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Marcelo Cidade: "Estou negociando e comunicando para descomunicar"

da Redação

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O artista Marcelo Cidade conta como será seu trabalho na 27ª Bienal (13/07/06)

O artista Marcelo Cidade conta como será seu trabalho na 27ª Bienal (13/07/06)

O artista Marcelo Cidade, 27, que participa pela primeira vez da Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 2006, deu um depoimento ao UOL em que falou sobre os trabalhos que apresentará e sobre sua carreira.

Cidade, que começou seu trabalhho como grafiteiro, faz hoje intervenções em espaços públicos, instalações e fotografias -que na maior parte das vezes registram suas performances ou intervenções.

Em "Fogo Fato", o artista fotografou as marcas de fogo deixadas por moradores de ruas em muros de São Paulo e os contrapôs a marcas criadas por ele próprio. Em "Eu-Horizonte", Cidade registrou uma performance realizada nas ruas da cidade, em que se pendurava nu em postes.

Para a 27ª Bienal, a três meses do início da montagem da exposição, em julho, o artista mostrou o projeto inédito que apresenta, "Fogo Amigo", composto por seis bloqueadores de celular.

"A idéia não é de ver a exposição sem ser interrompido pelo telefone", explica Cidade, "é de que a pessoa seja interrompida pela exposição".

Veja a seguir a íntegra do depoimento:

Minha mãe ficava louca e eu ia para a rua
Como eu nunca tive um ateliê, um espaço para produzir, eu sempre morei muito longe da faculdade. Então, essa coisa de atravessar a cidade para ir lá, ter esse cotidiano na rua, era uma coisa que ma dava muita liberdade. Muito mais liberdade de ficar do lado de fora que do lado de dentro. Na casa dos meus pais era tudo muito chato, muitas autorizações para fazer as coisas. Sujei a parede. Aí, minha mãe ficava louca e eu ia para a rua.

Na faculdade, eu comecei a fazer meus trabalhos na rua, que eu achava um lugar mais interessante do que um cubo branco, do que um museu, um lugar fechado. Então, eu sempre ficava na insistência de fazer esses trabalhos na rua, já tinha essa história com o grafite, já tinha certa experiência de como agir na rua.

E aí exatamente o trabalho foi ganhando um ar de intervenção urbana. Hoje em dia, se fala muito em intervenção urbana, mas na época, não sei, não tinha muito uma relação consciente de "vou fazer uma intervenção urbana".

E, desde então, eu fui percebendo que o meio urbano é muito "rico" de problemas, ainda mais São Paulo. De problema social, problema de calçada furada, problema de asfalto, problema de obra que acaba na metade, problema de corrupção e não sei o que... E que para mim são muito mais interessantes do que problemas relacionados a uma estética de arte, a um purismo de pintura, de maneirismo, de você ficar pensando a estética pela estética. E (leva a) tentar arriscar em outras situações, tentar levar até o limite o que eu posso fazer como artista.

A rua e a galeria
Os trabalhos acabam tendo dois momentos. Um momento que é uma ação na rua, que poucas pessoas vêem, e uma documentação. Eu não gosto da palavra "documentação", eu prefiro a palavra "resíduo", como se fosse o que sobrou dessa ação efêmera na rua. E essa ação efêmera vai para galeria para criar uma outra experiência.

Eu pensei a idéia de um outro lugar, e como eu vou trazer toda essa experiência que eu tenho de liberdade da rua para dentro do cubo branco. E daí, esse virou um novo desafio. Como a rua já era uma situação livre para mim, estar dentro começou a ser uma situação de experimentação, de desafio.

Eu quero lidar com o cubo branco da mesma maneira que eles lidam com a rua. E aí acabar relacionando com a situação, com instituições, com galerias com uma nova relação de mercado.

Hoje em dia, eu digo que eu estou dentro, sim, estou dentro do sistema, estou na Bienal, estou na Galeria Vermelho, eu não nego isso. Mas eu penso em como criar uma estratégia de vida, para a troca que você tem com essas instituições ser uma coisa de igual para igual, dos dois lados saírem bem, não ter mais a instituição.

Hoje em dia, eu acho que a bomba tem que ser lá de dentro. Eu estando dentro, eles me dão a possibilidade de eu pensar aquilo que está dentro. e criticar eles mesmos. Usar o meio para criticar o próprio meio.

A minha intenção é criar pequenas situações que criam um rompimento nessa rotina paulista. Que a pessoa, de repente, pare por um segundo e fale "nossa!".

Quando eu levo isso para a galeria, atinge um povo que geralmente não é o pessoal, os camelôs de pinheiros, os mendigos, as putas do bairro, esse pessoal quem tem um convívio mais firme com a rua. É um outro povo.

Mostrando lá, eles vão para casa e vão começar a olhar a rua de uma maneira diferente. Sei lá, pode ser meio utópico, meio babaca, mas eu ainda acredito.

Eu tenho também um trabalho que se chama "Fogo Fátuo", que é bem recente. O trabalho é um registro fotográfico de marcas do fogo deixadas por moradores de rua no inverno. Eles vão lá e fazem aquela fogueirinha, e aí fica aquele preto na parede. Eu comecei a registrar isso. E depois comecei a fazer as minhas próprias marcas de fogo com spray, meio que "falsificando" umas marcas.

E eu trabalho exatamente essa comparação. Que ação é a legitima realmente? Que legitimidade tem a arte?

Eu, como artista, estou lá fazendo, mas, na verdade, estou falsificando uma ação comum e real de um cara que está sobrevivendo, que está fazendo fogo para se esquentar --e que é a única coisa que o cara tem como meio de vida.

E quando isso vai para a galeria, a minha idéia não é que a pessoa compre um pôster meu. É que a pessoa vá e comece a reparar que isso é um problema.

Você pluga na tomada, aperta "on" e ele faz "bum!"
Toda a minha pesquisa de trabalho é mais voltada para o anonimato do que para uma aparição do meu rosto.

Ainda com o grafite você cria situações de ser quase invisível na cidade. De ir lá, fazer e ninguém me ver. E ver o trabalho depois. Uma coisa de "estratégia de grafite", de invadir um túnel de metrô, pintar o metrô, sair de lá e ir para a Sé e ver o metrô passar como se eu fosse "normal".

De repente, todo mundo quer saber quem é você, pergunta quem é você. Você que é o Marcelo? Daí, começa a ter uma coisa, eu não sei... Eu ando bem assustado, virando meio sociopata... Essa coisa de vernissage, o cara tira foto, não sei o que, eu nunca tive esse tipo de experiência.

E aí, começou a ser bem assustador. Eu comecei a pensar, lendo o cotidiano todo dia você começa a ver os problemas e problemas e problemas, e aí o trabalho apareceu exatamente para tentar ter uma rotina de não pensar no trabalho. Eu falei: "não vou pensar no trabalho para poder pensar no trabalho".

A proposta da Bienal era exatamente a de apresentar um projeto. Três antigos e alguns novos. Um é o "Direito de Imagem", que são falsas câmeras de segurança feitas de papel cartão, numa instalação que cria um falso sistema de segurança.

Este é aqui é o único registro do projeto que eu tenho do "Intramuros" (mostra o caderno de esboços). O que rolou foi exatamente uma negociação com todos os outros artistas da Bienal, porque este trabalho vai ficar em cima dos trabalhos dos outros artistas. Então força uma relação do trabalho, de uma exposição coletiva.

Todo mundo está falando de "exposição coletiva", que um trabalho "conversa" com o outro, e a relação deste com outro... Na verdade, todos querem o seu espaço lindo e maravilhoso para apresentar o seu trabalho.

A Bienal tem uma coisa de competição do trabalho, e esse trabalho também é uma idéia de quase parasitismo, porque ele fica sobre o outro trabalho. Vão ficar esses tijolos com uns caquinhos de vidro em cima, "protegendo o espaço privado". Talvez a privacidade seja de cada trabalho.

Estou sempre lidando com essa idéia da vigilância e da não vigilância.
O outro projeto, que eu acho que foge um pouco dessa idéia, se chama "Escada Parasita", que são essas escadas de emergência, tipo de incêndio, de metal, que ficam para fora do prédio.

Ela é só lance de escada, só que ela sai de lugar nenhum para outro nenhum lugar, e fica no meio da parede, e é para colocar na fachada. E também já pensar a desfuncionalização da arquitetura, como existe um monte de ornamentos urbanos que acabam acontecendo pelo crescimento descontrolado da cidade e vão sobrando alguns elementos ali que ficam. Às vezes, a funcionalidade se foi. Faz uma reforma e aquela escada poderia ter ficado para fora.

Eu pensei num projeto inédito que chama "Fogo Amigo", e o trabalho vai ser a instalação de seis bloqueadores de celular, desses de cadeia, só que tem um perímetro menor, com um raio de 20 metros cada um de alcance, bloqueando as ligações das pessoas ali dentro.

O que eu tenho pensado é exatamente em criar um poste de rua mesmo, como se tivesse uma caixinha, e dentro dessa caixinha estaria o bloqueador de celular.

Engraçado, porque é um trabalho invisível, não tem a mão do artista. Já com a planta da Bienal, deu para fazer um estudo, e a idéia era criar um caminho entre cada um (bloqueador de celular). Que a pessoa crie uma (rota de) locomoção pelo prédio para poder falar.

A idéia não é de ver a exposição sem ser interrompido. É de que a pessoa seja interrompida pela exposição.

Mas aí, começam a entrar os problemas institucionais da fundação (Bienal). O grande problema é a questão legal. Chegou uma carta de um advogado falando que o problema seria "interromper a liberdade de comunicação das pessoas dentro do prédio".

Mas, na minha cabeça, eu tenho estratégias para que o trabalho aconteça de uma maneira ou de outra. O trabalho vai acontecer.

O que me chega é apenas o "sim" ou o "não". Tem esse problema, o que a gente faz? E essa negociação vai existindo. Isso acaba virando o processo do trabalho, e, nesse caso, como é um projeto quase conceitual (não é estética), não vai ter fisicalidade praticamente nenhuma. Essa negociação, essa conversa, é uma comunicação. Então, eu estou negociando e comunicando para descomunicar, para romper essa comunicação.

A idéia do trabalho do bloqueador fisicamente tem a mesma aparência (mostra uma antena externa de TV). Tem uma caixinha, com uma anteninha que você pluga na tomada, aperta "on" e ele faz "bum!"...