
Mauro Restiffe: "Quis criar uma tensão entre Brasília e Istambul"da Redação
O fotógrafo Mauro Restiffe, 36, expõe na 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo três séries de trabalhos feitos em Istambul, Brasília e em Mirante, cidade do interior de São Paulo.
Em depoimento ao UOL, o artista contou que, nas fotos, trabalhou o contraste entre a vastidão de grandes espaços urbanos cheios de gente, o intimismo de edifícios vazios e cenas bucólicas de pessoas de sua família contato com a natureza. "Eu quis criar uma relação, uma tensão entre Brasília e Istambul, através da quebra de estereotipo. Brasília com o estereotipo de cidade vazia, tomada naquela ocasião, e Istambul, que é uma cidade totalmente lotada, mostrada por um ângulo de interiores, praticamente desabitada", declarou Restiffe na entrevista. Mauro Restiffe é formado em Cinema pela Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado), em São Paulo, e estudou no International Center of Photography, em Nova York, onde viveu por quatro anos, até 1995. O fotógrafo, que tem uma preferência por trabalhos em preto e branco, fez sua primeira exposição em 1996, no Antártica Artes com a Folha, e participou em 2006 da Bienal de Fotografia e Artes Visuais de Liège, na França. Bienais marcantes Na minha faculdade, eu sempre ia às Bienais, mas eu não entendia tanto. Eu era mais jovem também, tinha sempre aquela... Você vai sempre pra aquilo que te chama mais a atenção visualmente ou para aquilo com que você tenha uma ligação, principalmente quando você não é um entendido, quando você não tem uma percepção maior do que tudo aquilo é. Eu era bem ligado a música na época, e teve uma sala, uma audioteca, que tinha música de todo lugar do mundo. Que quem organizou foi o Kodiak Bachine, que era meu amigo na época, o alemão Michael Fahres, e o Brian Eno. Eu lembro que foi uma das Bienais (19ª, em 1987) que eu mais freqüentei, que eu sempre ficava naquele lounge, ouvindo música e depois dando, uma circulada. Essa foi bem marcante. Depois, obviamente, foi a de 96, que foi paralela ao Antártica (Antártica Artes com a Folha), que eu vivi intensamente. E a memória maior que eu tenho de uma Grande Bienal foi a de 98, do Paulo Herkenhoff (curador), cujo tema era antropofagia, e que foi bem marcante também. Principalmente os artistas brasileiros. Eu lembro que eu fiquei impressionado com a qualidade dos artistas brasileiros expondo naquela Bienal. Foi fantástico. A questão da arte contemporânea brasileira se concretizou muito para mim, naquele momento. Ver todo aquele grupo de artista, juntamente, mostrando com os artistas internacionais, com um peso muito grande de um toque Curadorial. Foi bem sofisticado, me marcou bastante também. Istambul e Brasília Eu fotografei Brasília em janeiro de 2003 e fotografei Istambul em setembro de 2003. Em 2004, foi quando eu comecei a trabalhar essas imagens, comecei a ampliá-las. Eu ia pro laboratório, começava a dar vida para esse trabalho. E trabalhei paralelamente Istambul e Brasília, e aí eu trabalhei tanto junto nessas duas séries, que eu resolvi mostrá-las juntas. Eu chamei essa série de "Empossamento" A Série de Brasília, o título dela é "Empossamento". Vai de impulsamento número 1 até número 10. Que é a invasão desse campo, ali da Esplanada pela multidão. E, pra mim, essa questão temporal, do espaço de Brasília, essa idéia de apresentar Brasília, vazia e depois cheia, foi o motivo maior de colocar essa série junta, porque tem esse estereótipo de Brasília como uma cidade vazia. E nessa ocasião ela foi totalmente tomada pela multidão, que literalmente se empossou da cidade. Esta imagem particular eu gosto muito, porque ela gera uma tensão. Tem esses policiais aí no meio, circulando, com esses canhões que foram utilizados para a salva. E aqui é praticamente o fim da festa, essa aqui é uma das últimas da série, número 8. Em contraposição, eu vou pegar aqui, a "Empossamento" número 1, e essa aqui é a número 8, praticamente o mesmo ponto de vista, antes e depois. Eu quis criar ali uma relação, uma tensão entre Brasília e Istambul. Muito através dessa quebra de estereotipo. Brasília com o estereotipo de cidade vazia, tomada naquela ocasião, e Istambul, que é uma cidade totalmente lotada, abarrotada de gente, mostrada por um ângulo de interiores, praticamente desabitada. Eu chamo (esta foto) de "Pilar", e esta aqui que você está focando é "Carpete", é um piso de uma Mesquita em Istambul. A relação disso com Brasília é que é um espaço vazio, mas que evoca multidão. A multidão que ainda não está presente na hora da prece. Esse chão vazio vai ser totalmente tomado pelos fiéis. Aqui é uma outra, chama "Pirâmide". Essa arquitetura de Istambul também é bem estranha. E aqui é um Mercado Externo. Chamei essa foto de "Street Mart", mercado de rua, também fazendo um paralelo a Brasília. A arquitetura meio que parece esvaecido no fundo, essa coisa meio esfumaçada, que tem lá em Brasília e Istambul também. E aqui a gente entra na última série, chamada Mirante. Mirante é o nome desse lugar, no interior de São Paulo onde eu cresci e onde eu sempre vou (mostra foto). Retrata a paisagem, as figuras, essa relação desses personagens que na verdade, de forma nenhuma foi posado, é sempre uma captação mesmo. São pessoas que eu conheço, minha família até, nessa situação de relação com a natureza. Minha família ela é um tema recorrente no meu trabalho. Às vezes, ela aparece mais, como neste trabalho, às vezes, mais como um pano de fundo. Neste caso, acho que tem até uma relação com a pintura. Essa é a terceira (série), que vai ser apresentada também na Bienal, separada da de Brasília e a de Istambul. Fotografia e Cinema Eu estudei cinema, fiz cinema na Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado) e paralelamente à universidade eu já comecei a ter umas aulas de fotografia, numa escola de fotografia que tinha aqui em São Paulo, que sempre me chamava atenção. Logo que eu comecei a faculdade, a fotografia começou tomando muito mais espaço, que eu logo comecei a me envolver mais diretamente do que aquela coisa que você está começando a estudar. No primeiro ano de faculdade, está tudo muito vago, e a fotografia já foi uma coisa muito mais mão na massa. Eu comecei a ter resultados muito mais imediatos, e, de cara, comecei a trabalhar com isso. Comecei a trabalhar com vários fotógrafos, como assistente de fotografia, e também me envolvi, tive um envolvimento muito imediato, muito mais rápido que a faculdade. A faculdade acabou ficando mais em segundo plano para mim. Quando eu terminei minha faculdade, eu já estava bem avançando na fotografia, já tinha certeza de que o que eu queria fazer era fotografia. Eu me considero um fotógrafo que expõe nas artes plásticas, que tem um diálogo mais forte com as artes plásticas do que até mesmo com a fotografia. Quando eu terminei a faculdade, eu fui para exterior, fiquei quase dois anos fora, estudando fotografia. Fui para Nova York e fiquei estudando fotografia, mas com um teor "lingüístico" maior da coisa. E lá, obviamente, me expus a essa efervescência da cidade, e onde eu procurava fotografia era nos museus, nas galerias. Mas o que mais me pegou naquela estadia lá foram as artes plásticas em geral. Teve uma exposição que vi no MoMA, acho que em 95, do Bruce Nauman... Foi o primeiro artista contemporâneo que eu vi que me chamou atenção demais, na prática artística. Quando eu voltei para o Brasil, cheguei totalmente motivado. Também tinha passado um tempo fora dos Estados Unidos, na Rússia, fotografando bastante. Voltei, comecei a mexer no meu material, e, nesse momento, estava tendo o Antártica Artes com a Folha (1996), uma mostra que começava a selecionar artistas. E foi minha primeira exposição. Isso foi em 96. Foi uma mostra paralela à Bienal de São Paulo que marcou o início da minha carreira como expositor. E essa exposição para mim foi bem crucial. Porque eu era fotógrafo, e no contexto das artes plásticas, foi um baque. Eu lembro que na época expus umas fotos bem pequenas, bem intimistas. Logo depois que a mostra abriu, (pensei) "qual o poder da fotografia no meio das artes plásticas, em geral?" Tem instalação, tem escultura... Qual o peso da fotografia perante essas outras mídias? Aquilo me marcou muito, porque passei a entende a fotografia de uma outra forma. Foi uma introdução crucial para mim. Aí, a escala (do trabalho) também acabou mudando. Eu comecei a pensar no poder de uma imagem só, ao invés de pegar, sei lá, nove pequenas fotografias, o que você falaria com uma só? Passei a sintetizar um pouco mais e parar um pouco com grupos de edição, com séries. Passei a pensar a fotografia como uma imagem só, a tratá-la como uma imagem individual, e, hoje em dia, eu acabei voltando àquilo que eu fazia. Nunca trabalhei muito em série, mas agora eu estou voltando a trabalhar em série. Meu trabalho tem um diálogo bem marcado da fotografia com o cinema e eu acho até assim, óbvio, da questão temporal, da questão espacial, agora eu comecei a fazer uns dípticos, trípticos e polípticos que eu nunca tinha feito antes. Uma das séries que estará na Bienal é uma seqüência de Brasília. É um políptico que mostra a invasão da multidão quando Lula chegava na Esplanada, e o povo invadiu a Esplanada dos Ministérios. Eu acabei fazendo uma seqüência do preenchimento desse espaço. Obviamente, quando você coloca uma imagem junto à outra, existe um diálogo, existe uma dinâmica que eu acho que é muito cinematográfica. Mas como lidar com a questão do tempo no espaço, no espaço expositivo, que é diferente do cinema, em que você entra na sala e é apresentado à obra. Lidando com o aspecto físico da fotografia e do espaço expositivo, existe uma outra dinâmica, que é a do espectador se movendo, e não daquela inércia do espectador da sala de cinema, que senta e é apresentado à obra. Acho que, nas artes plásticas, na fotografia, nos espaços expositivos a gente tem essa dinâmica do movimento ser dado pelo espectador. |
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