles, que é fazer coisa estranha, não cair muito. Não ficar preso demais a esse mundo, criar situações novas.

Que nem jogador. Eu não vou ficar falando mal do Parreira, que o Ronaldinho não jogou. O Ronaldinho que jogasse. Seja qual for o esquema tático que o Parreira fez, havia um sujeito chamado Ronaldo Gaúcho que não jogou bem.

Os artistas que se virem. Nessa situação institucional, onde o curador é uma figura, mas há outras. Não é só o curador. O diretor de museu, às vezes, manda no curador. Às vezes, o patrocinador tem uma força grande nessa dinâmica.

Qual seria a solução? A gente ficar querendo que o mundo fosse mais puro e delicado? Não, eu acho que a gente tem que saber jogar. E, dentro disso, fazer boa arte, seja lá o que isso for.

Mas, de todo modo, eu acho que a Bienal é sempre um momento de muita emoção. Até hoje quando eu vou, eu acho. Às vezes você viaja, vê uma coisa lá fora... quando você vê aqui é uma coisa muito tocante.

Quando eu vi o Beuys... é uma coisa emocionante de ter aqui, bem disposto. Eu acho que a Bienal é dessas coisas um pouco assim como a bossa nova, como a seleção de 58. É desses momentos em que o Brasil fez um esforço cosmopolita que deu certo.

Eu acho que o sonho de todo intelectual de classe média, como eu, é de que o Brasil se cosmopolitizasse, que conseguisse criar uma frente cultural, histórica, ocidental em pé de igualdade.

A Bienal é um lugar em que você se sente um pouco assim. Você é conduzido a uma situação desse tipo. Eu até hoje sou muito favorável àquilo dentro de mim, forço para aquilo dar certo.

Acho sempre que há idéias, coisas, ruídos demais entre o público e a obra. Devia ser um negócio mais desencanado. Mas, enfim, como tudo isso, sobra sempre coisa muito legal de ver. A gente tem que ir várias vezes.